Zero Hora esquece o bairrismo quando convém

Vi a capa da Zero Hora de domingo, que estampava bem grande a manchete “Espionagem eleitoral” e cheguei a acreditar que se tratava do caso gaúcho, em que um sargento da Brigada Militar, quando lotado na Casa Militar usava senhas da Secretaria de Segurança para obter informações sobre adversários da governadora Yeda Crusius (PSDB). Afinal, a Zero Hora é orgulhosamente o “jornal dos gaúchos”, foca sempre nos fatos locais e esse episódio era bastante recente. Além disso, no caso em questão, a ligação do sargento com o governo tucano era evidente.

Durou poucos segundos meu pensamento. Ele voou longe quando li as linhas menores, que diziam “Como o vazamento da Receita impacta no Planalto e na campanha de Serra”. Fora o sem-sentido de sugerir um impacto, palavra forte e que mostra não se concretizar, esse já era um assunto anterior, antigo para os padrões jornalísticos, se comparado à atualíssima espionagem gaúcha.

Mas, antes de primar pelo “que é nosso”, que norteia a atuação do jornal, vem a adoção do “dois pesos e duas medidas” na cobertura política. Quando convém, fala-se do Rio Grande do Sul. Quando não convém, há sempre coisas mais importantes acontecendo em Brasília.

O silêncio na mídia gaúcha é ensurdecedor.

————

Façamos então um exercício de imaginação. É fácil. Fecha os olhos, respira fundo e acompanha. Estamos voltando ao ano 2002. Olívio Dutra é o governador do RS, primeiro petista a assumir o posto. O candidato do partido ao governo gaúcho é Tarso Genro. Principais opositores, Antônio Britto (PPS) e Germano Rigotto (PMDB). Descobre-se que um segurança de Olívio espionava adversários e cobrava propinas de donos de bingos. Prendem esse segurança.

O estado vira um caos. Não se fala em outra coisa, é capa de todos os jornais e é declarada a falta de legitimidade do PT para governar o RS e, principalmente, para concorrer nas eleições que se avizinham.

P.S.: Dá pra fazer esse mesmo exercício trocando algumas palavras: 2002 por 2010; Olívio Dutra por Lula; governador do RS por presidente do Brasil; Tarso Genro por Dilma Rousseff; e Antônio Britto e Germano Rigotto por José Serra. Funciona que é uma beleza.

Zero Hora esquece o bairrismo quando convém

5 comentários sobre “Zero Hora esquece o bairrismo quando convém

  1. Boa, Cris!
    Precisamos desmascarar o Grupo RBS! Além disso, nunca é redundante comparar o comportamento entre a blindagem de Yeda/Fogaça com políticos do PT.
    Se é verdade que a imprensa deve fiscalizar os órgãos públicso, tb é verdade denunciar suas práticas espúrias em nome do jornalismo.

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  2. Comprei a ZH dominical (sim, eu sei, cometi um desatino, perdão) e fiz a mesma desagradável constatação. Nem uma palavra sobre o escândalo da Casa Militar, nem uma vírgula sobre o desvio de verbas de marketing do Banrisul – mas uma bonita chamada de capa para o assustador escândalo da Receita Federal, que sem dúvida é sério, mas cujas ligações governamentais são bem mais frouxas do que nos dois casos recentes em nosso combalido Rio Grande.

    A blindagem feita ao governo é assustadora, independente de matizes partidárias. Um jornalismo com medo da verdade, que varre fatos para baixo do tapete, é um jornalismo que não honra o nome que carrega.

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  3. Maurício disse:

    Parabéns pela matéria.
    Há anos o grupo RBS é imparcial e muito tendencioso.
    Está faltando opção aos gaúchos.
    Tanto a midia televisiva,radiofônica e jornalística é domininada pelo um grupo só, que monopolisa as informações.
    E para ludibriar, volta e meia eles jogam um jargão:
    “os gaúchos são os muito conscientes em suas decisões e análises.”
    Ora, primeiro eles fazem as cabeças das pessoas martelando as mesmas informações ou não mostrando o outro lado da história ou até nem informando e minimizando acontecimentos que não interessa ao grupo RBS.
    Gauchada caia na real, será que o que você pensa vem de você ou vem de outros?

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