Embaixador americano dá aula de democracia a Miriam Leitão

A questão não é ter opinião sobre se o apoio do Brasil ao Irã é bom ou ruim. A questão é que não há unanimidade sobre se o Brasil de fato apoia Irã. Eu, por exemplo, enxergo no Brasil uma posição de diálogo, de conversação, de negociação. Com todos os lados, sem criminalizar nenhum. E sei que muita gente pensa parecido (vi o assessor da Presidência Marco Aurélio Garcia dando essa opinião outro dia). Foi assim que Lula recebeu no país, além de Ahmadinejad, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, mas também o presidente israelense Shimon Peres, e foi assim que visitou o Estado judeu.

Pois a jornalista Miriam Leitão, no programa Espaço Aberto, da GloboNews, disse claramente que Lula – não é nem o Brasil, olha a sutileza – apóia o Irã e perguntou para o embaixador americano Thomas Shannon o que ele achava disso. Teve que engolir um “eu não acho que Lula esteja apoiando o Irã”. Vejam bem, o embaixador americano não acha, mas a Globo – e a imprensa brasileira, sempre dona da verdade – acha. Bem, nada surpreendente, considerando o nome da profissional que conduziu a entrevista.

E isso nem foi o mais grave da entrevista com o embaixador, que assisti ontem à tarde. A jornalista citou outros países latino-americanos, entre eles Venezuela, Bolívia e Equador (e ela disse os nomes desses países) afirmando que havia movimentos que lembravam as guerrilhas da década de 70, e arrematou: “a situação hoje é muito parecida com a década de 70. O senhor acha que a América Latina parou no tempo?”. Epa, peraí, como assim?

Na década de 70 vivíamos sob ditaduras de direita, que oprimiam, censuravam, torturavam, matavam. Hoje vivemos sob ditaduras de esquerda. As guerrilhas que ela citou – o caso do Paraguai, por exemplo – são movimentos narco-traficantes. Na década de 70 eram movimentos de libertação, de esquerda. Não há, em hipótese alguma, nenhuma relação. A distância, aliás, é gigantesca. Motivação, método, estratégia, objetivo. Tudo é diferente. A única coisa que talvez se pudesse apontar em comum é o uso de armas por pessoas não ligadas a governos.

Bem feito, levou uma resposta a altura. Shannon (a coisa é grave quando um americano tem que defender a esquerda latino-americana para jornalistas brasileiros!) afirmou que a região está aprofundando a democracia.

O cara já estava quase irritado com as perguntas. O motivo é claríssimo como água. Sei que às vezes essa palavra soa um pouco forte, meio exagerada, mas nesse caso é manipulação da informação, distorção. Grosseira, gritante.

Embaixador americano dá aula de democracia a Miriam Leitão

5 comentários sobre “Embaixador americano dá aula de democracia a Miriam Leitão

  1. Clarice disse:

    É algo escandaloso a cobertura dos principais veículos tradicionais de imprensa do Brasil (Folha, Estadã, Globo) em relação à visita do presidente Lula ao Irã. Gostem ou não de Lula, não há como não admitir a importância deste evento. Pois bem, uma rápida olhada na cobertura da viagem nos sites destes veículos (que não têm vida própria, pois se alimentam do que é produzido pelos jornalistas do impresso) mostra que NINGUÉM MANDOU CORRESPONDENTE acompanhar a visita. NÃO EXISTE cobertura de relações internacionais no Brasil. É tudo chupado (ops, comprado) da BBC Brasil, Reuters ou AFP. É brabo. O problema maior não é ser de direita, o problema maior é ser incompetente.

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  2. Clarice disse:

    Erro meu: o Estadão, ao menos, está com correspondente, sim, e parece que saiu com furo (talvez internacional) sobre o provável acordo Irã-Brasil-Turquia. Ainda bem. Folha e OGlobo continuam só com agências internacionais e o NYTimes repercute matéria sobre o provável acordo feita pelo correspondente… em São Paulo. Provavelmente chupada do site do Estadão.

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    1. Eu nem tinha me dado conta disso, Clarice. É um verdadeiro absurdo. Fazem uma cobertura à distância e ainda se acham os donos da verdade para criticar à vontade. Sem espaço para contestação, como ilustra o Diário Gauche – http://diariogauche.blogspot.com/2010/05/globo-arruma-especialista-que-e-contra.html

      Fora que, quando é inevitável reconhecer os méritos, porque o mundo inteiro reconhece, é sempre “O mundo está elogiando Lula, mas…”. Não sei nem se é incompetência, acho que é de propósito. Para que mandar um correspondente para fazer um discurso pronto, que pode ser feito daqui? Que já está preparado aqui…

      A Band fez uma matéria boa ontem, apesar de tudo.

      Beijo

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  3. anonimu disse:

    Só pode ser piada. Comparar os movimentos comunista a libertadores… esse nunca ouviu bem o que os proprios comunas dizem… e eles não acabaram, referem-se aos eventos da ditadura como “ruptura” … e o movimento gransmiciano ‘hegemonico’ não parou em hipótese nenhuma… ledo engano… e quando eles conseguirem vcs terão todo a “democracia bolivariana cubana” para expressarem livremente “apoio ao estado livre do imperialismo” kkkkkk
    Os Estados Unidos, e seus representantes comunas respiraram ares de hermandade com os hermanos, dentro em breve (e já sentem) a bolha da bolha explode (zona do euro? desvalorização galopante do dollar?), continuem assim… ‘dando democracia para o invasor da casa’…kkkkkkkk
    Na decada de 70 viviamos uma guerra mundial, uma guerra fria, o mundo não estava livre… aponte-me a democracia e aponto a guerra… Logo Ditadura de direita é piada , como é piada os ditos “esquerdistas”…. só há esquerdista se for do mesmo corpo, são inimigos comunas…

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