“Para grande mídia, liberdade de imprensa é ter o direito de fazer o que bem entender”

Jornalismo e América Latina. Dessa dupla surgiu uma discussão mais ampla, não apenas sobre o continente é retratado nos nossos jornais, mas principalmente sobre como o jornalismo é vilipendiado por essas bandas. Em Porto Alegre e Pelotas, o jornalista Mário Augusto Jakobskind lançou seu A América que não está na mídia apontando o dedo na cara da mídia que chamou de conservadora. Sem dó nem piedade, como deve ser.

O principal ponto em questão foi como furar o bloqueio imposto por ela, que impede a sociedade de gerar grandes discussões e, quando o faz, é para posar de democrata. Mas mesmo assim daquele jeitinho meio discreto. A bravata é muito maior do que o espaço que de fato é aberto para questões que não interessam muito. Questões como liberdade de imprensa, mídia comunitária, agricultura familiar, movimentos sociais. Fugir da criminalização é papel apenas dos nanicos. (Lembrando que a mídia é controlada pelo agronegócio, que tem no Estadão e na Globo alguns de seus participantes.)

Para Jakobskind, a cobertura de América Latina é preconceituosa, e é isso que ele pretendeu demonstrar no livro. O exemplo mais evidente é a Venezuela de Hugo Chávez, chamado frequentemente de ditador, onde “a liberdade de imprensa é concreta de 11 anos para cá”, com crescimento vertiginoso da mídia alternativa, incentivada pelo Estado. “Para nós, isso é democrático. Para grande mídia, é falta de liberdade, porque para eles liberdade de imprensa é liberdade de empresa (terem o direito de fazer o que bem entenderem).” Representante dessa visão é o Instituto Millenium, que tem como um de seus coordenadores o apresentador do Jornal da Globo, William Waack.

Citou também Argentina, Equador, isso sem nem falar em Cuba. Todos criticados por tentarem quebrar o monopólio, por buscarem o que Umberto Eco definiu como termômetro da democracia nos países: só é democrática a nação em que todos os setores da mídia têm vez e voz. No Brasil, a realização da I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), no fim do ano passado, foi ainda tímida, mas importante, e assustou os setores conservadores, que passaram a esbravatear ainda mais, usando os exemplos dos vizinhos para dizer que o Brasil seguia o mesmo caminho, como se isso fosse gravíssimo. “Uma grande balela para assustar os incautos”, detonou Jakobskind.

Lembrei da entrevista que Jorge Pontual fez com a blogueira cubana Yoani Sánchez quando Jakobskind falou no “jornalismo convescote”, muito comum na nossa imprensa, quando “os caras levantam a bola para o entrevistado falar o que bem entender”. Um belo exemplo de como se maltrata a América Latina nas nossas telinhas.

Continua…

“Para grande mídia, liberdade de imprensa é ter o direito de fazer o que bem entender”

6 comentários sobre ““Para grande mídia, liberdade de imprensa é ter o direito de fazer o que bem entender”

  1. Lendo seu texto, me lembrei do Fernando Rodrigues tentando comparar os gastos com propaganda dos governo FHC e Lula. Disse ele:

    “Há um fator a mais a ser notado a respeito do petista. Ao assumir o Planalto, Lula dava verbas de publicidade para 499 veículos de comunicação em 182 municípios. Hoje, bebem dessa fonte 7.047 empresas em 2.184 cidades.

    À primeira vista, Lula estaria fazendo uma divisão mais democrática do dinheiro da publicidade estatal federal. Na realidade, trata-se de um processo perverso de perpetuação desse tipo de gasto.

    Centenas de pequenas rádios e publicações pelo país recebem regularmente de R$ 1.000 a R$ 3.000 por mês. Em troca, veiculam comerciais do governo. Criou-se um vício. A interrupção do costume provocará crise de abstinência.

    Qual presidente terá coragem de, da noite para o dia, cancelar o envio desse dinheirinho para milhares de empresas de comunicação no interior? Possivelmente, nenhum.”

    Ele teme a perpetuação dos gastos na mídia regional e alternativa … será que teme a perpetuação dos gastos na Folha de São Paulo?

    Parabéns pelo blog e morri de inveja de não estar no show do Gil

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  2. Alexandre,

    Primeiro, muito obrigada pelos parabéns.

    Fico esperando teus comentários sempre, porque esse foi muito bom. Me lembrou inclusive de um outro aspecto que o Mário Augusto Jakobskind falou na palestra e eu não coloquei no post. Ele disse que 85% da publicidade do Estado é destinada para a mídia conservadora. Lembrou que um dia perguntou para o José Dirceu, quando ele ainda era chefe da Casa-Civil, quais os motivos disso. O então ministro respondeu que era simplesmente porque dava mais retorno. Concordo com Jakobskind quando ele critica: essa é a lógica de mercado. Claro, dá mais lucro. Mas qual a função do governo? Ele deve servir à sociedade, independente de dar mais ou menos lucro. Essa é uma reflexão grande, mas é isso que é importante ressaltar agora: o governo age assim obedecendo uma lógica de mercado, infelizmente.

    Sobre o show, hoje tem Teatro Mágico.

    Abraço

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  3. Vi isso de uma das formas mais evidentes quando os jornalistas da Band entrevistaram Lula no Canal Livre, há um mês, pouco mais. Impressionante. Eu acho que existe uma diferença abusrda entre ter liberdade de expressão e fazer o que bem entender. É aquela defesa que fiz, num texto, sobre o código de ética. É um absurdo quando se colocam contra um órgão federal para regular a atividade dos jornalistas, como existe em qualquer outra atividade profissional. Isso é medo. Medo de quebrar um padrão (medíocre) instituído de contratação de profissionais, construção de notícias, etc. Hipócritas.

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  4. Sílvio Freitas disse:

    Pois achei fantástica a atitude de Lula de retirar privilégios de 499 veículos de comunicação e dividir a verba entre 7047 veículos. O ideal seria que qualquer governo (municipal/estadual/federal) fosse PROIBIDO de investir qualquer centavo público em quaisquer meios de comunicação. seria o fino da democracia para todos.

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  5. Paulo Mendes disse:

    Muito boa a matéria. Escrevo para contribuir, na minha opinião a mídia não é apenas atrelada ao poder ela é o próprio poder em ação. Veja a questão do morro Santa Tereza, a RBS usa o poder da mídia para facilitar o negócio privado da Maiojoma. Maiojama e RBS são farinha do mesmo saco.

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