Sábado, dia 31 de julho, o jornal O Estado de São Paulo publicou caderno especial alegando 366 dias sob censura judicial. O caso que o jornal está proibido de tratar é a Operação Boi Barrica, envolvendo Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney. O que o Estadão fez esse fim de semana foi publicar oito páginas contando a história toda nas primeiras e criticando a censura no resto do espaço.

Ou seja, o jornal encarou a proibição e falou do tema, sujeitando-se às possíveis punições. Sim, a censura é reprovável, especialmente por se tratar de censura prévia, ou seja, proibir de tratar um assunto de interesse público antes que seu enfoque venha à tona. Isso significa impedir o acesso da população à informação.

Tudo bem que o Estadão está aproveitando a situação para uma promoção própria, mas isso é perfeitamente compreensível. A publicação de um caderno especial é parte disso, inclusive. É legítimo, aliás.

Mas o jornal anda forçando a barra. Dizer, como a página H7 da edição mancheteia, que a “censura é mais grave que no AI-5” é um baita exagero, uma mentira. Mais, é um desrespeito. A situação é grave, mas incomparável com um período em que nada era passível de publicação sem passar por um censor, em um período de ditadura. Não é forçando desse jeito que o jornal vai convencer seus leitores que é de fato vítima de uma situação ilegítima. Muito antes pelo contrário, o exagero faz com que perca credibilidade, torne-se quase risível.

E, para não perder a oportunidade, o Estadão aproveita um caso específico para generalizar e comparar com outras situações em nada semelhantes. Utiliza aquele discurso já conhecido do suposto cerceamento à liberdade de expressão em países da América Latina, abordando casos diferentes de uma só forma, com um mesmo julgamento. Para ficar apenas em um exemplo: a tentativa de frear o monopólio das empresas de comunicação argentinas, em especial do grupo Clarín, não tem absolutamente nada a ver com a decisão judicial brasileira sobre a Boi Barrica e a família Sarney.

Faltou limite para a cobertura do Estadão. Faltou seriedade e discernimento para diferenciar uma coisa da outra. Ou sobrou sacanagem, em uma tentativa de manter e ampliar a influência dos grandes meios de comunicação brasileiros, forçando um medo de que aconteçam por aqui situações que são inverídicas da forma como são abordadas.

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  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Beto Mafra and ronan wittee, Cris Rodrigues. Cris Rodrigues said: Estadão força a barra em especial sobre censura: http://wp.me/pFCVn-19I [...]

  2. Danilo Bueno disse:

    Sim, isso me lembra bem as reuniões políticas onde, por qualquer motivo, alguém chama o outro de nazista ou facista. Além de ser lugar comum, esse tipo de acusação desproporcional não ajuda em nada o debate.
    Óbvio que a censura ao Estadão é ridícula e ilegal. É impressionante como algo que fere a Constituição pode ser imposto assim com tanta facilidade pelo Judiciário, ainda mais com tanta pressão do lado oposto. Isso levanta a questão de, se pode-de manipular as leis contra um jornal desse porte, o que não se faz no dia-a-dia com o cidadão normal?

  3. [...] Estadão força a barra em especial sobre censura (via Somos andando) 9 08 2010 Sábado, dia 31 de julho, o jornal O Estado de São Paulo publicou caderno especial alegando 366 dias sob censura judicial. O caso que o jornal está proibido de tratar é a Operação Boi Barrica, envolvendo Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney. O que o Estadão fez esse fim de semana foi publicar oito páginas contando a história toda nas primeiras e criticando a censura no resto do espaço. Ou seja, o jornal encarou a proibição e … Read More [...]

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