Por que Maradona goleia Pelé

Em tempos de Copa do Mundo, a comparação entre Pelé e Maradona é inevitável. Por mais que o assunto esteja esgotado, sempre aparece. Não entro no mérito técnico, não quero discutir a qualidade como jogador.

Torço pela Argentina esse ano justamente porque tem Maradona. Tem Cristina Kirchner e tem Maradona. O cara se posiciona diante da vida. Não tem medo de dizer o que defende. É diferente de brigar por qualquer coisa. Dizer o que pensa, ainda mais quando se pensa diferente do que quem costuma mandar, é ter coragem de assumir posição. Maradona vive. Não é um boneco produzido que vive de celebridade. Cometeu muitos erros, mas porque pessoas, aquelas de carne e osso, as de verdade, cometem erros.

Na comparação com Pelé, Maradona dá goleada. Vou deixar Eduardo Galeano explicar: “Os mesmos jornalistas que o pressionam com os microfones reprovam sua arrogância e suas zangas e o acusam de falar demais. Não lhes falta razão; mas não é isso que não podem perdoar nele: na verdade, não gostam do que às vezes diz. Este garoto respondão e esquentado tem o costume de lançar golpes para cima. Em 86 e 94, no México e nos Estados Unidos, denunciou a ditadura onipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, Maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: Por que o futebol não é regido pelas leis universais do direito do trabalho? Se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol?”.

Por ousar, por não ter medo de se expor, por questionar os direitos – seus e dos outros – Maradona é muito mais que Pelé, um negro com vergonha de ser negro. Um dedicado a ganhar dinheiro e puxar o saco de quem tem dinheiro. Um astro, em todos os sentidos do termo, inclusive – e principalmente – nos negativos.

————–

Como já disse por aqui, tendo a querer a vitória de seleções de países cujos governos sejam de esquerda. Em seguida, de lugares mais pobres, em que a população tem poucas alegrias dessas que o consumismo define como felicidade. (Brasil descontado, claro)

Esse ano Uruguai estaria entre os meus preferidos. A revelação de que o único bem de Pepe Mujica é um fusca dos anos 80 traz mais poesia a essa figura extraordinária, que tem em sua história a luta pelo país, pelo povo.

Mas Argentina tem Maradona.

Fora que é um país maravilhoso, convenhamos.

Por que Maradona goleia Pelé

16 comentários sobre “Por que Maradona goleia Pelé

  1. Lamento muito que se incorra à exaustão no que acredito ser um erro de mentalidade: comparar Maradona e Pelé envolvendo qualquer aspecto das suas personalidades. É um assunto prolífico e não me alargarei. Apenas acho o seguinte: ambos são homens e jogadores de futebol antes de mais nada, e é como segundo e primeiro melhor jogadores da história (na ordem em que citei) que são ouvidos. Penso que é preciso considerar o universo do futebol antes de atribuir qualquer valor “externo” aos dois. Isso porque é o contexto básico dos dois — e digo e repito sempre que o contexto define as coisas, todas elas, em quase 100%. Quem não conhece futebol, em geral, não consegue entender certos nuances dessa discussão. Maradona e Pelé são pessoas, têm suas personalidades, mas respondem a estímulos como todos os seres humanos. E essas respostas são condizentes com a base humana e social de cada um deles, como qualquer outra pessoa. Gosto muito do Galeano, mas acho, por exemplo, extremamente tolo achar que o Maradona fala o que fala porque é “de esquerda”. Centenas de jogadores esbravejaram contra a ditadura da TV no futebol ao longo das três últimas décadas, mas nenhum foi levado em consideração à parte Maradona pelo simples fato de que, bem, foi o Maradona quem falou. Resumindo: o que quero dizer é que se maximiza demais a opinião dos dois e se usa aspectos dessa discussão em contextos que a meu ver são despropositados. É, em síntese, um simulacro. Amo futebol, acho o jogador Pelé inigualável, o Maradona um passo atrás, mas ambos no topo da pirâmidade da genialidade. Mas realmente acho que certas coisas sobre os dois (inclusive a própria “rivalidade”) simplesmente sem qualquer motivação real. A pessoa Pelé é deplorável em muitos aspectos, assim como a pessoa Maradona. Discordo amplamente de ti, querida Cris, basicamente na maneira como tu escolheu observar esse assunto. Mas continuo sempre na leitura. Bacio.

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  2. Ah sim, ia esquecendo de citar uma coisa importante. A visão de esquerda (e na necessidade de alguma definição me digo sempre de esquerda) é uma coisa muito complicada e até relativa. Por isso não concordo com a maneira como é usada mundo afora, inclusive por ti, Cris. O que não quer dizer que não concorde contigo quanto a determinados assuntos, apenas com o parâmetro, se entende o que quero dizer. Por exemplo, não vejo sentido algum ligar Maradona à “esquerda-positiva”. Ele tem o Che tatuado, o que não quer dizer mais nada além de que ele tem uma idéia, ou seja, o que o Maradona imagina do fato de tatuar o Che pode ser dicordante com outra pessoa que tem o Che tatuado. Digo isso (e já aproveito para indicar a todos) porque, por exemplo, na leitura de Gomorra, do jornalista italiano Roberto Saviano, descobri todo o poder extremamente negativo dos clãs do crime organizado napolitano com os quais o Maradona manteve ligações durante muito tempo. Não se tem notícias de que se tenha arrependido. É famosa uma foto do Maradona na banheira de um dos chefões do crime. O que quero dizer é que não é preciso a gente ficar buscando sempre uma aplicação prática das coisas que imaginamos positivas. São imensas as chances de errarmos feio ou reproduzirmos sinceramente um equívoco.

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  3. Juliano, refletindo sobre tuas colocações…

    Entendo o que dizes e até concordo em parte. Concordo, por exemplo, que não se possa generalizar a visão do Maradona como uma figura de “esquerda-positiva”, como chamas. Como eu disse, ele cometeu muitos erros, os quais não justifico.

    Mas acho, ao contrário de ti, que a posição que Pelé e Maradona alcançaram é justamente o que faz com que as suas atitudes, suas falas tenham mais relevância que as e qualquer outro jogador. A comparação e a rivalidade entre os dois, penso, pode ser saudável, até porque inevitável. Pode ser levada na brincadeira, como uma rixa futebolística (e não questiono qual dos dois é superior nesse quesito – Maradona leva vantagem por ser mais jovem e ter mais imagens de suas atuações).

    Utilizo a imagem dos dois de forma simbólica, mais por uma questão de representatividade. Concordo que a figura do Che tem significado diferente para pessoas diferentes, mas de qualquer forma é uma figura marcante. E o fato de tê-lo tatuado traz uma carga significativa à figura de Maradona.

    Mas só reiterando. Não atribuí à figura de Maradona uma posição “de esquerda”, antes uma posição questionadora, insatisfeita com a exploração. Mas concordo, cheia de problemas. Ainda assim, esse inconformismo ao menos faz pensar, mesmo que não se concorde com ele.

    Grande abraço, Juliano

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  4. É isso aí, tô torcendo pela Argentina também. Por questões ideológicas – admiração pelo poder de mobilização dos portenhos, que fazem panelaço se o trem atrasa cinco minutos… chega a ser inveja, mesmo – e futebolísticas – o Maradona tem colhões pra fazer o que o palhaço do Dunga não faz, por não saber: escalar o time sem superpovoar o meio com cabeças de área/bagre.
    Não sabia do Fusca do Mujica. Muito bom, só falta ser bicolor (branco e colorado?).
    Abraço.

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  5. Natália Pianegonda disse:

    Independente de todas divagações feitas nos comentários anteriores (não quero avaliar se concordo ou não, achei o post muito provocador e ousado. Gostei muito! E me faz ver a Argentina até de um jeito diferente.

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  6. Orfeu disse:

    Ola, apenas farei uma simples comparação e vcs tirem suas próprias conclusões.

    Aos 17 anos:
    Pelé – Campeão Mundial na Suécia/1958
    Maradona – Cortado para Copa da Argentina/1978
    Aos 21/23 anos:
    Pelé – Bi-campeão mundial de clubes 1962/1963
    Maradona – Joga a Copa de 1982 sem nenhum brilho
    Aos 26 anos:
    Pelé – Coroado Rei do Futebol e “caçado” na Copa 1966
    Maradona – Campeão e melhor jogador da Copa 1986
    Aos 30 anos:
    Pelé – Tri-campeão mundial e 1000 gols na carreira
    Maradona – Banido do futebol italiano por uso de drogas
    Aos 34 anos:
    Pelé – Contratado pelo Cosmos (EUA) por US$ 6 milhões
    Maradona – Banido da Copa 1994 por uso de drogas
    Em 21 anos de carreira:
    Pelé – 1281 gols em 1363 jogos (média 0,93)
    Maradona – 352 gols em 692 jogos (média0,51)
    Pela Seleção:
    Pelé – 97 gols em 92 jogos (média 1,05)
    Maradona – 33 gols em 90 jogos (média 0,36)

    12_Títulos de Pelé:
    03 Copas do Mundo (1958,1962,1970)
    02 Mundiais Interclubes (1962/1963)
    02 Libertadores (1962/1963)
    05 Taças Brasil
    01 Campeão EUA (Cosmos, 1977)
    04 Torneios RJ-SP
    10 Campeonatos Paulistas
    12

    ___Títulos de Maradona:
    01 Copa do Mundo (1986)
    01 Campeão Argentino (Boca Juniors, 1981)
    01 Copa del Rey (Barcelona, 1983)
    01 Copa da UEFA (Napoli, 1989)
    02 Campeão Italiano (Napoli, 1987/1990)
    02 Copas da Itália (Napoli, 1987/1991)

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  7. Orfeu, outros leitores que já passaram por aqui (alguns comentários deletei por conterem ofensas pessoais), apenas copio uma frase do texto que escrevi, para que a releiam, por gentileza: “Não entro no mérito técnico, não quero discutir a qualidade como jogador.”

    Por favor, sem comparações técnicas, números de títulos etc. etc. Acredito mesmo que Pelé tenha mais qualidade no futebol do que Maradona. Comparei os dois enquanto pessoa, só.

    Obrigada.

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    1. Orfeu disse:

      olá Cris,
      o Lucas disse exatamente a minha posição sobre o assunto, mas gostaria de justificar minha comparação. Não foi uma simples falta de atenção ao texto, eu acredito que os feitos realizados por um homem exprimem exatamente sua personalidade e sinceramente acho no mínimo ingênua essa sua comparação… e como comparar George Bush e Barack Obama, “enquanto pessoa”.

      PS: Sim Pepe Mujica é uma personalidade extraordinária, ainda bem que você também não o comparou com Maradona, e sim Argentina é um lindo país assim como inúmeros outros no mundo, inclusive o Brasil.

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  8. Fernanda Azevedo disse:

    Mas, no mundo todo, as pessoas comparam Pelé e Maradona por meio do mérito técnico da questão. O questionamento não é sobre quem é o rei do futebol, grosso e simples? Pois então, Pelé continua sendo o rei.

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  9. Não, o questionamento não é sobre quem é o rei do futebol. O meu questionamento é em torno das personalidades. Só.

    O mundo todo compara Pelé e Maradona pelo mérito técnico. Eu comparei pela personalidade. Ou preciso fazer igual ao resto do mundo?

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  10. Lucas disse:

    Olá Cris, espero que saiba ouvir criticas e saiba aceita-las e que consiga aprender e crescer com elas ao invés de apaga-las.
    Primeiro é bem estranho comparar Pelé e Maradona em época de copa do mundo por suas personalidades. É como comparar Lula e FHC em época de eleição por conta das habilidades futebolisticas de ambos.
    A qualidade como jogador, não tem nem como comparar, Pelé foi muito melhor. É meio dificil comparar jogadores que atuaram em épocas diferentes, o jeito é apelar para as estatisticas e os números que o Orfeu postou já dizem tudo.
    Mas você citou a personalidade e devo discordar de você. Você admira Maradona por ele dizer o que pensa, recentemente Pelé disse que a Africa do Sul não teria condições de sediar a Copa do Mundo, Maradona se aproveitou para criticar o brasileiro: “Quando aconteceu o problema com Togo, um senhor moreno disse por aí que não haveria Copa do Mundo na África do Sul. Hoje estou aqui e posso dizer que amo a África”.
    Então, quem é que diz o que pensa e quem é que está fazendo media?
    Sem falar no exemplo que Maradona deu aos seus fãs, ao se viciar. É claro ele é uma pessoa de carne e osso, e pessoas cometem erros. Mas Pelé também é de carne e osso (embora não pareça devido a tamanha genialidade) e nem por isso cometeu um erro tão grande como este de Maradona.
    Me lembro também quando Maradona zombou do Branco na TV, por conta de uma atitude desonesta por parte dos argentinos na copa de 1990, quando deram água batizada ao Branco.
    Enfim seja qual for o quesito Pelé é que goleia Maradona. 😉

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    1. Lucas, críticas ofensivas, contendo palavrões não fazem ninguém aprender. Faz parte da política do blog apagá-las, como, em geral, qualquer veículo procede.

      Acho perfeitamente natural fazer uma abordagem diferente da que é feita em todos os lugares. Isso pode ser feito com qualquer pessoa pública, desde que tenha algum sentido. E penso que comparar personalidades faz sentido em qualquer área, nem que seja só por curiosidade.

      Com relação ao resto do teu comentário, te agradeço por questionar o que eu propus que fosse discutido, e não entrar apenas em questões técnicas, como a maioria vem fazendo e que, em nenhum momento, eu abordei. Não questiono a superioridade futebolística de Pelé sobre Maradona. Comentei apenas que o argentino leva vantagem na comparação porque tem mais material gravado sobre ele, por ser mais recente.

      De resto, não concordo com alguns dos teus pontos de vista, e algumas informações que trouxeste eu não conhecia e passo a considerar.

      E bom, não concordo especialmente com tua última frase. Mas isso acho que já está claro. De qualquer forma, são opiniões, e respeito a tua, claro.

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  11. Wanessa Maria disse:

    Desculpe, Cris, mas uma perguntinha: Já conviveu com os dois? Acredito q não; e se sim, desculpe mesmo a pergunta, porque, sim, você tem todo o direito de comparar um com o outro. Pois, quem somos nós para “julgarmos” Maradona e Pelé? Só por aparecerem em TV já nos achamos no direito de falar (quem é melhor e pior) de personalidade de um e de outro? Se quando convivemos com as pessoas, ainda sim, nos equivocamos quanto a elas, quanto mais “astros de TV”. TV não condiz com realidade de personalidade de ninguém. É como aquela pessoa que sabemos e conhecemos a sua conduta, mas as pessoas que não convivem com ela acreditam que é uma pessoa de “personalidade forte e de bom carater”. Defendo sua posição, Cris, mas não concordo comparar “personalidade”, somos cheios de defeitos e já erramos muito. Se Maradona foi um “drogado” e se Pelé fala “besteira”, isso é problema deles. Porque comparar o que FAZ besteira e o que FALA besteira… complicado. (Essa é a minha posição quanto ao que li, e minha resposta equivale ao que eu entendi.)

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  12. Vivien Almeida disse:

    Nós jornalitas, quando escrevemos, damos liberdade para nossos leitores escolher sua posição, por isso escrevemos e detalhamos fatos. Não temos o direito de “interferi” na opnião deles, e sim, fortalece-los. Por isso, o melhor texto não é aquele que opina, mas sim aquele que entrega os “dois lados da moeda”. – Cris, por você ser jornalista sabe bem disso. Se quer escrever como cidadã, cite em seus textos (Ex. Minha posição como cidadã…), mas se quer escrever como profissional, não defenda as suas opniões, MOSTRE os fatos verídicos, daí, os leitores saberá qual fato acreditar. Ai fica a pergunta: No blog vc diz q é jornalista… mas e o texto, é profissional ou cidadão?

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  13. Davi Paladini disse:

    Boa tarde.
    Só podia ser argentino mesmo…
    De onde vc tirou essa informação?
    Acreditamos naquilo que queremos, tá certo, mas dai propagar ao mundo como se fosse verdade!?
    Maradona precisa se ajoelhar pra falar com o Rei.
    Mas não te culpo por ser argentino, e odiar o Brasil e o icone do futebol mundial, pois muitos brasileiros sem conhecer a historia brilhante do Rei, tambem acreditam que maradona tenha sido melhor.
    Não quero nem entrar no merito da etica e do exemplo, pois dai se tornaria caso de policia.

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  14. Elena disse:

    Cris,

    Concordo plenamente com você. É difícil para os brasileiros lentenderem o que você escreveu, já que são bombardeados pela mídia exaustivamente sobre “como Maradona não presta”, “é um ser ridículo”, entre outros “adjetivos” inomináveis. Maradona é uma pessoa pública, que pensa, que contraria e que tem problemas, como você mesma citou, mas se preocupa com seu povo, tem sentimentos e valoriza sua família, ao contrário de Pelé, que apesar de saber que tinha uma filha, reconhecida contra sua vontade pela justiça, a deixou morrer sem estabelecer qualqeur contato. Admiro Maradona, a Argentina e o Brasil, mas não as pessoas que aqui vivem sem se preocupar com seu povo, interessadas apenas em servir interesses escusos, especialmente aqueles que nos manterá, para sempre, subservientes. Graças a este novo Brasil e a jornalistas como você, aprendemos a nos respeitar. Espero, sinceramente, que os “empresários da notícia” estejam com seus dias contados! Viva a Argentina! Um abraço e parabéns!

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