As últimas do Wikileaks

Postado por Cris Rodrigues Sem Comentários

Os documentos obtidos pelo Wikileaks que vieram à tona mais recentemente – divulgados ontem pelo Le Monde – trazem, entre outras revelações, o seguinte trecho, de uma correspondência americana de novembro de 2009:

“O Brasil considera entrar em uma competição com os Estados Unidos na América do Sul e desconfia das intenções americanas (…) O Brasil tem uma necessidade quase neurótica de ser igual aos Estados Unidos e de ser percebido como ele.”

Quem escreveu esse documento reflete uma visão arraigada na sociedade média norte-americana. Uma visão egocêntrica: os Estados Unidos são os melhores, acima de qualquer outro lugar do mundo, e, por óbvio, todos os países devem querer se tornar uma cópia do país norte-americano. Assim o Brasil é interpretado, mas eles esquecem de olhar para as mudanças na geopolítica mundial com um olhar mais aberto às novidades. Daí incorrem em um erro que tende a ser prejudicial a eles próprios. Afinal, quem não consegue enxergar o cenário com o qual lida tende a tomar decisões equivocadas, baseadas em uma crença de uma situação imaginária.

No caso em questão, faltou aos Estados Unidos enxergarem que o Brasil está, sim, disputando a liderança na América do Sul, mas não para “ser igual aos Estados Unidos” ou “ser percebido como ele”. Porque historicamente os países sul-americanos percebem os EUA como a potência dominante e dominadora, que impõe políticas que interessem apenas a si, na maioria dos casos prejudicando ou não beneficiando os países do Sul.

O Brasil age de outra forma. Se ainda não tem cacife suficiente para disputar uma posição de liderança com os EUA no cenário mundial, ao menos aproveitou da melhor forma seu crescimento, utilizando todos os meios para influenciar positivamente na geopolítica regional e também na mundial. Mas exerceu uma influência diferente, porque não imperialista. Ou seja, o Brasil não quer “ser igual”, quer ser, na verdade, muito diferente. Quer, e vem conseguindo, exercer sua liderança para fortalecer os países da região, e não para enfraquecê-los e mais facilmente dominá-los, como era de praxe aos que por aqui se abancavam.

A diferença é que o Brasil exerce uma política externa baseada na solidariedade, coisa que os Estados Unidos ainda não demonstraram conhecer. É a grande mudança em um cenário acostumado a quem vem de fora para conseguir lucro e aumentar seu poder.

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  1. Vane disse:

    Olha, se ser igual aos EUA é algum sinônimo de prosperidade absoluta, eu prefiro morrer mendigando grana pro FMI. Porque de prósperos eles já tiveram algo e atualmente tem muito pouco ou quase nada. O que tinham eles derramaram nos oceanos ou em guerras.

  2. Dandi Marques disse:

    Sim, o Brasil é diferente porque acredita piamente na autodeterminação dos povos. Eis o nosso maior trunfo. Crescemos e puxamos juntos a América do Sul. Está na nossa constituição a tentativa de fazer essa aliança com os povos sulamericanos. Se o partido no poder não assinou a constituição, foi o único que fez valer grande parte dela.

    Parabéns pelo texto, Cris.
    Cada vez mais seu fã, diariamente.

    Abs

  3. Arthur disse:

    O trecho “O Brasil tem uma necessidade quase neurótica de ser igual aos Estados Unidos e de ser percebido como ele” é verdadeiro, especialmente se estamos falando das classes mais abastadas do país.

  4. Tolice, nossa ação é mediar e, se fizermos bem isto mesmo, já seremos líderes regionais. Quanto aos EUA, cresçam… Quanto tempo durou o Império Romano? 1.000 anos. Por que diabos vocês acham que os EUA com pouco mais de 100 anos de hegemonia irá cair agora?

  5. Arthur Puls disse:

    Roma durou 1000, mas as coisas marchavam num ritmo diferente naquela época. A comparação não é válida. De qualquer forma, a HEGEMONIA romana durou metade desse tempo…

  6. Só que diferente daquela época, justamente, o mundo anseia por entrar no mercado globalizado. Queiramos ou não, a maioria, absoluta, é mais americanizada no sentido mercadológico do que imaginamos.

  7. Arthur Puls disse:

    “Só que diferente daquela época, justamente, o mundo anseia por entrar no mercado globalizado.”

    Os bárbaros também ansiavam por entrar em território romano pra escapar dos Hunos…Dizer se o resultado disso vai ser bom ou ruim é querer dar de Mãe Dinah.

    O fato é que a posição atual dos EUA é mais fraca que nos anos 1990, ao menos no campo simbólico. O 11/9 foi um marco nesse sentido e o Wikileaks talvez também seja.

  8. Fraco como? A economia americana sentiu um baque após 2008 ou só um arrefecimento temporário? Querer ver aí uma decadência é puro wishful thinking e não análise séria. A propósito, sobre Roma, ela decaiu dando lugar aos bárbaros ou estes é que se romanizaram? Roma, assim como os EUA, estão aí… Não foi o pão e o circo que os romanos nos legaram, mas a burocracia, a estrutura urbana e o Direito, sem os quais sequer existiríamos enquanto civilização.

  9. Arthur Puls disse:

    “Fraco como?”
    A resposta tá ali, “ao menos no campo simbólico”. Na posição geopolítica geral. Tanto no soft power (com ajuda tanto do Wikileaks quanto do próprio governo W. Bush) quanto no hard power (porra, é generosidade demais chamar de “superpotência” um país que não consegue controlar o AFEGANISTÃO).
    Na parte econômica, os EUA respondiam por 27% da riqueza do mundo em 1995, contra 24% em 2009 (PIB nominal), e a TENDÊNCIA é de queda – tudo que a gente pode falar aqui é sobre tendência. Não necessariamente queda dos EUA em si, mas uma maior participação do resto na economia mundial. A TENDÊNCIA é de que a China assuma a liderança nas próximas décadas, mas dificilmente como “superpotência”.
    Sobre Roma, essas instituições citadas só foram preservadas por influência da Igreja Católica, não pela força dessas instituições em si.

  10. Na verdade o que ocorre é uma confluência de fatores. Se a Igreja fosse assim tão influente, o próprio Renascimento jamais ocorreria e, como sabemos, este movimento resgatou, justamente, a tradição greco-romana de pensamento e expressão.
    Quanto aos EUA fico abismado como os antiamericanistas tentam distorcer a realidade. Recomendo, dentre outros, A Obsessão Anti-Americana de François Revel, didático e eficaz para dirimir dúvidas sobre a influência mais positiva que negativa dos EUA na nossa época.
    Sobre o peso de sua economia basta vermos como a China e os exportadores de petróleo do Golfo correram mais que rapidamente para “salvar” as bolsas e bancos americanos em 2008. A razão é simples: caso os EUA realmente entrassem em depressão, os países mais afetados seriam esses exportadores (da commodity energética e dos bens de consumo). Portanto, falar em “século chinês” ainda é pura barra forçada. Enquanto que os lucros de muitos produtos fabricados nas ZEEs chinesas afluem para o país, as patentes e royalties derivados vão para o outro lado do Pacífico, na costa oeste americana onde estão as sedes das transnacionais.

  11. Ah, sim! Também não faz o menor sentido a decadência “ao menos no campo simbólico”. É justamente o contrário, neste campo os EUA se mostram mais fortes do que nunca dado o peso de suas exportações de produtos de entretenimento e da influência de sua cultura que cada vez mais avança, inclusive na própria China.
    Também podemos observar a expansão militar através de seu braço armado na OTAN (já que são a principal potência integrante) que, dentre outros sucessos diplomáticos, parece ter conseguido convencer a incorporação da Rússia.
    Sobre o Afeganistão, realmente, eles não conseguem controlá-lo como o fizeram no Iraque. Diferentemente deste em que houve, bem ou mal, uma repartição federativa no governo formado, no Afeganistão se tratou de apoiar o governo de uma facção contra outra apoiada pelo Talebã que, aliás, tem o apoio velado de forças paquistanesas. Não é a toa que agora o país assediado é o tradicional inimigo paquistanês, a Índia.

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