Entre governo e oposição, sempre governo

E não é que a Zero Hora acertou no tom? E em política, pasmem. O autor da proeza é Paulo Germano, o repórter que assina a matéria “Ninguém é de ninguém”, sob a cartola “Salada eleitoral”, nas nobres páginas 4 e 5 dessa edição dominical.

Em primeiro lugar, as palavras todas encaixam. Elas estão no lugar certo, é gostoso de ler. Na forma, o texto é muito bom. Utiliza metáforas inteligentes, mas compreensíveis por todos. Não são ideias jogadas, são palavras trabalhadas.

É também uma matéria boa em conteúdo. Discute a falta de coerência dos partidos. Dos políticos também, mas principalmente das siglas. Tem problemas, é verdade, mas ainda tem mais méritos, admito. Chama a atenção a utilização de citações. Quando fala do PMDB, principal alvo da matéria, Germano usa uma fala de algum peemedebista. Ao mostrar a incoerência do PTB, é vez de citar um petebista, e assim sucessivamente. O que deixa mais evidente o oportunismo relatado.

Um único parágrafo me fornece duas sensações antagônicas. Primeiro, o sentimento de que eu gostaria de tê-lo escrito. A segunda, a de que esconde uma baita sacanagem.

“Às vésperas da eleição, cada vez mais “ideologia” parece esnobismo fora de moda. Entre todos os principais partidos, uma prioridade evidente é atingir o poder, seja com quem for, seja como for. Escancara-se um pragmatismo político no qual direita se abraça na esquerda, tempo de TV engole utopias e, para piorar, os que se dizem éticos emudecem frente aos desonestos. A intenção é a mesma: evitar ficar na oposição.”

Gostaria de tê-lo escrito porque seu texto é irretocável e traduz em poucas linhas como funciona boa parte da política nacional. Mas traz escondida a tentativa de retratar o todo por essa parte, valoriza a velha ideia de que é tudo a mesma coisa, nada boa para a nossa frágil democracia. Uma tentativa de mostrar todos os partidos e todos os políticos como pertencentes a uma só laia, a uma só estirpe. E essa laia não é nada boa. É o oportunismo, chamado pelo jornal de pragmatismo. Segundo o Houaiss, a palavra usada por Paulo Germano significa uma “corrente de idéias que prega que a validade de uma doutrina é determinada pelo seu bom êxito prático”. Ou seja, os fins justificam os meios. Acho que está mais para um vale-tudo mesmo.

Mas há ainda algo mais grave. Depois do texto principal, quatro retrancas dão conta de mostrar as incongruências de PDT, PTB, PP e PT. O PMDB já foi bastante batido, apontado como o exemplo-mor de oportunismo; quer dizer, de pragmatismo.

E o PSDB? A ZH simplesmente deixou passar batido. Daí fica difícil acreditar nas boas intenções.

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A matéria: Ninguém é de ninguém

As retrancas: Paulinho do PDT foi vice de Ciro, adotou Alckmin, abraçou Lula e está com Dilma
O PTB de Lara apoiou Yeda, lançou candidato e mantém cargos no governo
O PP não gostava do PT, aceitou convite de Lula e agora namora Serra
Os petistas abandonaram a pureza, assediaram inimigos e estimularam a barganha

Entrevista: “O Brasil é uma falsa federação”

Entre governo e oposição, sempre governo

3 comentários sobre “Entre governo e oposição, sempre governo

  1. Jefferson Guedes disse:

    Belo texto. Uma análise realista da política brasileira. A questão que eu levanto: se é assim que a banda toca, qual a solução? Eu, por exemplo, estou tentado a votar na Marina porque acho que ela encarna um novo modelo de desenvolvimento pro país. Mas, quando penso nas alianças que o PV faz, me dá um desânimo! Acho que vou aderir ao anarquismo de vez. Um abraço.

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  2. natusch disse:

    Que maldade, Cris… CLARO que não botaram o PSDB porque só tinha espaço para 4 retrancas, e aí escolheram os partidos na base do unidunitê… ÓBVIO que foi isso =P

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