A financeirização do futebol

Futebol. De quatro em quatro anos temos desculpa para comentá-lo. Gostamos de comentá-lo, até quem nunca se sente atraído pelo esporte. Bom momento para refletir sobre ele.

Um dos que falam com mais emoção sobre futebol é alguém não diretamente ligado a ele. Eduardo Galeano, mais conhecido por sua veia política, por tratar de sociedade, de desigualdade, é um apaixonado por futebol. Daqueles que usam o coração para falar da bola, do drible, do goleiro, até do árbitro. Com a vantagem de domar as letras como ninguém e conhecer a história do esporte.

E é com a mesma emoção que ele se dá o direito de reclamar dos rumos que o futebol tomou nas últimas décadas. Há séculos, milênios até, um esporte movido pela vontade, que bastava uma bola e algumas pessoas para que fosse jogado, sentido, observado, agora é um negócio. Bem lucrativo, aliás. Na verdade, um dos mais lucrativos do mundo. Um dos responsáveis por isso chama-se João Havelange, que, em 1974 anunciou que vendia um produto chamado futebol, que vendeu às empresas os direitos publicitários sobre os times, que financeirizou o esporte.

“No fim do século, os jornalistas especializados falam cada vez menos no talento dos jogadores e cada vez mais em suas cotações. (…) Os especialistas nos bombardeiam com o vocabulário da época: oferta, compra, opção de compra, venda, cessão por empréstimo, valorização, desvalorização.” (Futebol ao sol e à sombra)

A técnica se sobrepõe à raça, à arte, à garra, à beleza. De principais personagens, de comandantes do espetáculo, os jogadores viram peças, movidas por empresários donos do dinheiro. Produtos. Não é mais nem o técnico que decide quem joga, mas o dono do time, a empresa. Que paga muito bem, é verdade. Talvez os próprios jogadores nem tenham do que reclamar, levam uma vida das mais confortáveis. Mas e a alegria, ainda há espaço para ela? “Os resultados recompensaram isso que agora chamam de sentido prático. Viu-se pouca fantasia. (…) Até poucos anos atrás os atacantes eram cinco. Agora só resta um, e nesse ritmo não ficará nenhum.”

E os torcedores, como ficam? O futebol já foi um esporte popular, que sofria até de certo preconceito por ser coisa de pobre. Esporte de elite era tênis, golfe, rugby. Hoje, para ir a um estádio tem que ter grana. Um ingresso de 40, 50 reais em um jogo simples de Campeonato Brasileiro ou Gauchão é uma ofensa.

O dinheiro que gira dentro do futebol é uma ofensa. Não só ao torcedor, diretamente atingido por se ver tolhido de sua capacidade de assistir de perto ao espetáculo (que espetáculo?), de participar, de ser parte, mas a toda a sociedade. A inversão de valores da sociedade é cruel. E fortalece a desigualdade.

A financeirização do futebol

Um comentário sobre “A financeirização do futebol

  1. […] Já falei do contra-senso, do desrespeito com a sociedade que é investir tanto dinheiro em futebol. Agora questiono a validade dessa política para o próprio futebol. Alguém aí está satisfeito com os resultados obtidos ultimamente? Não falo em números, mas quero saber se o pessoal acha que o futebol está ficando mais interessante. Eu acho que menos. A Copa está chata, as únicas surpresas são porque seleções grandes estão fracas demais e não conseguem se classificar. Nada de bom chama a atenção, nada empolga. Só vejo pessoas reclamarem dessa Copa. Junto-me ao coro. […]

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