Destaques:

Resposta: a que convém ao momento.

Ok, acho que um dos papéis do jornalismo é apontar os problemas nos diversos serviços públicos (deveria falar mais de empresas privadas também, mas deixemos isso pra um outro momento). Mas quando se fala SÓ dos problemas de uma política que se sabe que teve muitos avanços, o jornalismo já não está mais cumprindo seu papel. Hoje a rádio de maior audiência do estado entrevistou professores de escolas da rede pública estadual para que falassem de problemas de infraestrutura nas suas unidades. Nenhuma escola que foi reformada foi convidada a participar, pelo menos na parte do programa que eu ouvi. Dessa forma, a rádio instaura um cenário de caos, mas que é um cenário parcial, que não corresponde ao todo da realidade. Cria uma percepção do todo com base na parte e não contribui para a compreensão da situação da educação no Estado. Aí vão alguns poucos dados que mostram alguns dos avanços:

provincia sao pedro- 63 escolas já têm um computador por aluno

- embora ainda bem longe do ideal, os professores da rede pública estadual receberam 76,68% de aumento e nenhum percebe, na prática, menos que o piso

- 5,5 mil novos professores foram nomeados

- 1.800 escolas foram reformadas ou receberam algum tipo de intervenção, totalizando R$ 300 milhões em investimentos

Aqui é possível encontrar mais informações sobre o programa Província de São Pedro, que tem como objetivo destinar um computador por aluno da rede estadual.

Educação é um ponto sensível, sim, até porque foi o tema escolhido pela mídia para fazer a oposição mais pesada. Toda a estrutura, desde as instalações até os recursos humanos estavam completamente defasados. Lembram das escolas de lata?

Ainda está longe do ideal? Claro! Os professores seguem ganhando pouco, as escolas ainda não estão adaptadas às necessidades do século XXI – muitas ainda nem às do século XX -, mas na política a gente sempre tem que avaliar em perspectiva, e comparar é fundamental. Quando antes houve avanços tão grandes em tão pouco tempo na educação no Estado?

Pois é.

Obras em escola

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Aliás, vale dar uma bisoiada também (quer dizer, não vale muito) na coluna da Maria Isabel Hammes, na editoria de Economia da Zero Hora hoje (6). Ela defende claramente uma política de redução de investimentos, de corte de gastos, para que se consiga diminuir a dívida do Estado. Mais ou menos o que fez o governo Yeda, que parou de investir e estagnou o Estado. Que andou pra trás. Isso no mesmo dia que o seu colega critica repetidamente a situação das escolas. Mas peraí, é pra investir ou não? Percebam que a equação do Grupo RBS não funciona. Como melhorar os serviços e aplicar a política do Estado mínimo ao mesmo tempo? Pra andar pra frente, pra funcionar, o Estado precisa de investimentos. A política de incentivo ao desenvolvimento aplicada pelo Governo Tarso se baseia justamente no aumento de investimentos, na recuperação da estrutura do Estado. Mas infelizmente muitos desses investimentos ainda estão recuperando o rombo causado pela inércia dos serviços públicos na gestão anterior. Ainda restam muitos problemas, sem dúvida, mas, repito, é preciso ver em perspectiva. E aí se percebe o tanto que se vem avançando.

O que não dá é pra pedir escolas melhores, salários melhores, estradas melhores, novos hospitais, mais médicos e assim por diante e ao mesmo tempo pedir redução de impostos e corte de gastos. Afinal, é Estado mínimo ou é mais Estado? Podiam pelo menos definir uma linha de raciocínio, pra criticar de um jeito um pouco menos contraditório.

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Fotos: alunos com computadores do projeto Província de São Pedro – Camila Domingues/Palácio Piratini e obras na Escola Estadual Desvio Rizzo, em Caxias do Sul – Pedro Revillion/Palácio Piratini


Por Luiz Inácio Lula da Silva*

Lula

São gravíssimos os atos de espionagem praticados pela NSA – a Agência Nacional de Segurança dos EUA – contra os Chefes de Estado do Brasil e do México. Nada, absolutamente nada pode justificar a interceptação de telefonemas e a invasão da correspondência reservada dos Presidentes da República de países amigos, ferindo a sua soberania e desrespeitando os princípios mais elementares da legalidade internacional. E é mais grave ainda que importantes autoridades norte-americanas tenham querido legitimar tal agressão com o argumento de que os EUA estariam “protegendo” os interesses dos nossos países.

À medida que a verdade dos fatos vai sendo revelada, fica evidente que, no caso brasileiro, além da Presidente Dilma Rousseff, a Petrobrás, nossa empresa petrolífera, também foi espionada pela NSA, o que desmente as alegadas – e já por si inaceitáveis – razões de segurança.

A inadmissível ingerência nos assuntos internos do Brasil e as falsas razões alegadas provocaram a indignação da sociedade e do governo brasileiros. A Presidente Dilma Rousseff já questionou diretamente o Presidente Barack Obama sobre o problema e aguarda uma resposta convincente, à altura de sua gravidade.

O governo brasileiro está tratando o caso com a maturidade e o sentido de responsabilidade que caracterizam a Presidente Dilma Rousseff e a nossa diplomacia – mas é impossível subestimar o impacto que ele pode ter, se não for adequadamente resolvido, para as relações Brasil-EUA.

Basta imaginar o escândalo e a comoção que aconteceriam nos Estados Unidos se algum país amigo interceptasse ilegalmente, sob qualquer pretexto, os telefonemas e a correspondência reservada de seu Presidente.

O que leva um país como os EUA, tão justamente ciosos de sua democracia e de sua legalidade internas, a afrontarem a democracia e a legalidade dos outros? O que faz pensar às autoridades norte-americanas que elas podem e principalmente devem agir de modo tão insensato contra um país amigo? O que as faz acreditar que não existe nenhum inconveniente moral ou político em desrespeitar o Chefe de Estado, as instituições e as empresas do Brasil ou de qualquer outro país democrático?

E o mais inexplicável é que essa flagrante ofensa à soberania e à democracia brasileiras acontece num contexto de excelentes relações bilaterais. O Brasil, historicamente, sempre valorizou as suas relações com os Estados Unidos. Nos últimos dez anos, trabalhamos ativamente, e com bons resultados, para ampliar ainda mais a interação econômica e política do Brasil com os EUA.  Mantivemos ótimo diálogo institucional e pessoal com os seus governantes. Apostamos em uma parceria de fato estratégica entre os dois países, baseada em interesses comuns, sem prejuízo do nosso esforço pela integração da América Latina e de um maior intercambio com a África, a Europa e a Ásia.

Para isso, não hesitamos em enfrentar a desconfiança e o ceticismo de amplos setores da opinião pública brasileira, ainda traumatizados pela participação direta do governo norte-americano no golpe de Estado de 1964 e o seu permanente apoio à ditadura militar (como, de resto, a outras ditaduras militares do continente). Nunca duvidamos de que aprofundar o diálogo e fortalecer os laços econômicos e diplomáticos com os Estados Unidos fosse a melhor maneira de ajudá-los a superarem aquela página sombria das relações interamericanas, e a sua política de ingerência autoritária e antipopular na região.

No episódio atual, se ambos os países querem preservar o muito que as nossas relações bilaterais avançaram nas décadas recentes, cabe uma explicação crível e o necessário pedido de desculpas dos EUA. Mais do que isso: impõe-se a sua decidida mudança de atitude, pondo fim a tais práticas abusivas.

 Os EUA devem compreender que a desejável parceria estratégica entre os dois países não pode assentar-se na atitude conspirativa de uma das partes. Condutas ilegais e desrespeitosas certamente não contribuem para construir uma confiança duradoura entre os nossos povos e os nossos governos.

Um episódio como esse, por outro lado, demonstra o esgotamento da atual governança mundial, cujas instituições, regras e decisões são frequentemente atropeladas por países que muitas vezes confundem seus interesses particulares com os interesses de toda a comunidade internacional. Demonstra que é mais urgente do que nunca superar o unilateralismo, seja ele dos EUA ou de qualquer outro país, e criar verdadeiras instituições multilaterais, capazes de conduzir o planeta com base nos preceitos do Direito Internacional e não na lei dos mais fortes.

O mundo de hoje, como ninguém ignora, é muito diferente daquele que emergiu da 2ª Guerra Mundial. Além da descolonização africana e asiática, diversos países do sul se modernizaram e industrializaram, conquistando importantes progressos sociais, culturais e tecnológicos. Com isso, adquiriam um peso muito superior no cenário mundial. Hoje, os países que não fazem parte do G-8 representam nada menos que 70% da população e 60% da economia do mundo. Mas a ordem política global continua tão monopolizada e restritiva quanto no inicio da guerra fria. A maioria dos países do mundo está excluída dos verdadeiros espaços de decisão. É injustificável, por exemplo, que a África e a América Latina não tenham nenhum membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou que a Índia esteja fora dele. A governança global precisa refletir o mundo contemporâneo. O Conselho de Segurança só será plenamente legítimo e democrático – e acatado por todos – quando as várias regiões do mundo participarem dele, e os seus membros não defenderem apenas os próprios interesses geopolíticos e econômicos, mas representarem efetivamente o anseio de todos os povos pela paz, a democracia e o desenvolvimento.

Esse episódio e outros semelhantes apontam também para uma questão crucial: a necessidade de uma governança democrática para a internet, de modo que ela seja cada vez mais um terreno de liberdade, criatividade e cooperação – e não de espionagem.

* Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula


Eis que o Globo faz um mea culpa e se diz arrependido de ter apoiado o golpe militar no Brasil. Peraí, é isso mesmo? Hmm, na verdade, não exatamente. O editorial em que o jornal carioca assume que quase 50 anos atrás fez outro editorial comemorando o 1º de abril de 1964 como o ressurgimento da democracia diz sim que foi um erro, mas não chega a dizer que não deveria ter feito o que fez ou que hoje não faria o mesmo.

Ok, assumir um erro, antes tarde do que nunca, é válido, assim como responder ao clamor das ruas. Mas só é válido mesmo se é legítimo. E desconfio que não seja o caso.

Primeiro, o texto cita outros jornais e “parcela importante da população” como que para dizer que não estava sozinho e diminuir sua culpa. Manhê, o Joãozinho jogou bola dentro de casa, daí eu joguei também e quebrei o vaso. A culpa é tão do Joãozinho quanto minha. Ou seja, bora apontar o dedo pros outros pra tentar aliviar a consciência, diminuir um erro que é nosso, só nosso. Ainda mais quando já somos bem grandinhos e podemos – devemos – tomar decisões sozinhos.

Depois, criticam João Goulart, suspeito ainda de dar um golpe, o que justificaria, então, outro golpe defensivo. Hein? Boa estratégia, defender um golpe pra evitar outro golpe que seria dado pelo presidente democraticamente eleito, que, por sua vez, foi antidemocrático ao retomar o presidencialismo através de um, vejam bem, plebiscito, com votos do povo. Muito coerente. Tem um parágrafo ali tão torto, tão contraditório e tão cheio de ódio que chega a dar preguiça. Mas que comprova que as intenções do editorial não são tão verdadeiras assim.

Aí querem nos fazer crer que passaram a ditadura inteira tentando convencer os militares a acabar com ela. Aham. Pra isso, citam um editorial de Roberto Marinho em 1984. Elogiando Geisel, um presidente-ditador, ainda que tenha sido ele o responsável pela abertura inevitável. “Destacava também os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara a sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da democracia”. Ou seja, reconhecia totalmente o erro, só que não. E ainda o justificava.

“Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade.” E eu achando que era um texto pra reconhecer que tinha acontecido extamento o contrário e pra pedir desculpa a todos que foram expulsos do país, que foram presos, torturados, mortos. Já no fim, ainda diz: “Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva”. Não, não são. Muitos deles estão vivos e ainda buscam, no mínimo, um pedido de desculpa, já que a justiça parece tão distante. Esse pedido não veio. E, na boa, sem ele esse texto todo não vale nada.

É bonito dizer que foi um erro, mas “pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país.”

Em determinado momento, o editorial diz que é preciso compreender os atos e os posicionamentos dentro do seu contexto. De fato, por justiça, é preciso entender o momento histórico. Nesse caso, é hipócrita não dizer que as Organizações Globo lucraram imensamente com a a ditadura. Não seriam o que são hoje sem ela. E isso, olha só, não está no texto.

Ainda que fosse um mea culpa de coração, não seria suficiente. A sociedade continua pagando pelos posicionamentos das grandes organizações da mídia. Ainda espero um editorial da Globo assumindo a criminalização dos movimentos sociais, o apoio na eleição do Collor, a perspectiva neoliberal por que rege seu noticiário, a tentativa de derrubar governos democraticamente eleitos porque são de esquerda e tantas outras coisas.

De qualquer forma, já é possível dizer com certeza que o período de 64 a 85 foi, na verdade, uma ditadura civil-militar, com apoio de parcelas poderosas da sociedade civil, como grandes grupos de imprensa.

 


À saúde

27 de agosto de 2013 por Cris Rodrigues 3 Comentários

Sempre pensei na medicina como uma profissão nobre. A mais nobre de todas. E sempre achei que marcar o x em medicina no vestibular significava uma vontade grande de trabalhar para os outros, pela vida. Pena que as coisas mudaram e o fato de ser uma profissão que dá dinheiro tenha se tornado mais relevante na hora da decisão.

Aí acontece o que a gente vê hoje no Brasil. Os médicos não querem ir pro interior. Ok, entendo não querer se afastar das famílias, dos centros culturais, aquela coisa toda. Mas sabe, tem gente que mora lá no interior. Lá na zona rural, na periferia das cidades, nas pequenas vilas, as pessoas também precisam de médico. Se você não quer se embrenhar lá no interior do desconhecido, ok, mas por que é tão contra aquele que quer?

Médico, quando você não quer atender e é tão contra quem quer, você está se mostrando extremamente desumano, cruel até. Justo você, que tem a humanidade e o amor ao próximo como requisito básico para o exercício da profissão, antes da ciência, da técnica, do conhecimento, antes da infraestrutura. Compaixão é básico, sabe. E ó, o que a gente viu hoje no Brasil está um tanto longe disso. Hostilizar pessoas que estão se afastando de suas famílias, de seu país e se embrenhando no interior de outra pátria que não a sua porque acreditam na necessidade de ajudar outras pessoas é bem egoísta. Tanto com o médico que está chegando quanto com os pacientes que precisam dele. Ainda mais do jeito que essa “opinião” foi expressada, de forma agressiva e preconceituosa, com as últimas pessoas que mereciam ter sido agredidas nesse momento, que mereciam, isso sim, a gratidão de todos nós, de quem precisa e de quem não precisa delas.

Ao longo dos dez anos de governos petistas no Brasil, talvez não tenha havido nenhum enfrentamento de verdade a um poder corporativista estabelecido como está sendo feito agora. É mais um passo importantíssimo na transformação social do país, mas acho mesmo que dá pra dizer que é o primeiro poder que é atingido diretamente.

A crueldade desses médicos que se colocam contra os colegas de outras nacionalidades e um programa que visa ampliar o atendimento de saúde (que não são todos, fique claro) soma-se ao espírito individualista da imprensa, que defende os interesses de uma elite preconceituosa e egoísta, pra quem não adianta não perder nada, é preciso que os de baixo não ganhem. Uma elite que não reconhece a população negra senão como seus empregados.

Uma imprensa que faz uma série sobre o caos na saúde pública com o patrocínio do comprometido Sindicato Médico e que depois se opõe a uma possível solução do caos que criticava não pode ser séria. A vida inteira vi essa mesma imprensa chamar Cuba de ditadura e usar vários outros adjetivos depreciativos que nem vale listar. Vi, nos últimos tempos, essa mesma imprensa criticar a vinda de médicos cubanos porque eles não eram bons o bastante. Quando viram que esse argumento era falho – além de a medicina cubana ser referência mundial, era evidente que um médico seja qual for é melhor que nenhum – apelaram para uma defesa hipócritíssissima dos mesmos médicos que antes não eram bons o bastante. Agora a pauta é seus direitos trabalhistas, ignorando todo o processo que os traz para cá, as relações entre Brasil e Cuba e todas as condições da vinda dos profissionais, reconhecidas e referendadas pela Organização Mundial da Saúde.

Nessa batalha incansável pela deslegitimação de um programa tão importante como o Mais Médicos, essa imprensa identificada com a elite preconceituosa que eu citei acima faz mais uma vez aquilo que ela sabe fazer tão bem: omite e manipula. Esquece de dizer que, além dos cubanos vêm argentinos, espanhóis, portugueses… Esquece também que até o PSDB já importou médicos cubanos. E esquece ainda que os médicos que vêm estão aqui de forma livre, por vontade própria, ajudando a gente. Tem até colunista em geral mais sóbria na escolha das palavras comprando o discurso tosco da escravidão. Será que eles se leem? Será que leem o que estão escrevendo? Custo a acreditar.

É muito bom e muito triste o que está acontecendo no país. Bom porque um monte de gente desassistida vai ter o direito básico à saúde e porque a gente vê uma mudança de paradigmas, o estabelecimento de prioridades claras beneficiando os mais pobres, mas muito triste por constatarmos, mais uma vez, o quão mesquinhos muitos de nossos conterrâneos mais abastados podem ser. Mas eles são minoria, levo fé.

 


E o homem morreu

21 de agosto de 2013 por Cris Rodrigues 2 Comentários

Olha, tô pra dizer que foi bem grave o episódio de denúncia da situação da saúde em Porto Alegre feita pela RBS e transmitida pelo Jornal Nacional ontem (20). E não me refiro à denúncia em si, mas à forma como ela aconteceu. E principalmente ao que não foi feito. Um homem passou mal no Centro da capital. Não foi acidente de trânsito, daqueles que a gente não pode mexer na pessoa sob o risco de agravar sua situação. Foi um problema de saúde, uma parada cardiorrespiratória.

Achei estranho já no início da matéria, quando vi que o cinegrafista focava no celular na mão de Manoel Soares, que conduzia a denúncia. Sabe, repórter não tem que ser notícia, então fiquei ressabiada. O relato continuou e o vídeo mostrou o Manoel ligando diversas vezes para o 190 atrás de socorro. Lá pelas tantas, disse que estava aguardando havia 20 minutos. Não tinha ambulância, o pessoal do 190 e da SAMU agiram mal, o médico que atendeu a ligação agiu mal. Mas o repórter ficou ali parado do lado esperando, pra ter matéria. Chegou a ser constrangedora a cena exibida no jornal, com o senhor passando mal, as pessoas mobilizadas ao redor tentando reanimá-lo e o cara do lado olhando.

Já participei de debates sobre o papel do jornalista em casos assim. Robert Capa foi um importante fotógrafo de guerra, provavelmente o maior. Ele tem imagens de gente sendo atingida, que ele fotografou em vez de correr pra se salvar ou pra ajudar. Talvez o trabalho dele não fosse tão grande, a informação não tivesse chegado às pessoas, a história não fosse contada, se ele tivesse parado. Tem casos de gente se afogando enquanto o jornalista fotografa. Histórias há várias. E aí, o que se faz? O que manda a ética do jornalista? A ética do jornalista é diferente da ética do cidadão?

Eu acho que não. Ali, naquele momento, o que fez a RBS foi omissão de socorro. Eles tinham capacidade de colocar o homem dentro de um carro e levar ao hospital. Não fizeram, pra ter notícia. O homem morreu. E o caso ali é grave porque o Robert Capa possivelmente não pudesse salvar as pessoas e o registro não existiria sem ele se arriscar, mas agora a equipe da emissora tinha condições de fazer os dois, ajudar o senhor e denunciar a falta de ambulâncias. Claro, não dá pra dizer que ele morreu por culpa da RBS – talvez o final fosse o mesmo se tivesse havido socorro -, mas é impossível não se questionar se ele teria sobrevivido se tivesse sido levado a um hospital. Falhou o SAMU, sim, mas falhou também a empresa. E em nome do quê, mesmo?

Vale lembrar que a RBS vem veiculando uma série de reportagens sobre o caos na saúde pública (muitas vezes com publicidade do Simers no intervalo, inclusive, como mostrou o RS Urgente). Reportagens parciais, na minha opinião, e com um objetivo eleitoral bem claro, não vê quem não quer. Presenciar a morte de um cidadão por falta de atendimento era o que faltava para completar as “denúncias” (é só dar uma olhada nos portais do grupo pra ver o que virou a história). A oportunidade se jogou em frente às câmeras, o repórter agarrou. E o homem morreu.

Repito a pergunta, porque realmente acho importante e acho que pouca gente está pensando nisso… Pra que serve o jornalismo?


Quase desisti de chegar à Câmara Municipal de Porto Alegre ontem (13), quando já estava lá perto. Estava indo pra uma reunião da Frente Parlamentar para o Plano de Mobilidade Urbana, puxada pelo coletivo do vereador Marcelo Sgarbossa. Tinha faltado luz nas redondezas, o que atrapalhou um tanto, mas isso só agravou o problema, que já existia antes. Calçada, praticamente não tem. De um lado da rua, a praça em frente ao Gasômetro, que, por não ter calçamento, fica toda embarrada. Do outro, a obra da Ospa, com os transtornos de uma obra. Atravessar a rua era quase impossível, já que a única sinaleira ali perto não lembra que existem pedestres e pelo visto não fecha.

(E não me venham usar isso como justificativa pra transformar a praça em estacionamento. Abandonar é o jeito mais fácil e mais mesquinho de convencer que o lugar tem que deixar de existir e virar outra coisa. Quero ver é cuidar dela e transformar em um bom espaço pra pedestres, não pra carros. Afinal, é disso que estamos falando.)

Mas bem, a introdução foi útil porque ela tem tudo a ver com o tema da reunião e deste post. A ideia lá era debater mobilidade a partir da perspectiva do pedestre. Mesmo pra mim, que fui pedestre a vida inteira e sempre faço o esforço de me colocar no lugar de quem está a pé (mesmo quando estou dentro de um carro), só percebi algumas questões muito recentemente.

Por exemplo, por que a construção e manutenção das pistas de rolamento, onde passam os carros, são responsabilidade do poder público e as calçadas são atribuição dos proprietários dos prédios? A gente paga impostos pra manter a via feita para veículos (que nem todos usam), e as calçadas (por onde todos inevitavelmente passam) ficam a cargo de entes privados, ficando apenas a fiscalização por conta da Prefeitura.

E outra, por que a iluminação das ruas é voltada para os carros (se bem que ali nos arredores da Câmara, mesmo onde não estava faltando luz, não tinha luz pra praticamente ninguém) e não para os que estão a pé, sem farol? E isso continua com a instalação dos contêineres de lixo, que ficam na calçada se não tiver espaço sobrando na via – e não importa se não sobrar lugar pro cidadão caminhar. Porque, afinal, esse não é um critério. A calçada não é importante.

Sem falar que os veículos motorizados têm prioridade até nas calçadas, que deveriam ser o lugar seguro (sic) dos pedestres. Não só entram em estacionamentos sem cuidar se tem alguém querendo passar, mas muitas vezes (muitas!) estacionam na própria calçada, sobrando pro pedestre fazer a travessia pela via e estragando ainda mais o calçamento.

Identifico duas causas macro pra esses problemas, relacionadas entre si e que não eliminam outras questões.

Em primeiro lugar, a cultura do carro, que coloca o automóvel no centro de tudo. É um negócio antigo, estimulado pra fortalecer a indústria do automóvel, lá no início. Teve muito sucesso aqui e nos Estados Unidos, por exemplo. Carro é status na nossa cultura. Carro dá poder. Que nem o sr. Volante, que se transformava ao entrar em um automóvel (vale assistir o vídeo; eu fui ver depois que tinha escrito o post e descobri o quão evidentes são essas coisas, já que ele usa vários termos extamente iguais aos que usei aqui). Andando na rua, era um sujeito tranquilo, boa praça, simpático. Pegava o volante, virava agressivo, competitivo. Dono da rua. Porque é assim que os motoristas se sentem, donos da rua. E, assumo, não é fácil evitar o impulso da competição ao dirigir. Difícil mesmo.

Outro ponto, que está no centro do problema, é a dificuldade de se colocar no lugar do outro. Ninguém se coloca no lugar do outro! Só que, quando a  pessoa está dentro de um carro, ela está armada, é mais forte, tem poder. E ela exerce seu poder sobre os outros modais. Ela é mais forte do que quem está fora, então ela se sobrepõe. Ela subjuga o pedestre, o ciclista e outros não-motorizados. E acaba determinando, pela força, como as coisas devem ser.

Pela força, não pela razão. E não de forma justa. A gente deixa de ser igual. Vale a lei do mais forte. Quem manda na rua é quem está motorizado, não porque a lei mande ou porque seja justo, mas porque ele tem mais poder.

Medidas específicas pra regular questões pontuais são super importantes, mas a coisa só vai mudar mesmo se tiver uma mudança de cultura.

(Ah, e sair da Câmara também não foi fácil. Ônibus, nem pensar. Táxi menos ainda. Tudo escuro e embarrado e escorregadio. Andei várias quadras sozinha até conseguir pegar uma lotação. Digamos que a vida em Porto Alegre já foi mais fácil pra pedestres – aliás, pra motoristas também.)


Sobre conceitos de jornalismo

6 de agosto de 2013 por Cris Rodrigues 1 Comentário

Nesse Roda Viva com a Mídia Ninja, que é disparado o que mais ganhou espaço na minha timeline no Facebook, com realmente muitos comentários de muita gente, uma questão em especial me chamou a atenção, e é sobre ela que vou falar aqui. Reparem que o foco do meu texto não é sobre o que falaram Bruno Torturra e Pablo Capilé, mas sobre o que disseram os jornalistas atrás da bancada.

Durante e depois do que assisti, fiquei refletindo sobre a discussão acerca do jornalismo. Ela não foi explícita, não se entrou em um debate de conceito, nada disso. Mas isso só torna mais interessante e amplia a reflexão. Assim como a forma de financiamento (economia solidária x empresa privada, “modelo de negócio”), tema que dominou o debate, a noção do que é o jornalismo se mostrou igualmente pré-concebida, e ninguém ali parou pra pensar nela, nem por um momento. É um conceito estático e baseado em uma concepção estranha de mundo. E a reflexão que estou jogando aqui foi um pouco suscitada pelo debate de ontem, mas não é exatamente sobre a Mídia Ninja. É sobre a ideia de jornalismo mesmo, sobre o que é, pra que serve, qual o objetivo. Coisa que parece que pouca gente está pensando.

Lembro da Suzana Singer, ombudsman da Folha, muito dedicada no questionamento sobre o jornalismo feito pela Mídia Ninja e na ideia de independência e “assumir lados”. Ela insistia em querer saber qual a posição política do coletivo e a qual partido pertenciam seus representantes (aliás, essa palavra me leva a outra reflexão, sobre o paradoxo de um coletivo horizontal ser sempre representado pelas mesmas pessoas, mas essa é outra história, pra outro dia). O fato de eles se dizerem de esquerda parecia inviabilizar a qualidade do seu trabalho “jornalístico”.

O jornalístico aí de cima está entre aspas porque não sei direito o que a Suzana ou qualquer outro ali na bancada do Roda Viva querem dizer quando falam em jornalismo. O jornalismo deles é supostamente ouvir os supostos dois lados para juntar tudo e reduzir em uma síntese que supostamente diga tudo. Mas funciona? A informação ali resume a notícia? É imparcial?

Aliás, o que é notícia? Por que o que fica fora do jornal não é notícia? Quem define o que é?

E mais, por que não dá pra fazer um negócio diferente? E daí se não é jornalismo tradicional? Pois muito bem, então, se não se encaixa num conceito padrão de jornalismo, que se esqueça a palavra, que se classifique de outra forma. É melhor um Jornalismo, com letra maiúscula, desonesto e elitista ou um não-jornalismo que diga onde está e comprometido com as questões sociais? A tentativa de enquadrar essas novas narrativas em um conceito quadrado turva a visão e deturpa a imagem. Não precisa ser a Mídia Ninja; qualquer tentativa de desconstrução e de produção de conteúdo diferente da fórmula da pirâmide invertida não serve para os jornalistas-dinossauros.

Entendo que seja difícil pensar fora dos limites que nos colocam e a que estamos acostumados, mas é justamente tentar fazer isso que é a tarefa do jornalista, todos os dias, sobre todas as pautas. Inclusive sobre as que refletem sobre sua própria atividade.

Desculpem, sei que é chato, mas vou terminar com algumas perguntas, porque não acho que o debate tenha que se encerrar. Nem aqui nem em lugar nenhum. E porque não tenho respostas ou certezas e sinceramente não acho que alguém tenha. Primeiro, o que é jornalismo? Ampliando, o que é jornalismo no século XXI? O jornalismo não muda, não responde às transformações na sociedade, foi sempre igual? E, por fim, qual a real importância desses conceitos todos?


O que significa esse Brasil nas ruas

18 de junho de 2013 por Cris Rodrigues 6 Comentários

Primavera Brasileira, alguns estão dizendo. Se a comparação com as enormes manifestações que tomaram o mundo árabe em 2011 é fiel, não tenho certeza. Mas faz sentido. Acho que nada que já tenha acontecido na história do Brasil se parece com o que acontece hoje, que certamente lembra o que vimos na Espanha, nos Estados Unidos, no Egito e, na sequência, em diversos outros países. É difícil ter a real dimensão de quão histórico é o momento que a gente vive hoje no Brasil. Estive na manifestação em Porto Alegre e caminhei até começar a confusão, quando passei a acompanhar pelas redes sociais e pela imprensa. Mas me permito escrever algumas linhas, não especificamente sobre o protesto na capital gaúcha, mas sobre o fenômeno que vemos no país inteiro. Esta é uma reflexão. Não uma verdade ou sequer uma opinião absoluta. Peço que relevem o fato de isso tudo estar indo pro papel ainda no dia em que a coisa explodiu de fato nacionalmente. Antes que me cobrem, meu foco não vai ser na violência vista no processo. É antes uma tentativa de interpretação do significado de tudo isso.

Tem um monte de coisas acontecendo aí. Não dá pra negar: é um movimento jovem, que envolve muita gente e que não pode ser reduzido à ideia de uma elite branca e bem vestida, como tem tanta gente dizendo por aí. É um movimento que começou mais setorizado, mas que se tornou massivo – e digo massivo mesmo, porque por onde passava contava com o apoio das pessoas nas janelas, de todas as idades. Posso afirmar, sem medo de deixar um certo bairrismo falar mais alto, que o movimento se formou e começou a amadurecer em Porto Alegre. Questões envolvendo a ocupação de espaços públicos e mobilidade urbana motivaram a ida às ruas, majoritariamente. Quando a coisa se espalhou e, de forma expressiva e impressionante, tomou o país, o debate também foi crescendo e se transformou um tanto.

Estão nas ruas a vontade de uma juventude de escrever algumas páginas na história, o papel mobilizador das redes sociais, a insatisfação coletiva com a política. É uma geração, é preciso dizer, que não teve formação política, que enfrentou uma educação precarizada e que chega à juventude sem ter visto repressão ou problemas realmente grandes na política. O que essa geração viu foi um acumulado de problemas cotidianos de um sistema político falho. Essa geração viu também uma mídia concentrada, ouviu sempre uma só voz e não teve a perspectiva da luta social, de classes. Mas ela viu também o Brasil mudar bastante nos últimos anos. E viu a internet.

A rede

Não quero aqui fazer um discurso ingênuo e romântico sobre as redes sociais. Mas elas são elemento fundamental na constituição do que se chama de era da informação. Elemento transformador, para o bem e para o mal – se é que bem e mal existem. Temos acesso a uma quantidade de conteúdo impossível de absorver e usufruímos de novas formas de se estabelecer relações sociais, o que inclui a troca no âmbito da política. E só será possível construir um discurso político e uma agenda programática eficiente se o papel das redes for compreendido. Elas pressupõem diálogo, em primeiro lugar, coisa que não estamos vendo, especialmente no nível municipal, que é onde ele se faz mais relevante.

A exigência de uma democracia direta amadureceu desde o início dos anos 90, quando ela foi experimentada com muito sucesso em Porto Alegre, passando por 2001, quando ela foi debatida no primeiro Fórum Social Mundial, também na capital gaúcha. Agora ela se mostra ainda mais necessária, diante da crise da representação política e dos novos canais, que eliminam intermediários. Aqui, como na Espanha ou nos Estados Unidos, há uma desconfiança com relação ao sistema político. Os partidos perdem credibilidade e legitimidade. Perdem a simpatia de grande parte da juventude.

Contradições

Não quero com isso dizer que a democracia atual foi pro saco. Muito pelo contrário. É importante também apontar algumas contradições de movimentos como este que toma o Brasil. Ouvi, em diversos momentos durante a manifestação em Porto Alegre, e li nas redes pedidos para que as bandeiras de partidos não fosse levadas ou fossem abaixadas. Era como se as bandeiras ofendessem o movimento, o que é compreensível, dada a insatisfação com os partidos e o sistema político baseado na representação. Mas que não condiz com o caráter aberto e horizontal que pregam os que escrevem as descrições dos eventos no Facebook. Os partidos, de um modo geral, têm uma estrutura hierarquizada, mas, dentro do movimento, eles podem ser parte, compondo o mosaico dos participantes. O partido pode estar sendo questionado, mas ele é um elemento historicamente fundamental na constituição da democracia no Brasil e no mundo.

A ausência total de partidos políticos – e até o repúdio a sua participação – marcou o movimento dos indignados na Espanha. Uma mobilização bonita, que levou centenas de milhares às ruas de diversas cidades, pedindo mais participação, mais democracia. Um movimento que não pedia a revolução armada e que não apresentou alternativas concretas que gerassem mudanças estruturais. O resultado foi essas centenas de milhares de pessoas, ao lado do resto da população espanhola, assistindo à extrema direita chegar ao poder e ceder abertamente às medidas de austeridade que os órgãos defensores do capitalismo financeiro dizem ser a salvação da crise.

O fato é que não se tem uma pauta propositiva concreta nos movimentos aqui e lá. Não se tem sequer uma pauta reativa totalmente clara. O protesto inclui pessoas contra várias coisas, que dialogam, mas que às vezes se perdem no meio da multidão. Depois da manifestação em Porto Alegre, ainda durante a noite, o governador Tarso Genro fez uma provocação aos manifestantes, abrindo espaço e convocando-os a discutir suas propostas. Ele sabe que elas não são claras. O que, é preciso ficar bem claro, não anula sua validade, evidentemente. Eles podem não saber bem o que estão dizendo, mas estão falando, querem dizer algo. O movimento continua refletindo uma insatisfação popular grande e bastante relevante, que precisa ser avaliada pelos governantes. E precisa, preferencialmente, ser avaliada em permanente diálogo não só com quem está nas ruas, mas com o conjunto da sociedade.

Oportunismo

O problema é que a falta de propostas claras cede espaço a muitas coisas. Muita gente bastante diversa pode se ver representada por aquelas pessoas marchando nas ruas ou ver um espaço para ali incluir suas pautas. O problema é quando esse espaço vira combustível para o oportunismo, que se aproveita das mobilizações, distorcendo-as, de forma a impor suas agendas. Ou vocês realmente acham que o Arnaldo Jabor mudou de ideia de um dia pro outro e agora acha muito queridos os manifestantes que ontem rechaçava? A mesma coisa aconteceu com a grande maioria dos veículos de comunicação grandes. Mudaram de opinião, de um dia pro outro. Ontem, os manifestantes eram vândalos. Hoje, eles eram pacíficos, não representados por uma minoria violenta.

Os que vaiaram a Dilma na abertura da Copa das Confederações não são os mesmos que estão nas ruas protestando contra o aumento da passagem, ainda que a crítica à Copa do Mundo no Brasil esteja presente nas manifestações. Os atores da Globo que fizeram um ensaio de olhos roxos pintados não representam a grande maioria que estava nas ruas. Incluir na pauta o protesto contra a corrupção pura e simples serve aos interesses de poucos, porque afasta do debate o seu caráter político e o leva para a complicada seara da moralidade. E vi muito mais gente protestando contra a corrupção do que pela reforma política. Ou seja, falta rumo, falta uma perspectiva política transformadora mais clara e efetiva.

Vi gente que nunca discutiu política e até ontem só sabia repetir algumas poucas frases feitas empurradas pela mídia hoje compartilhar banner elogiando a capacidade de mobilização da juventude brasileira. Isso não é coerente, convenhamos, e causa certa desconfiança sobre o movimento e quem o compõe. Ou, para quem observa um pouco mais, desconfiança sobre os rumos para os quais os meios que detêm o monopólio da comunicação querem levá-lo. Quer dizer, é preciso ficar atento ao que se lê e ao que se vê. O que a Globo mostra não é o que está nas ruas, é sempre bom lembrar. Ou seja, cuidado.

Conclusão

Para terminar, uma ressalva – e espero que pelo menos um ou outro leitor tenha chegado até aqui. Temo que meu texto leve a interpretações equivocadas acerca de minha opinião sobre o tema. Aponto contradições porque acho que é importante e justo fazê-lo, até para que possamos compreender o que está acontecendo. Mas acho bonito ver tanta gente na rua, com vontade, gritando. Assim como gostei de ver os indignados, mesmo que depois a direita tenha levado a melhor nas urnas. Apenas acho que o que aconteceu lá fora pode servir de exemplo e inspiração para que o movimento daqui defina seus rumos e não cometa os mesmos erros. Que o Brasil construa sua Primavera do seu jeito. E que esse jeito seja com mais democracia para garantir mais direitos para todos.

P.S.: E a imagem do Congresso tomado de gente é simplesmente fantástica. Espero que represente, efetivamente, a construção de um futuro político com mais democracia. #reformapolítica

Fotos: Ramiro Furquim/Sul21 e Jefferson Botega/Agência RBS – Porto Alegre.


Anotem aí: hoje é um dia emblemático na história de Porto Alegre. Durante a madrugada, amparada pela Justiça, a Prefeitura começou a cortar as primeiras das 60 árvores que foram derrubadas ao longo da manhã na Praça Julio Mesquita, em frente à Usina do Gasômetro. Mais do que isso, uma decisão judicial decidiu ontem pela reintegração de posse, então os manifestantes que defendiam as árvores foram tirados à força de lá.

Tem uma galera aí dizendo que as árvores eram exóticas, então não tem tanto problema de fazer o replantio, que não é destruição de vegetação nativa e tudo o mais. Pode ser, acredito que sim, deve ser bem fácil plantar outras iguais em outro lugar, que elas crescem e ficam bonitas. Mas não é essa a questão. A gente está diante de um conflito por um modelo de cidade e por uma forma de fazer política.

Em primeiro lugar, a razão de tirar aquelas árvores. Ter uma grande avenida, com oito pistas expressas, não é o que eu quero nem para a orla do Guaíba nem para o que hoje chamam de Centro Histórico da minha cidade. Aquele lugar ali é as duas coisas. As árvores até podem ser replantadas facilmente em outro lugar, mas eu não quero que elas estejam em outro lugar. É isso que as pessoas estão tentando dizer. Só que a opção da Prefeitura hoje é por valorizar o espaço para os carros – mesmo com vários estudos provando que ampliar vias, no médio prazo, não diminui os congestionamentos – e incentivar uma cidade individualista, em que as pessoas não têm espaços de convivência, não caminham nas ruas. Esse é o primeiro ponto.

O segundo é a forma de lidar com as questões da cidade. Não sei qual dos dois é mais grave, mas certamente eles estão diretamente relacionados. A questão é que esse modelo de cidade decidido pela Prefeitura não foi discutido com a população. Não é à toa que Porto Alegre tem visto manifestações como há muito tempo não via. Elas refletem o descontentamento com a política colocada em prática, mas também com a ausência de diálogo.

A cidade da democracia participativa vive um retrocesso político bem grande, infelizmente. Não se trata só de reuniões para discutir onde aplicar o orçamento, a questão é bem maior. As pessoas estão na rua dizendo que não querem o que a Prefeitura está fazendo. Podem ser só uma minoria barulhente, mas são pessoas e, bem, estão lá fazendo barulho em nome de uma parcela dos porto-alegrenses. No mínimo deveriam dar origem a um debate mais amplo com a cidade. Mas ela agora voltou a uma política tradicional que centraliza as decisões. A administração municipal não vê que hoje o mundo discute como ampliar a democracia e a participação. Essa semana mesmo o Conexões Globais estava aí para corroborar essa ideia, sem falar nos milhões que foram às ruas na Espanha, nos Estados Unidos, no Egito… e agora em Porto Alegre.

As ruas de Porto Alegre estão gritando, mas ela não ouve. Talvez seja o barulho dos carros.

Foto: Ramiro Furquim/Sul 21


Internet. Em 2013, tudo mudou em função dela. Ok, talvez não tudo, mas muita coisa. Inclusive as relações entre as pessoas, seja no âmbito que for. Nas relações pessoais, quem aí não tem redes sociais, e-mail, aplicativos no smartphone e várias outras coisas pra ficar mais perto dos amigos (ou fingir que tem mais amigos, exibir as fotos da viagem a Paris, mas isso é outra história)? Na educação, não podemos ignorar: sem usar novas tecnologias ou pelo menos sem entendê-las, a relação entre professor/escola e os alunos fica forçada e pouco produtiva. Da mesma forma na comunicação, na cultura, no acesso e na produção de conhecimento e também na política. Um novo tipo de movimentos eclodindo pelo mundo, uso de tecnologia para ampliar a participação na gestão do Estado, novas formas de se estabelecer relações de poder na sociedade.

Tudo isso vai estar em debate a partir de hoje (23) até sábado (25), no Conexões Globais. Pra participar dos diálogos – são três por dia, sempre à tarde – e dos shows, não precisa de inscrições, é só chegar na Casa de Cultura Mario Quintana e curtir. Mas tem também oficinas, hub de ideias (um espaço aberto para quem quiser criar uma atividade), cineclube, games… E ó, a comunicação é colaborativa. Tem um espaço lá na CCMQ pros mídialivristas que quiserem cobrir e divulgar o Conexões do seu jeito, com o seu olhar.

Olha aqui a programação completa.

Então, ao serviço:

O quê: Conexões Globais

Quando: 23 a 25 de maio, a partir das 14h

Onde: na Casa de Cultura Mario Quintana

Quanto: totalmente de grátis

Como: só chegar (para as oficinas, é preciso se inscrever) na CCMQ ou assistir pela internet no site do Conexões Globais, aqui no Somos Andando, no site do Gabinete Digital ou em qualquer outro site ou blog que quiser copiar o código-fonte e transmitir também

Quem realiza são as Secretarias de Comunicação e Inclusão Digital e da Cultura do governo do RS, com apoio do Gabinete Digital, da Casa de Cultura Mario Quintana, da Procergs e da Secretaria-Geral da Presidência da República.