Quando acidentes deixam de ser só estatísticas

Acidentes de trânsito acontecem todos os dias. Eles são números. Números escabrosos, que só aumentam, sempre e sempre. Mas ainda assim são números. Não comovem. Chocam, mas não embrulham o estômago. E o pior, não mudam as atitudes de quem está no trânsito.

Ver a coisa ali, com o sangue vermelho, os corpos no chão, a moto caída. Comprovei que isso, sim, choca. E realmente embrulha o estômago.

Não foi preciso ir para uma estrada em fim de feriadão. Zona de classe média em Porto Alegre, lugar tranquilo, rua não muito movimentada. Primeiro, vi a moto. Não é a primeira vez que essa cena aparece na minha frente, achei que era mais um motoqueiro caído que já se levantara e só esperava a EPTC chegar. Até que ouço o comentário: “Bah, é um casal, olha ali”.

Quando o carro passou do lado, enxerguei a mulher e o homem estirados na calçada. A coisa era recente, a SAMU nem tinha chegado ainda. A perna do homem estava praticamente descolada do corpo.

Quando lia comentários de pessoas vomitando ao ver acidentes, achava estranho. Pensava que eu teria um choque, uma coisa mais psicológica, mas não a esse ponto. Hoje não sei por que não vomitei. A vontade efetivamente veio, o estômago se embrulhou.

Eu nunca vira uma cena tão forte ao vivo. No jornal, na TV não conta. Ao vivo dói, e fica martelando na cabeça todo o resto do dia.

Mas o mais triste é sair dali e enxergar, como todos os dias, todas as barbeiragens que são cometidas nas ruas de Porto Alegre. Todas as imprudências que provavelmente levaram ao acidente de hoje. E que são feitas por esperteza, pra chegar na frente do carro vizinho, pra roubar uma vaga. Quem sabe roubar uma vida.

Não sei como nem quando, mas uma hora as pessoas têm que se dar conta que dirigir não é um videogame. Talvez com mais fiscalização, punições mais rígidas. O trânsito mata, e mata porque se cometem crimes. Em São Paulo, ultrapassou os homicídios como principal causa de morte não natural em 2007 e 2008 (ainda não foram divulgados os números de 2009). A maioria envolvendo motoqueiros.

Infelizmente, vemos esses números todos os dias e já não nos comovemos mais, de tantos que são. Mas são números tristes, e precisamos lembrar disso todos os dias, a cada nova estatística, a cada novo acidente, a cada morte.

Quando acidentes deixam de ser só estatísticas

Um comentário sobre “Quando acidentes deixam de ser só estatísticas

  1. Ademar disse:

    Na verdade, são coisas que provam a cada dia mais o tamanho da estupidez humana.

    O sistema econômico como um todo deturpou conceito de vida e tempo, hoje tempo é dinheiro, e apenas isto.

    A juventude desde cedo recebe aquela mensagem, da familia, da mídia, dos amigos, de todos, que o primeiro investimento a fazer é um carro, investe dinheiro, ganha muito mais dinheiro (tempo), mas as coisas hoje não funcionam bem assim.

    No passado, digo lá por 1920, eram só casas, no máximo casas com dois andares, mas eram casas, com uma família, e na frente de casa havia uma rua. Hoje, há prédios, com dezenas de famílias, ou centenas em alguns casos, prédios ao lado de predios, e mais e mais prédios, e as ruas continuam da mesma largura, ou seja, o sistema atual não suporta o uso de carros.

    E quem tem carro? perde horas no trânsito, o cara começa a lembrar que pagou mais de 30 000 reais por uma lata inútil, pra ficar ali no meio da rua, parado, aguardando o trânsito, e hoje, todos tem celular, ferramenta extremamente útil para o chefe ligar enquanto o cara está lá no meio da rua trancado no trânsito, e colocar pressão.

    E quem anda de moto? e quem trabalha com moto? o espaço urbano não suporta mais nada, não há mais espaço, mas motos são pequenas, conseguem passar entre os carros, até mesmo em calçadas, e um bando de estúpidos acham que porque conseguem passar, devem passar e se aproveitar, se acham espertos, pois estão ganhando tempo, que na sociedade atual é igual a dinheiro.

    E o trânsito virou uma guerra, motoristas de carro altamente stressados, motoqueiros stressados, e todos stressados, e eu aqui, todo dia, aproveitando meu chofer, na tranquilidade, por 2,70.

    Enquanto as pessoas não tiverem consciência de que é preciso largar esse sistema, e ignorar as pressões alheias, dando prioridade à própria vida, as ruas continuarão sendo grandes fábricas de presunto.

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