Jornalismo e as forças do Estado e do mercado

Tenta conversar com algum jornalista da grande imprensa brasileira – ou latino-americana – sobre sistemas de governo e economia. Fica claro – no que não acho que estejam errados, muito pelo contrário – que enxergam uma oposição nítida entre Estado e mercado. Veem que há duas forças, e que uma pode ser maior que a outra dependendo das circunstâncias. Geralmente defendem as de mercado, mas essa já é outra história.

Pega esse mesmo jornalista em um momento diferente. Pergunta pra ele sobre liberdade de imprensa, pede que ele faça uma avaliação da situação no mundo, em especial na América Latina – eles adoram falar sobre a América Latina dentro desse tema. Ele vai se espalhar na cadeira, se sentir completamente à vontade, vai puxar um mapa de liberdade de imprensa divulgado pelos Repórteres sem Fronteiras e vai apontar os países que mais violam a dita liberdade. Cuba aparece em primeiro, um deleite.

Tentativa de vinculação com a esquerda

O engraçado é que aí eles não lembram do mercado, não existem duas forças. Apenas uma força é capaz, na ótica que interessa à grande imprensa, de censurar veículos. Quer a prova? Assiste o Sem Fronteiras da GloboNews dessa semana. É meia hora enumerando casos de ataques à falta de liberdade de imprensa em Cuba, Equador, Venezuela.

Mais engraçado ainda é que chegam a falar – e a repórter tenta induzir um jornalista equatoriano a concordar com a tese – que o problema é causado pelos governos de esquerda, que não gostam de deixar os jornalistas falarem o que bem entenderem. Citam rapidamente ao longo do programa que Colômbia e México são, junto com Cuba, apontados pelos Repórteres sem Fronteiras como os países em pior situação. Apesar de crítico do governo de Rafael Correa, o jornalista não se deixou levar pela provocação e disse que o problema era de governos que querem se perpetuar no poder, independente de serem de esquerda ou direita.

As forças do mercado

Mas ninguém, em nenhum momento lembrou da falta de liberdade causada pelos monopólios, pelas forças que fazem com que só quem tem poder e dinheiro tenha acesso aos meios de comunicação. Hoje mesmo vi o assessor da Presidência Marco Aurélio Garcia lembrando que as grandes empresas de comunicação são familiares e, portanto, pouco democráticas. Ninguém elegeu Otávio Frias Filho como presidente da Folha. Ou melhor, o pai dele o elegeu, e só. No entanto, ele pretende representar o Brasil através de seus jornais. Ele quer falar sozinho para o Brasil. Sozinho ou acompanhado por poucos de outras famílias que pensam igual a ele.

Auto-censura é ligada ao Estado

O Sem Fronteiras, comandado por Jorge Pontual – o mesmo que, fingindo que fazia uma entrevista, abriu espaço à blogueira Yoani Sanchez para criticar o governo de Cuba como bem entendesse semana passada -, lembrou a auto-censura em algum momento, mas sempre ligada ao Estado. É o jornalista que não fala porque tem medo do governo, não o que tem medo do patrão.

Valorizou o Brasil pela “profunda liberdade de imprensa” que vive hoje. O único caso de violação citado foi o do Estadão, impedido de falar no filho do presidente do Senado, José Sarney. Claro, interessa manter como está. As empresas têm toda a liberdade, de fato, para fazer o que bem entenderem. O governo não se mete, realmente. O ex-ministro Hélio Costa foi extremamente conivente com essa situação de oligopólio, que a GloboNews traduz como liberdade de imprensa. Os governos que tentaram estabelecer alguma regulamentação a essa falsa liberdade, que só é livre para alguns, foram criticados como censores, como de praxe.

E o Brasil segue sendo um país de profunda liberdade de imprensa. Para alguns. Quem define quem são esses alguns é um pedaço de papel.

Jornalismo e as forças do Estado e do mercado

Um comentário sobre “Jornalismo e as forças do Estado e do mercado

  1. Tem um mapa no site dos Repórteres sem Fronteiras que indica, em certos países, quem são os “predadores” da imprensa. Na Itália, são só as “organizações criminais mafiosas” – sem mencionarem o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, dono de boa parte da mídia italiana, que obviamente não fala nada que o deixe mal na foto…

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