A coluna de David Coimbra na Zero Hora de hoje, 18, é sobre Lula. Ou seja, luzinhas amarelas piscando, atenção. Mais ainda quando se lê o título: “Lula não é Evo”.

Ao mesmo tempo em que quer parecer de esquerda, seu discurso reflete uma visão bastante conservadora de mundo. Uma visão PSDB, digamos assim.

Resumindo grosseiramente o texto: para ele, Lula é igual aos políticos dos países ricos, que “fez o que faria qualquer líder do Norte nababo”, um social democrata, tal qual os tucanos. Sua única diferença é na aparência, “grosseira”, por querer se mostrar “do povo”, quando fala palavrões, por exemplo. Um “ser exótico”, na ironia do jornalista.

Maniqueísmo

David Coimbra erra feio. Primeiro, ao dividir o mundo político em duas partes antagônicas. E só duas. Ou se é Obama, ou se é Evo Morales. E aí já vem a primeira contradição. Depois de defender essa postura maiqueísta, critica Lula por não ter tomada uma terceira via. Justamente a terceira via que ele não enxerga. A via que Emir Sader chama de esquerda moderada.

A elite

O mais bizarro da coluna de David Coimbra é quando ele fala que Lula é aceito pelas elites, que gostam dele, “o sonho realizado da intelectualidade ocidental”. Se considerarmos a grande imprensa como representativa da elite brasileira – afinal, é parte dela e só diz o que essa elite quer ouvir -, é absurdo. A grande imprensa, que tenta boicotar Lula diariamente.

Política externa

Chega a ser ridículo quando afirma que “na política externa, o general Geisel foi mais contestador, mais duro e mais rebelde do que o operário Lula”. O governo do presidente Lula pode ter milhões de falhas, e tem muitas mesmo, mas a política externa é praticamente incorrigível. Se há uma área em que houve um avanço tremendo, reconhecido internacionalmente, é na política externa. Lula conseguiu fazer o Brasil influenciar nas relações entre os grandes, Lula mexeu na geopolítica do mundo.

Irresponsabilidade

E aí, David Coimbra cai numa via de mão dupla, em que ambos os lados são prejudiciais. Ao mesmo tempo em que assimila em sua visão pessoal, de forma até ingênua quase, o que a grande imprensa brasileira diz, ele é essa grande imprensa e repassa essa visão para os seus leitores.

Faz referências grosseiras, sem conhecer a história como deveria para poder dizer tais coisas. Uma postura irresponsável. Compara Lula a Geisel, Médici e Juscelino. Geisel, pela política externa, como já citado, colocando Lula à direita do general. Médici e Juscelino, pela política desenvolvimentista. Como se todo projeto desenvolvimentista fosse igual. Não o eram o de Médici e Juscelino, como não o é o de Lula.

Revolução

A única parte boa de seu texto é o final, quando afirma que “Lula poderia promover uma mudança mais profunda. (…) Poderia promover algo parecido com uma revolução”. Só que não é nisso que David Coimbra demonstra acreditar. O jornalista critica o presidente por ter só aparência de esquerda. Só que quem é só aparência é ele, David Coimbra.

Ao longo do texto, enxerga uma coisa e no final defende outra. É preconceituoso ao falar do jeito “do povo” de Lula, ironizando-o. Afinal, chamá-lo de “exótico” é extremamente agressivo. Critica Lula em todos os seus pontos mais ousados, como a política externa, e no fim pede uma postura revolucionária. O objetivo me parece ser o de parecer um intelectual de esquerda inconformado com o governo e tentando agradar quem se encontra nessa situação. Mas seus argumentos são de direita, David, sinto muito.

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