Globo perde excelente oportunidade de exercer a democracia

Bonner teve que dar uma enrolada para justificar por que a Globo não dá espaço equitativo aos candidatos à Presidência da República. Plínio de Arruda Sampaio reclamou por ter três minutos gravados com antecedência enquanto Serra, Dilma e Marina tiveram 12 minutos ao vivo no Jornal Nacional.

A justificativa de Bonner é de que o JN optou por levar para a bancada candidatos com representação no Congresso e mínimo de 3% nas pesquisas eleitorais sem contar a margem de erro. E que abotoem a camisa de cima para baixo quando trocam de roupa à noite, só faltou dizer. Porque o critério da Globo foi escrito especialmente para restringir aos três principais candidatos. Não há outra explicação.

Se o critério burocrático já afasta da discussão política os partidos menores, a linha editorial posiciona a emissora na defesa de um candidato apenas. A postura de William Bonner envergonhou quem assistia ao telejornal. Na conversa com não-petistas, pessoas pouco interessadas diretamente por política, ficou clara a percepção generalizada de que a o apresentador voltou sua verve agressiva a Dilma Rousseff e acarinhou José Serra. Já Marina foi utilizada como armadilha para constranger o PT.

Em todas as entrevistas, foi esse o partido criticado. Inclusive Serra foi questionado pelo mensalão petista, por conta de sua aliança com o PTB. Chocou a não-menção ao DEM, principal coligação de Serra, que indicou seu vice e que esteve envolvido em grande escândalo em Brasília recentemente. O carinho de Bonner ao interromper Serra, mostrando-se constrangido por fazer calar um amigo, uma pessoa a quem mostrou admirar.

Mas constrangido mesmo ficou o telespectador com a agressividade gratuita do jornalista a Dilma. A ponto de sua colega/esposa ter de lhe dar um sutil chega-pra-lá. Nem ela aguentava ver a candidata ser interrompida a cada frase que tentava concluir. Isso sem contar as contradições, de uma hora exigir alianças e questionar a capacidade de Dilma de fazê-las e em seguida criticar as já feitas. Ou então a falta de perguntas efetivas, que tratassem de compromissos, de propostas. Cada frase parecia uma pegadinha, uma armação. E era. E Bonner ainda manipulou dados, tentando comparar o Brasil com países de realidades muito diferentes, fazendo afirmações questionáveis, como a de que a Rússia ou outros países da América Latina “têm crescido mais do que o Brasil”, o que não se confirma em todos os dados recentes.

Com uma grande professora, aprendi ainda no início da faculdade que todo entrevistado deve ser respeitado pelo jornalista. Por dever ético e moral, mas também pelo sucesso da entrevista. Afinal, o objetivo do repórter é obter a informação, não desestabilizar, não fazer campanha. É perguntar, não responder.

O Jornal Nacional perdeu a oportunidade de se redimir de papelões históricos fazendo mais um. Dessa vez não vai ser grave porque não há de influir nos rumos das eleições. Afinal, Dilma se saiu muito bem e não houve, entre os presidenciáveis, um destaque significativo. Quase que por mérito deles, porque a Globo se esforçou para reverter essa situação.

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