Sobre cibercultura, jornalismo, Twitter e um trabalho de conclusão

Encontrei nesse texto do Eduarno Nunes muitas reflexões que faço com frequência, mas mais bem elaboradas e com um referencial teórico que o legitima. Pudera, ele fez seu trabalho de conclusão de curso sobre “o uso jornalístico do Twitter no contexto da inteligência coletiva”. Selecionei alguns trechos pra dividir aqui, mas a íntegra vale a pena e está disponível no blog do rapaz.

O contexto

Cibercultura. Aquela configuração social que se estabelece a partir da popularização do acesso às redes de computadores e que é fortemente marcada pela interconexão. Redes conectadas, computadores conectados, pessoas conectadas.

Tudo é instantâneo, tudo é agora, tudo é aqui.

[…]

As teorias da cibercultura podem ser divididas, a grosso modo, em duas vertentes principais (e rivais), que o bom Chico Rüdiger define como a dos tecnófilos e a dos tecnófobos. O leitor familiarizado com o idioma de Platão já percebeu que os pensadores de uma das correntes celebram as inovações técnicas e seus efeitos, enquanto os adeptos da outra morrem de medo dos monstros tecnológicos que vivem no armário e embaixo da cama.

Utilizo como arcabouço teórico (seja isso o que for) as teorias de um tecnófilo da gema, o francês Pierre Lévy, autor de livros como A Inteligência Coletiva: Por uma Antropologia do Ciberespaço e Cibercultura.

Lévy desenvolve, nestas e em outras obras, a teoria da inteligência coletiva, descrita pela metáfora do hipercórtex, segundo a qual a humanidade, ao se conectar a si mesma e realizar trocas simbólicas em diversos níveis, converte-se num gigantesco organismo inteligente. A inteligência desse mega cérebro ou hipercórtex aumenta na medida em que aumentam os fluxos comunicacionais entre os neurônios do sistema (ah, e nós somos os neurônios).

[…]

Não há maniqueísmo na ciranda de impulsos elétricos do hipercórtex. A inteligência coletiva aumenta na medida em que aumentam as formas de interconexão e o conteúdo partilhado (ou vendido, pois ninguém é de ferro) nos diversos ambientes de interação.

[…]

Neste contexto de inteligência coletiva, em que trocas simbólicas constantes enriquecem a inteligência do coletivo, um sem-número de práticas e funcões sociais ganha novo estatuto – entre elas o jornalismo, cerne da pesquisa que resultou na monografia.

Webjornalismo

[…]

OK, você pergunta, se o jornalismo é sempre jornalismo, desde que respeite esses cânones, o que diferencia o jornalismo tradicional do jornalismo de internet?

As características que fazem do webjornalismo uma variante do jornalismo tradicional são, basicamente, as seguintes:

Hipertexto

O texto impresso é bidimensional. Não consegue romper as barreiras impostas pela superfície em que foi aprisionado. Está preso aos ditames inexoráveis da Física.

O texto eletrônico é multidimensional. Permite o uso de portas para outros mundos, de túneis para outras dimensões. Essas portas são os hiperlinks, hoje abreviados para “links”. Recurso metalinguístico: para saber o que é um link, clique aqui. 😛

Interatividade e “participação”

Interatividade é uma das palavras da moda… mas, o que significa, para o jornalista? Significa que o público, que antes era uma entidade disforme, distante, quase imaginária, agora está logo ali.

No webjornalismo, a relação entre produtores e consumidores de notícias é muito próxima (e às vezes a diferenciação entre uns e outros inexiste).

Isso coloca em xeque a própria existência da profissão de jornalista. Ora, pensa o cidadão, se agora qualquer mané, incluindo eu mesmo, pode ter o seu próprio blogue e postar notícias, porque eu deveria ler os conteúdos produzidos por jornalistas e por empresas de jornalismo?

Em nosso socorro, vem a pesquisadora Christa Berger. Ao analisar a teoria dos campos sociais do sociólogo francês Pierre Bourdieu e aplicá-la no âmbito do jornalismo impresso, ela oferece uma possível resposta, válida também para o webjornalismo:

A nossa hipótese é que o Campo do Jornalismo detém, privilegiadamente, o Capital Simbólico, pois é da natureza do Jornalismo fazer crer. O Capital do Campo do Jornalismo é, justamente, a credibilidade. (BERGER, Christa. Campos em confronto: a terra e o texto. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998 – p.21)

Os portões da informação estão aí, com um cadeado de fácil abertura. Antes, o jornalista era o “gatekeeper”, o porteiro, o único com a chave para abrir os portões e deixar passar as torrentes de informação.

Com a internet, o cadeado pode ser aberto por mais pessoas. Mas o jornalista passa a ser o “gatewatcher”, o vigia do portão, aquele que, investido da credibilidade que é o capital do seu campo social, tem legitimidade para nos mostrar quais são, dentre as torrentes de informação características do nosso tempo, os conteúdos mais relevantes e que atendem aos critérios de veracidade e exatidão.

Sobre cibercultura, jornalismo, Twitter e um trabalho de conclusão

5 comentários sobre “Sobre cibercultura, jornalismo, Twitter e um trabalho de conclusão

  1. Cris,

    1998 é muito antigo e o Lévy nunca levou em consideração a questão da desigualdade social.

    Além disso, a esmagadora maioria dos professores e pesquisadores em jornalismo das antigas é muito old school. Não dá mais pra pensar em emissor, receptor e mensagem nem em autoria estanque e direitos autorais. Da mesma forma, ignoram solenemente o papel do interagente e poucos entendem que O MEIO É A MENSAGEM.

    Sim, a coisa é bem macluhaniana, mesmo: qualquer site; qualquer blog; qualquer mensageiro instantâneo (M$ Messenger, Skype, iChat, etc.); qualquer aplicativo tipo Twitter (que não é ‘microblog’ nem instant messenger) como Identi.ca e outros…

    …Todos eles são ambientes transmidiáticos. E o pessoal que trabalha com rádio, TV, jornal e revista mais ortodoxo não percebe que somos todos PRODUSERS (Bruns, 2006).

    O que é PRODUSAGE? É um fenômeno no qual quem cria, transforma e consome faz tudo isso ao mesmo tempo, não necessariamente no mesmo lugar. Ao mesmo tempo, o conteúdo que essa pessoa postou é alterado, acrescentado, superado, discutido e endossado.

    Então, a figura do emissor e do receptor já eram, pois somos tudo isso e muito mais simultaneamente.

    É fácil demais criticar e descrer tanto em tecnófilos puros como em tecnófobos. 🙂

    []’s e :*
    Hélio

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    1. Ivan Perez disse:

      E com o suposto “fim da neutralidade da rede”, tornar-se-á mais desigual. Falar sobre tecnófilos e tecnófobos é dividir a intelectualidade em duas metades desiguais.

      O tecnófobo, além de ter relutado anos antes de adquirir seu primeiro computador, ainda o utiliza a contragosto e, se pudesse, retornaria logo à pena de ganso, ao tinteiro e a sua caligrafia de médico. Ele ou ela não simpatiza com a televisão, desdenha em especial a MTV e prefere assistir a seus filmes, sempre de arte e geralmente europeus ou iranianos, no cinema.

      Nenhum tecnófobo faz “download” de música pela internet, tampouco a ouve num leitor de MP3 e, enquanto os jovens lidam mal com um controle remoto, os mais idosos nem sequer tiraram carteira de motorista.

      O tecnófilo, por sua vez, bate fotos digitais que envia aos amigos anexadas a seus e-mails, já reassistiu às séries completas preferidas e deixa alegremente de lado a discussão sobre seu último artigo para discorrer sobre as vantagens ou desvantagens relativas do PC ou do Macintosh.

      Obviamente estou me referindo a tipos ideais. No mundo real, tudo isso se apresenta mesclado e como tendências ou inclinações de cada qual. Quanto maior, porém, o número de intelectuais examinados, mais fácil é dividir o grosso deles nas duas categorias acima. O interessante é que pertencer a uma ou outra decorre menos de escolhas conscientes que de algo profundo e imutável: o temperamento.

      Sabe-se que há indícios que permitem deduzir certas características. Um dos exemplos mais conhecidos é o seguinte: quanto mais bela uma mulher, maior a probabilidade de que seu marido seja rico e, quanto mais rico um homem, tão mais provável que sua mulher seja bonita. De forma semelhante, deve haver alguma espécie de correlação entre, digamos, o amor ou desamor pelo computador e o texto que seu usuário produz.

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