A tal festa da democracia acabou ontem em Porto Alegre, no primeiro turno e com um resultado acachapante. O processo eleitoral de 2012 não resultou em uma situação confortável para a esquerda na capital e para o PT gaúcho.

Não se pode falar em derrota do partido em nível nacional e sequer estadual porque disputa com boas chances de vitória a importantíssima São Paulo, garantiu Márcio Pochmann, que começou com 1%, no segundo turno em Campinas e aumentou o número de prefeituras, no RS e no Brasil. E, afinal de contas, é o partido da presidenta da República e do governador do estado. Mas teve derrotas importantes, como o terceiro lugar de Humberto Costa no Recife e a vitória de Marcio Lacerda em Belo Horizonte, deixando um dos melhores quadros do partido, Patrus Ananias, fora até de um segundo turno.

O resultado na capital gaúcha não é surpresa, o que não quer dizer que seja bom. Os petistas do estado nem sentiram muito o terceiro lugar que não atingiu os dois dígitos no percentual de votos, porque já contavam com um desempenho pífio e a vitória do trabalhista, ex-PT e hoje aliado com a direita, José Fortunati. Isso em uma cidade acostumada a ver o PT partir de 30%, onde o projeto político que já completa dez anos de Presidência da República ganhou corpo, fez bonito e chamou a atenção. Agora termina a eleição com o candidato a prefeito em terceiro lugar, com míseros 9,64% das intenções de voto e com a representação na Câmara menor (ainda que tenha visto uma positiva renovação nos nomes, elegendo candidatos qualificados). A cidade que criou o Orçamento Participativo, revolucionando o conceito de democracia ao mostrar que ela é muito mais do que o voto na urna e a representação, e que deu vida ao Fórum Social Mundial viu três candidatos disputarem a eleição com um discurso muito parecido. Um discurso asséptico, desideologizado. A ponto de o eleitor não conseguir enxergar diferenças significativas entre eles.

Cabe à esquerda e principalmente ao PT fazer com que o resultado das urnas não seja de todo mau, se aproveitar o momento para fazer uma ampla e profunda reflexão.

Nos partidos que se reconhecem à esquerda no espectro político, faltou conteúdo ideológico na condução das campanhas, ainda que tanto Manuela D’Ávila quanto Adão Villaverde tenham apresentado programas de governo mais identificados com os princípios da esquerda. A exceção fica com o PSTU, que, nos debates entre candidatos que foi oportunizada a participação de Erico Correa, provocou o debate mais politizado de forma competente. Mas é sintomático que esse debate tenha sido proposto apenas por um partido que disputa eleições apenas para fazer o confronto, sem pretensão de se eleger.

O PSOL optou por focar a campanha na crítica a situações específicas, deixando o debate político macro de lado e adotando o discurso fácil e despolitizante que tenta há décadas convencer o cidadão de que políticos são todos iguais. Ironicamente, fez coro com a grande mídia. A postura não fomenta o debate de fundo, que passa pela estrutura política, e favorece a direita, que é quem se privilegia da despolitização. O partido sofreu ainda com a injustiça (ainda que legal) contra Luciana Genro, impedida de concorrer a vereadora. Mesmo com a majoritária pequena, poderia ter ampliado a representação na Câmara. Manteve os combativos Pedro Ruas e Fernanda Melchionna.

O PCdoB apostou alto e começou o jogo acreditando na vitória. As contradições colocadas nas alianças contribuíram para a queda livre que terminou com as chances de Manuela. O discurso igualmente desprovido de conteúdo político encerrou o sepultamento da candidatura majoritária, que saiu de um primeiro lugar em pesquisas pouco depois de iniciada a campanha para tímidos 17,76% nas urnas. Ainda assim, o partido saiu melhor do que entrou, criando uma representação legislativa com duas vagas na Câmara.

Quem sai enfraquecido mesmo é o PT. Não acho que deveria ter coligado com Manuela, mas que deveria ter ido para a disputa para fazer um debate político de verdade. Uma candidatura que começou pequena, sem muito a perder, não deveria ter medo de promover uma discussão profunda sobre cidade, sobre o espaço público e sobre a própria política, valorizando a cidadania e defendendo a ampliação radical da democracia. Se tivesse se proposto um discurso de esquerda de verdade, teria certamente arregimentado mais votos nas urnas que ontem computaram a vontade do eleitor gaúcho. Em vez disso, manteve-se no raso, não fez o enfrentamento ao projeto político que aí está e deixou de evidenciar os profundos problemas que a cidade enfrenta. O candidato, ainda que extremamente esforçado e um deputado muito competente, era fraco. Sofria da falta de carisma e da dificuldade de articular um discurso de esquerda que empolgasse. A candidatura sofreu ainda com a ausência da presidenta Dilma Rousseff na campanha, o que acho extremamente lamentável, reflexo de um projeto que muitas vezes é mais pragmático que ideológico.

Mas essa é uma questão pontual, de uma eleição específica. O problema do partido em Porto Alegre e em algumas outras grandes cidades do estado é mais amplo e não é novo. O PT sofre da falta de lideranças novas. Permanece como referência quase absoluta Olívio Dutra, que é um grande lutador, mas que foi eleito prefeito há já distantes 23 anos e governador há 14. Além dele, ainda destacam-se o governador Tarso Genro e o deputado estadual e ex-prefeito  Raul Pont. Os mesmos de 20 anos atrás. A única novidade (que não é tão nova, mas mais recente) é o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, que se reelegeu com esmagadores 71,27% dos votos e se apresenta como provável substituto de Tarso na tarefa de concorrer ao Piratini. Mas vale refletir se sua estratégia política, mais ao centro e aglutinando em sua coligação 17 partidos em que o mais de esquerda é o próprio PT e que inclui PCdoB, PMDB, PTB e o direitista partido da vice, o PP.

Urge a necessidade de se reinventar, de criar quadros novos para tempos novos, mas sem perder a identidade e a motivação que levou à criação do partido. A defesa dos direitos dos trabalhadores, da garantia da cidadania e da ampliação da democracia devem continuar presentes e norteando a atuação do PT, mas dialogando com as profundas transformações por que passa o mundo, que vão das novas possibilidades – inclusive de fortalecimento democrático – trazidas pelo avanço da tecnologia à crise sistêmica que enfrentamos e que precisa ser discutida, com a proposição de alternativas.

Se o governo do estado se coloca o desafio de incorporar essa tecnologia na construção de seu projeto e de discutir as revoltas mundo afora e a descrença nos partidos políticos, também absorve práticas contraditórias e muitas vezes condenáveis, na ânsia de garantir a aprovação dos meios de comunicação e de parte conservadora do eleitorado. A postura que assumiu diante dos abusos da Brigada Militar ao reprimir uma manifestação no Centro de Porto Alegre não tem justificativa que se enquadre com um projeto de esquerda e não seria imaginável em um PT como o que governou o estado com Olívio Dutra em 1998. Imediatamente após a denúncia de abusos da Brigada Militar, o posicionamento do governo veio à tona defendendo a atuação do órgão e criticando os manifestantes. Ficou para depois das eleições a nota em que o governador determina a apuração do ocorrido. Ainda difere de um governo de direita, como o de Yeda Crusius, que responde sem remorso pela morte do sem-terra Elton Brum, mas decepciona quem defende uma política voltada para a cidadania.

O partido precisa, sobretudo, fortalecer o debate interno, a construção de ideias e teorias. Precisa produzir conteúdo sobre as condições em que se encontra e sobre as transformações sociais que acontecem no Brasil e no mundo. O PT e os outros partidos que igualmente se dizem de esquerda precisam interpretar a sociedade e a si mesmos de forma contínua e, a partir disso, formular um projeto político que se discuta permanentemente, diante dos acontecimentos. Isso não significa adaptar-se aos fatos e aceitá-los passivamente, mas propor alternativas coerentes diante da realidade e da constante transformação social.

Fotos: Ramiro Furquim/Sul21 e Michel Cortez/Sul21

15 Comentários

  1. Omar disse:

    O PT governou Porto Alegre de 1993 a 2005. Só relembrando, em 92 Olívio foi eleito, tendo como vice Tarso. Em 96 Tarso foi eleito, tendo como vice Raul Pont. Em 2000 Raul foi eleito, tendo como vice Fortunatti. Era uma tradição o vice concorrer a prefeito. Quando chegou a hora do Fortunatti concorrer foram realizadas prévias no Partido, quebrando a tradição. Fortunatti perdeu essas prévias e logo após saiu do PT e entrou para o PDT. O ganhador do processo interno, Tarso, governou pouco tempo e abandonou a Prefeitura durante o mandato para concorrer ao Governo do Estado. Depois desses episódios o PT não ganhou mais eleições em Porto Alegre e só decaiu, chegando ao patamar de menos de 10% de votos nessas últimas eleições. A boa notícia é que pior do que isso é difícil ficar. Se os Dirigentes do Partido aprenderam, mesmo que parcialmente, a lição, a tendência é a situação melhorar no futuro.

  2. Do que adianta Orçamento Participativo e Forum Social Mundial? O povo de Porto Alegre não quer mais saber de bla-bla-bla, quer ver obras. Fortunati, pelo menos, fez o que o PT não fez em 16 anos e sempre torceu o nariz: desenredou o cais do porto que vai modificar integralmente a paisagem de Porto Alegre para melhor. E que Fortunati continue a fazer, porque tem legitimidade para isso, mais e mais parcerias público privada. Essa lei que foi editada pelo Lula, mas que grande parte do PT não gosta, por puro preconceito.

  3. luizmullerpt disse:

    Sobre o que disseram Omar e Cris

    Erro nas datas. Olívio ganhou a eleição em 1988, Tarso em 1992, Raul, 96, 2000, Tarso de novo, após disputa interna com o Fortunati, que era Vice do Raul, como dizes. No mais, o que falas com certeza tem a ver com as contas, que nós do PT continuamos pagando até hoje. Mas não é só isto. Há muito do que a Cris fala no texto. Tudo aquilo que de certa forma foi gerado com os acalorados debates de um PT propositivo que havia no Rio Grande, e que virou prática usual em todo o país, não só no PT, mas também em outros partidos, virou lugar comum. Não há mais novidade. O PT deixou de elaborar . Aquelas bandeiras de mehlorias sociais, que pegam forte no povo, estas nós conseguimos antes do resto do Brasil. Enquanto a Dilma, com o Brasil Sem Miséria, quer erradicar a Extrema Pobreza e colocar todo o povo na Classe Média, aqui no RS, e em POA inclusive, isto já esta avançado há muito tempo. O RS é o estado que tem os menores índices de pobreza do país. E tem um maior contingente de pessoas na tal “nova classe média”, seja lá o que isto for. E Classe média, compra e consome. Se ela puder consumir e comprar, a única coisa que vai fazer é votar para manter a sua própria condição de consumidor. Não tem elaboração. Lembra que em toda a história econômica do mundo, em especial depois da revolução industrial, tem lá um sujeito econômico chamado Classe Trabalhadora. Buenas. Aí é que está. A turma do PT, toda ela, inclusive eu, estamos vivendo o “bum” da tal Classe média e colhendo os louros. O PT só faz crescer seus votos à nível nacional. O PT de Porto Alegre e do Rio Grande tem que pensar em ganhar eleições. coloca lá um figurão, faz uma aliança, mas tem que ter projeto de futuro. Senão se atrapalha. Aquilo que o PT construiu no passado, para o futuro de Porto Alegre, já é presente. O futuro está por construir. Se o presente tem muita “muita nova classe média”, na europa esta fase já passou. Agora lá tá vindo a conta. Pra que a conta não seja cara, e até positiva pro PT e pra sociedade, tem que retomar a elaboração para além da próxima eleição. Quem sabe então compreendamos melhor este movimento de murchar bonecos de borracha de multinacionais em plena praça pública e tenhamos mais o que dizer, do que aquilo que todos dizem.

  4. Omar disse:

    Orçamento Participativo e Forum Social Mundial são importantíssimos, por serem temas estratégicos. Os espanhóis infelizmente não estão confirmando a tal PPP para o cais do porto por falta de grana.

  5. Omar disse:

    Perfeito, caro Müller. Me equivoquei nas datas. Omar

  6. Cris disse:

    Embora discorde de ti, Carlos, sempre respeito tua opinião. Comento agora apenas para observar que o Cais do Porto é um projeto do governo do estado. O papel da prefeitura e do Legislativo municipal foi apenas alterar o plano diretor.

  7. Maria Libia disse:

    O problema é que o PT se sofisticou e deixou as bases de lado. O presidente Nacional do PT, (esqueci o nome do infeliz) é um verdadeiro Calabar. Não aceitou e nem aceita o enorme prestígio que goza o LULA. O Calabar está mancomunado com o PSDB de São Paulo. Se duvida, por que o PT NUNCA reagiu aos infames ataques da mídia contra o LULA, durante oito anos, e da Dilma agora? Tudo acontece, até o golpe da elite já estando nas ruas e NENHUMA, atenta bem, NENHUMA reação vem do PT. Onde estamos nós, da base, que tantos anos lutamos pelo PT?

  8. Sim, eles estão tentando captar investidores, tenho informações de que o grupo está quase fechado, é assim que as coisas funcionam. O projeto vai sair. Houve boa vontade do governo Tarso em tocar para a frente esse projeto que — insisto — vai mudar a vida de Porto Alegre

  9. luizmullerpt disse:

    Reblogged this on Luizmuller's Blog.

  10. Omar disse:

    Espero que tenham sucesso.

  11. Omar disse:

    O grande vencedor dessas eleições foi o Luis Inácio.
    O grande perdedor dessas eleições foi o PIG.

    http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/10/08/o-vencedor-foi-lula/

  12. Pablo disse:

    Acho que o PT deve se esforçar para fazer uma administração exemplar nas cidades onde foi eleito. É só assim que vai adquirir confiança. O que aconteceu em Gravataí foi vergonhoso! É uma pena, pois a primeira administração foi muito boa, mas depois foi simplesmente péssima!

    Acho que esse é o momento de cultivar a humildade e limpar a casa.

  13. luizmullerpt disse:

    Pablo

    Fazer boa administração, o PT já mostrou do que e capaz. O modo petista de governar reconfigurou a gestão pública no Brasil. O PT sabe gerir bem o estado capitalista. Lembro que a campanha do Fogaça-Fortunati a época foi “continuar o que esta bom e melhorar o que precisa ser melhorado”. Continuaram o que estava bom e nã omelhraram nada mais. Mas o problema é que nós ficamos falando que tinham piorado o que estava bom. E aí cabe uma avaliação. Será que o PT esta errado ao afirmar que pioraram o que estava bom? Ou será que o Senso comum entendeu que melhorou o que estava bom e isto já seria um passo adiante na gestão? Além da falta de humidade, que não deixa criar novas lideranças forjadas nos movimentos, origem do PT, há um outro problema. Se os outros continuam o que estava bom nos nossos governos, o PT tem a obrigação de elaborar para além do que um dia foi inovador e hoje é só continuidade. Mas para isto precisa ouvir os movimentos sociais, que NÃO são os cabos eleitorais deste ou daquele parlamentar nos bairros da cidade.

  14. FHC disse:

    Absurdo. Cega petista. Sim, tenho um preconceito contra quem é do PT. Essa foi uma escolha, e a partir do momento em que a pessoa escolhe apoiar um partido corrupto, ela também se torna corrupta.
    Esse blog defendendo a PTzada é uma vergonha. Parece blog da Igreja Universal.

  15. silver price disse:

    Se o governo do estado se coloca o desafio de incorporar essa tecnologia na construção de seu projeto e de discutir as revoltas mundo afora e a descrença nos partidos políticos, também absorve práticas contraditórias e muitas vezes condenáveis, na ânsia de garantir a aprovação dos meios de comunicação e de parte conservadora do eleitorado. A postura que assumiu diante dos abusos da Brigada Militar ao reprimir uma manifestação no Centro de Porto Alegre não tem justificativa que se enquadre com um projeto de esquerda e não seria imaginável em um PT como o que governou o estado com Olívio Dutra em 1998. Imediatamente após a denúncia de abusos da Brigada Militar, o posicionamento do governo veio à tona defendendo a atuação do órgão e criticando os manifestantes. Ficou para depois das eleições a nota em que o governador determina a apuração do ocorrido. Ainda difere de um governo de direita, como o de Yeda Crusius, que responde sem remorso pela morte do sem-terra Elton Brum, mas decepciona quem defende uma política voltada para a cidadania.

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