Fantástico incentiva adultização precoce

Controle social da mídia – não censura – serve não só para dar voz a todos os setores da sociedade e tornar política e socialmente mais representativa a nossa comunicação. Serve para coibir abusos que parecem inocentes mas que podem prejudicar bastante. Qualquer profissional da área da psicologia ou da pedagogia pode falar a respeito com mais propriedade, mas vou meter o bedelho no tema.

Hoje o Fantástico levou ao ar uma matéria conduzida por uma “repórter por um dia” de 11 anos. O tema, maquiagem. Quando eu tinha uns 15 anos, até mais, ainda não sabia me maquiar – agora até arrisco alguma coisa, nada muito prodigioso – e juro, não fui infeliz por causa disso. Agora as meninas de 11 anos entrevistadas pelo Fantástico querem não só dicas de maquiagem, mas também de como não estragar a pele pelo uso da maquiagem. Nenhuma preocupação com saúde, apenas estética mesmo.

Pois bem, o problema mais grave é que as crianças vão sendo adultizadas cada vez mais cedo. Vão pulando etapas importantes da vida, importantes para a formação. E as que se mantêm crianças, o que seria o melhor para elas, acabam estigmatizadas, excluídas, não se encaixam na divisão dos grupos sociais já tão cruel na infância. Uma matéria como a do Fantástico poderia propor um questionamento acerca da infância e de como elementos relacionados a ela são importantes, como brincar e se portar como criança.

Quando entra no jogo e estimula que crianças adotem cada vez mais elementos de adultos em seu cotidiano, a reportagem fica no raso, no superficial, e fortalece um comportamento que pode trazer prejuízos na vida desses pequenos indivíduos, no seu relacionamento social, na sua formação. E, na medida em que as crianças têm sua formação prejudicada, como elementos da sociedade, no futuro os atores principais dela, podem transformar o jogo político e social. As consequências podem ser muito mais graves do que aparentam.

Longe de ser uma brincadeira de criança, maquiagem é coisa de gente grande, como sempre foi. Ficam na gaveta do quarto da mãe e só são entregues à menina na hora de brincar de casinha e fingir que é a mãe da boneca, não para conquistar o coleguinha da classe.

Fantástico incentiva adultização precoce

9 comentários sobre “Fantástico incentiva adultização precoce

  1. Luís Felipe disse:

    minha filha nunca viu o fantástico, tem 3 anos e adora maquiagem – por que vê a mãe dela se maquiar.

    se a matéria ensina o JEITO CERTO, não há problema. Pior é não ensinar nada e ver as crianças colocando perfume no rosto e canetinha por cima dos olhos para servir de sombra.

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    1. Luís, a meu ver, esse não é o centro da questão. O problema é achar bonitinho meninas de 11 anos se maquiando diariamente para conquistar os colegas da escola, ou simplesmente porque acham que devem, porque são “mulheres”. Não é brincar de maquiagem porque vê a mãe se maquiando ou ensinar o jeito certo de se maquiar (até porque o foco principal da matéria não é esse). Seria legal se o Fantástico propusesse uma reflexão sobre como as meninas estão se maquiando cada vez mais cedo, por que isso acontece, o que está acontecendo com as novas gerações e como proceder diante disso. Tudo bem, seria bem diferente da proposta apresentada. Mas acho temerário colocar no ar como se fosse a coisa mais engraçadinha essas meninas se portando como adultas.

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  2. Jux disse:

    Cris!
    100 Parabéns pelo post!
    Também vi a matéria e fiquei revoltada: já não basta a pressão permanente a que as mulheres ADULTAS são submetidas a serem escravas de padrões impossíveis de suposta “beleza”, esse programa pífio – além de incentivar às meninas a essa queima de etapa de vida, partindo para uma vida erotizada precocemente – teve o grave fato de estimular essas meninas nesse processo de “adestramento” nesse ideal inalcançável da “perfeição”. Na “reportagem”, quando inquiridos os meninos a respeito da maquiagem, um deles lança “não curto, acho artificial”. E qual a resposta das meninas? “Ah, se os meninos querem ser ‘molambentos’, problema deles. As meninas TEM que SER PERFEITAS!”.
    Triste demais ver essas meninas tão jovens já com esse tipo de “preocupação”.

    Abraço

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  3. É por conta dessas coisas que vou pensar umas duas mil vezes antes de querer pôr uma criança nesse mundo.

    Pois eu jamais iria querer educar uma filha minha dessa forma. E ao mesmo tempo, ao educá-la “remando contra a maré”, será inevitável que ela acabe excluída da turminha de amigos, e consequentemente não tenha exatamente uma infância feliz.

    Sei que a única maneira de se mudar isso é começando, cada um fazendo a sua parte, tratando criança como criança, e não como adulto em miniatura. Mas é também muito complicado…

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  4. Daniele Brito disse:

    É verdade. Nunca fui muito fã de maquiagens, quando era criança já tinha colegas que se maquiavam e até pintavam as unhas de vermelho. E confesso, não me sentia inferior a ninguém, mas sim, uma criança que não pulou etapas da vida para querer ser algo que não era. Mas acho que tudo isso, se deve aos pais que não controlam esse momento e acham que as filhas são bonecas para a sociedade.

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