O Reino Unido fica eufórico com essas coisas de realeza. Jubileu de Diamante, pra mim, tem um significado: que os cidadãos britânicos estão há 60 anos sob o jugo de uma chefe de Estado que não escolheram. Na prática ela pode até não mandar, mas é a “monarca constitucional” e “chefe de Estado” de uma penca de Estados. Para quem não sabe, até Canadá e Austrália continuam sob o regime de monarquia, tendo Elizabeth II como sua rainha. Além do poder político, ela também é governante suprema da Igreja da Inglaterra, chefe da Comunidade das Nações, comandante-em-chefe das Forças Armadas do Reino Unidos e ainda tem mais uns outros títulos de nobreza.

Ou seja, uma pessoa que não foi escolhida por ninguém (sequer por seu pai ou sua família, já que só obedeceu a regra de sucessão) manda oficialmente nos poderes político e militar e na religião de povos gigantescos, entre eles um dos países mais importantes política e economicamente desde a Revolução Industrial.

Ninguém me convence a chamar o Reino Unido de democracia enquanto formalmente sua chefe for uma pessoa não eleita pelo voto popular (isso sem falar nas limitações de um sistema político baseado no bipartidarismo e na eleição indireta do primeiro-ministro, mas isso deixamos para outra ocasião).

Mas o que me exaspera de fato é observar que a galera adora a família real. Que os críticos a ela são minoria e, mesmo entre eles, muitos acham que vale mantê-la porque leva turismo à ilha. Tudo na Inglaterra e na Escócia (que foram os lugares em que estive, mas acredito que também no País de Gales e na Irlanda do Norte) gira em torno da monarquia. Estudar história, por lá, significa decorar a sucessão de reinados. Os prédios importantes têm significado pelo que eles representam para a monarquia (lugar x é onde a rainha vai passar o inverno, lugar y é onde ela encontra os netos e assim por diante). E agora imagino que o país e especialmente Londres estejam em polvorosa com as comemorações dos 60 anos de trono, o segundo maior tempo da história da família real inglesa, perdendo apenas para a rainha Vitória (vale lembrar que a história da monarquia inglesa é basicamente a história de grandes mulheres).

Pois bem, essa adoração desmedida está em alta este ano. Ela vem acompanhada de um acriticismo aterrador, que representa um conservadorismo muito grande. Não há questionamento sobre a validade da existência de uma monarquia, sobre o que ela representa. A situação é tomada como dada, imutável. Não peço nem uma crítica à monarquia, mas um questionamento, uma reflexão, um espaço para o contraditório. Em suma, que os meios de comunicação considerem nossa capacidade de pensar.

E quem pensa que o puxa-saquismo está restrito aos súditos da rainha engana-se. Documentário produzido e exibido pela GloboNews só faltava desejar que fôssemos incluídos na Comunidade das Nações. Diz a Wikipedia que em 2009 a rainha Elizabeth II foi considerada a 23ª mulher mais poderosa do planeta. Na lista de 2011 da Forbes ela sequer aparece entre os 70, enquanto a presidenta Dilma Rousseff encontra-se na 22ª posição. Mas, fazendo jus ao seu papel de submissa às grandes potências (mesmo quando elas já não estão mais tão grandes assim), para a Globo, ela é “a mulher mais poderosa da Terra”. Ela também “tem pele de porcelana e usa pouca maquiagem” e é “um ícone da moda”, entre otras cositas más.

O aniversário do mais novo casamento real

Há cerca de um mês, os britânicos enlouqueceram de novo com o primeiro aniversário de casamento do herdeiro do trono com a plebeia. Como se a festa fosse de membros de sua família, uma loucura. Naquela ocasião, assisti um documentário inglês na GNT que era uma mistura de futilidade (passou acho que metade do tempo falando nas roupas da mulher do príncipe) e puxa-saquismo, adoração. Foi entrevistado o pai de um homem que foi assassinado ano passado nos protestos que descambaram para a violência em algumas cidades britânicas. Lá pelas tantas, falando na visita que o príncipe William lhe fez, ele chega a soltar um “eu não sou ninguém”, achando-se muito mais alguém depois que a família real notou sua existência. Isso e o fato mesmo de a monarquia existir, caracterizando uma entidade de pessoas que se colocam acima do resto todo do reinado (superioridade concedida por quem?), vai diametralmente contra a ideia de igualdade.

Nesse mesmo documentário, era feita uma louvação desmedida da caridade da realeza, do assistencialismo a que se dedicam os homens e principalmente as mulheres da família real. Nem toco no questionamento sobre se é só fachada ou não, mas na falta de crítica de fundo da imprensa. Não é preciso ser gênio pra ter ideia de que o que de fato muda as coisas, que faz efeito sobre a pobreza, é mudar a lógica, mudar o sistema. É deixar de existir pessoas superiores e pessoas inferiores (lógica na qual não há espaço para monarquia).

Isso sem falar na questão toda do conto de fadas em torno do casamento real, que esconde em si um profundo machismo no incentivo às meninas a acreditarem na história do príncipe encantado, como se existisse um homem perfeito e ele consistisse em alguém para tomar conta da menina indefesa. Uma história de Cinderela, irreal e extremamente prejudicial.

O território real

Além de Austrália e Canadá e do óbvio Reino Unido da Grã-Bretanha (que inclui Inglaterra, Escócia e País de Gales) e Irlanda do Norte, são súditos da rainha Elizabeth II os povos de Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Granada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, São Cristóvão e Névis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Ilhas Salomão e Tuvalu.

6 Comentários

  1. Há somente um motivo para a manutenção da casa real inglesa, a Commonwealth, são aproximadamente 2 bilhões de pessoas que representam 30% do comércio mundial. Caso não houvesse a figura da Rainha, provavelmente não existiria a Commonwealth. A rainha da Inglaterra é a chefe da comunidade e reconhecida por vários países como chefe de estado. Por isto que os ingleses aturam a monarquia por mais anacrônica que possa parecer!

  2. Vinicius disse:

    Excelente texto. Parabéns. É a primeira vez que vejo alguém questionar o título de democracia para esses países europeus que arrastam essa coisa absurda que é a monarquia.

  3. Ismael disse:

    Não muito relacionado, mas enfim..

    No meio das discussões sobre a validade das cotas na universidade(que sou contra, adianto) algo que lembrei esses tempos.

    Um dos argumentos é que a sociedade brasileira deve aos negros. Concordo com ressalvas, não gosto quando alguns mais exaltados culpam todos os brancos, como se todos fôssemos ricos exploradores.

    Mas enfim, voltando ao assunto, existe gente sim que é facilmente identificável como tendo se aproveitado da escravidão. Estão até hoje todos em Petrópolis – RJ, nossa gloriosa família real.

    Inclusive insuflaram aquele plebiscito bizonho para tentar retomar o poder com a volta da monarquia.

    Além deles temos também os usineiros e grandes fazendeiros que ou ainda são coronéis ou herderam seus impérios destes.

    Seria interessante uma força tarefa da receita federal ou algo do gênero pra ver isso.

  4. josé andrade disse:

    Compartilho da mesma opinião.
    A família real britânica é um bando de parasitas.
    E a imprensa brasileira como sempre é submissa a tudo quanto é imperialismo.

  5. Bruno Andrade disse:

    Concordo, porém é sabido o conservadorismo e tradicionalismo britânico desde sempre. Acho que isso ajuda – e muito – a manter essa monarquia no poder.

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