Neoliberalismo se combate com… neoliberalismo?

“Sitiado e dividido, o Parlamento grego aprovou ontem as medidas de austeridade exigidas pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para salvar a Grécia do caos.” (Estadão)

Não me lembro dos textos dos jornais lá nos anos 90, mas podia jurar que em algum momento eles publicaram coisas bem parecidas com isso, trocando “Grécia” por “Brasil” ou “Argentina”.

Reduzir salários, cortar empregos e benefícios, aumentar impostos (tudo em troca de um empréstimo de 110 bilhões de euros da UE e do FMI) lembram as reduções dos gastos públicos recomendados pelo Consenso de Washington em 1989 e impostos pelo FMI aos latino-americanos, com o único objetivo de quebrar os países, de acordo com Emir Sader (em “A vingança da história”, de 2007). Incrível ver a Europa mergulhar nos mesmos erros que a América Latina cometeu 20 anos atrás.

E mais absurdo ainda é constatar que a crise causada pela implantação de políticas neoliberais – que foram mais aprofundadas aqui pelos latinos do Sul, mas que orientaram a economia do mundo inteiro – está sendo enfrentada por… políticas neoliberais!

Aliás, muito divertido o título do projeto de lei aprovado ontem que prevê as medidas: “Projeto de medidas para a aplicação do mecanismo de apoio à economia grega pelos países membros da zona do euro e do Fundo Monetário Internacional”.

Cheguei a achar que eu estava enlouquecendo ao vislumbrar esse cenário, que me assusta muito, considerando o ponto em que chegamos no final dos 90, início dos anos 2000. Não poderia haver exemplo mais explícito que a bancarrota a que Carlos Menem levou a Argentina. Não via ninguém lembrar isso. Nesses poucos dias em que o assunto vem sendo mais discutido, não lia nada a respeito nos jornais, não via na TV. Ninguém dizia que as medidas que vão “salvar” a Grécia (e isso eu li muito) são as mesmas que quebraram o Brasil duas vezes nos anos Fernando Henrique Cardoso.

Acalmei-me quando li uma frase perdida lá no fim de um texto de Paul Krugman no Estadão online: “A Grécia já começa a parecer com a Argentina de 2001”. Não é exatamente uma denúncia, pouquíssima gente chega a ler – ou, se lê, a prestar a atenção no detalhe -, mas é pelo menos uma comprovação de que não estou tão distante assim dos fatos.

Ok, acabo de descobrir que tem mais gente compartilhando a mesma visão. Cristóvão Feil, do Diário Gauche, por exemplo. “É aquela situação da anedota, o sujeito adoeceu de tanto comer batatas, vai ao médico e este, depois de examiná-lo, passa-lhe a seguinte dieta: batatas!” Posso cancelar a Maracugina, ainda não enlouqueci.

Afinal, não ler nada a respeito por aí não quer dizer que ninguém veja. Talvez queira dizer que ninguém quer ver.

Neoliberalismo se combate com… neoliberalismo?

3 comentários sobre “Neoliberalismo se combate com… neoliberalismo?

  1. Acho que não podemos comparar Grécia e Argentina com o Brasil. Nos dois primeiros, o povo foi pra rua, apanhou (no caso grego, ainda apanha) da polícia, protestou contra as medidas. No Brasil, infelizmente, predominou a passividade da população – que reagiu em 2002 elegendo Lula, é verdade; mas FHC, convenhamos, teve muito pouca dor de cabeça para implantar os pacotes “indicados” pelo FMI.

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    1. Concordo plenamente, Rodrigo, que não podemos comparar a postura da população. Pensei em citar isso, mas o texto ficaria longo demais. Mas podemos comparar os projetos político-econômicos dos governos. Não a recepção que tiveram, mas a intenção e a implementação, sim.
      Abraço

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