Veja tenta confundir leitor com manipulação dos fatos, mais uma vez

Defender a descriminalização do aborto não é a mesma coisa que defender o aborto. Confundir uma coisa com a outra é um erro grosseiro, que pode levar a uma generalização.

Quando a Veja coloca na capa, em posições opostas, dois rostos iguais da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff, acompanhadas de frases diferentes, uma a favor da descriminalização e uma contra o aborto, ela quer induzir o leitor a acreditar que está diante de uma pessoa de duas caras, que mente. A revista manipula a informação. É ela quem está mentindo para o leitor.

Não há contradição em se dizer a favor da descriminalização e contra o aborto, como fez a Dilma em situações diferentes. A montagem da Veja é sacana ao induzir essa contradição. É uma sacanagem a mais, considerando que a Veja está incentivando que a discussão eleitoral se concentre em temas polêmicos que não fogem do verdadeiro debate de projeto político para o Brasil.

Veja muda de opinião de acordo com a conveniência

Vivemos em um país de cerca de 200 milhões de habitantes. Utilizando o dado fornecido pela própria Veja em 28 de janeiro de 2009, especialistas acreditam que 1 milhão de mulheres fazem aborto todos os anos. É a quarta causa de morte materna, por conta de poucas condições de higiene ou segurança

Engraçado que nessa edição a revista se posicionou favoravelmente à descriminalização. Ataca o falso moralismo brasileiro quando não há interesses políticos. Quando há interesses, se aproveita dele. Tenta induzir o leitor a ver o aborto como um crime, um atentado à vida, para culpar Dilma.

Marina e o aborto

Mas voltando ao tema. As mulheres que fazem aborto não são a maioria da população, mas são uma parcela considerável, que merece atenção e cuidado. Muitas mulheres que fazem esse procedimento correm risco de vida ou sofrem traumas físicos ou psicológicos. A postura da candidata Marina Silva, por exemplo, ao ser questionada sobre o tema, de defender a realização de um plebiscito para decidir, é uma postura fácil. Fácil e demagógica. Declarar-se a favor da decisão por plebiscito quando colocada frente a temas polêmicos é sempre uma postura fácil.

Ela dá uma falsa aparência de democracia, mas esquece que um presidente tem que zelar por toda a sua população. Diante de um moralismo falso que toma conta do nosso país – é mais fácil apontar o dedo na cara do outro, como se só ele errasse -, um plebiscito provavelmente decidiria contra a descriminalização do aborto. Prejudicadas seriam as mulheres que sofrem com essa proibição.

Comparando mal e porcamente, é como se a pessoa que tem comida farta achasse que o outro não tem direito a comer porque ele não ganha o suficiente. O papel do Estado é zelar por esse que não tem comida, mesmo se ele for minoria.

Deixar a situação para ser decidida em um plebiscito é se eximir da responsabilidade. Aborto é uma questão de saúde pública, é uma questão que precisa ser tratada como uma política de Estado. Jogar a decisão para um plebiscito é deixar um milhão de mulheres por ano à mercê da decisão de uma maioria falso moralista.

Voltando à Veja

Então o que faz a revista Veja é manipular a informação, distorcer os fatos e induzir o leitor a acreditar em um juízo de valor feito pela revista que de fato não reflete a realidade. O de que Dilma tem duas caras, que mente, que não é confiável. Isso é uma mentira, uma falácia. E mais, de que Dilma é contra a vida por defender a descriminalização do aborto. É uma manipulação grotesca.

E sempre é bom insistir que a opinião da Veja varia de acordo com os interesses.

Veja tenta confundir leitor com manipulação dos fatos, mais uma vez

7 comentários sobre “Veja tenta confundir leitor com manipulação dos fatos, mais uma vez

  1. Adriana disse:

    Entendo perfeitamente que exista uma manipulação da revista contra a Dilma.
    Porém sobre a questão do aborto há realmente uma contradição. Independente da posição pessoal dela, é necessário que fique claro ao eleitor se haverá ou não propostas nesse sentido em seu governo.

    Acho estranho que nessa eleição as coisas são nebulosas e mutáveis, de ambos os lados.

    Curtir

    1. Adriana,

      Não vejo uma contradição entre as duas frases publicadas na capa da revista. Vejo, sim, contradição na postura mais recente da Dilma, mas não acho que ela tenha que explicitar em seu programa de governo uma posição com relação a um tema a ser decidido pelo Congresso. Além do mais, o Serra expõe no dele?

      Mas o principal é que o foco da discussão não é esse. É preciso discutir projeto de desenvolvimento para o Brasil.

      Curtir

  2. Jacy Júnior disse:

    Manipulação… Esse foi um dos principais motivos que deixei de ser assinante da revista semanal. Lia muitas cartas ao leitor, da revista Veja, dizendo que era apartidária e, agora vem com este tema da Dilma? Para mim, o maior erro da Dilma foi dar depoimentos contraditórios ao tema, mas não vem ao caso. Não quero falar sobre aborto, pois é um tema de caráter pessoal e deve ser debatida pós-eleição. Ainda não consegui ver os reais planejamentos dos candidatos… E acho que nem verei.
    Fazendo uma analogia ao texto do Eduardo Nunes, sobre Interatividade e “participação”, com a internet, a informação ficou acessível a qualquer cidadão, que tenha acesso, mas infelizmente não existe um “filtro” de informação, que induz as pessoas, menos informadas, a acreditar em informações deturpadas e, muitas vezes, manipuladas.

    Curtir

    1. Adriana disse:

      O problema é exatamente esse.
      A pessoa acha que por estar na internet a informação é independente. E a realidade é o oposto. Na internet que as coisas se polarizam com mais clareza.

      Curtir

      1. Jacy Júnior disse:

        Gostava muito te ler a revista Veja, sabia de assuntos que só eram veiculados na TV, duas semanas após. Debatia sobre os mais variados assuntos, mas quando comecei a perceber a “manipulação da informação”, pulei fora. Hoje me divirto com as informações que vejo na rede. Um site mesmo que contém muitos erros é o Wikipédia, mas, mesmo assim as pessoas continuam no TCC – Trabalho Copia e Cola. rs 😛
        Divirta-se!

        Beijos, Cris e Adriana!

        Curtir

  3. Cris! Sempre com colocações pertinentes. Quanto à qualidade jornalística do conteúdo de Veja, confesso que não tenho mais ânimo para discussão… É caso perdido.
    Mas vamos falar sobre o tema em questão. Sou contra o aborto. Em quaisquer que sejam as circunstâncias, por questões filosóficas, espirituais ou religiosas (como preferir), não acho que cabe à mãe decidir sobre a interrupção da vida de outra pessoa. Entretanto, concordo com você quanto à necessidade da descriminalização do aborto como ação de saúde pública. A mídia, a chamada opinião pública, vinha caminhando para este consenso. Além da matéria vinculada na própria Veja, na capa “Aborto”, em setembro deste ano, uma reportagem investigativa exibida no Fantástico, mais uma vez mostrou o submundo das clínicas que se prestam a interromper a gestação das brasileiras. Pesquisa acadêmica, também deste ano, mostrou que de cada 5 brasileiras, 1 já fez aborto. Ou seja, o aborto já é cometido, mesmo sendo proibido por lei. Mas o mais grave é que a maioria dos procedimentos coloca em risco a saúde e a vida das mulheres, justamente por serem realizados às escondidas, por profissionais que se prestam a atender cidadãs que não têm como exigir condições mínimas de segurança. Trazer a mulher que deseja realizar um aborto para a rede de saúde “oficial” poderia, inclusive, fazê-la desistir de interromper a gravidez. Ela poderia receber apoio psicológico, médico, social e, por que não, até financeiro, se aceitasse levar a gestação até o fim. À ela, poderia ser dada a possibilidade de entregar o filho para adoção após o parto. Em último caso, encaminhar a criança para um abrigo. Enfim, trazer esses milhões de mulheres para a superfície da sociedade, saber delas seus medos, desejos e frustrações. Incluí-las nas estatísticas oficiais, cuidando da saúde delas e de seus filhos, que teriam chances reais de nascer. Todas essas ações não custariam mais do que é gasto hoje no tratamento das mulheres que precisam recorrer ao SUS após procedimentos de aborto mal sucedidos. Quase 200 mil curetagens ao ano, este é apenas um dos saldos perversos e dispendiosos da atual proibição do aborto. Tudo pago por nós, cidadãos. Aqueles que são contra ou à favor do aborto.
    Sei que a Dilma e muitos dirigentes de seu partido pensam assim. Mas o que me decepciona e me revolta é a falta de dignidade de toda a campanha do PT em assumir e peitar esta opinião. Percebe-se um medo em perder votos em tudo que se faça e diga. Quando a oposição aproveita-se disso para acusar Dilma de duas-caras, infelizmente tenho que concordar com eles. Não se pode querer agradar a todos. Ela precisa convencer a maioria dos eleitores de que suas idéias são as melhores, e não mudá-las a cada pesquisa eleitoral. Outro exemplo: o PT sempre esteve em sintonia com movimentos e políticas afirmativas dos homossexuais. Quantos não foram os parlamentares petistas que propuseram direitos iguais para casais homoafetivos? Para agora a presidenciável assinar um compromisso com igrejas evangélicas em não enviar ao Congresso nenhuma proposta de alteração de leis que tenham implicações religiosas. E como fica o projeto de lei que regulamenta a união civil entre pessoas do mesmo sexo, parado à anos? Para os evangélicos, este é um tema religioso. Aí você pode me responder: mas ela apenas se comprometeu a não enviar tais leis para o Congresso, ela não prometeu não aprová-las, caso sejam enviadas para sanção presidencial. Tente explicar isso para o eleitor médio, que nem sabe qual o papel de cada um dos Três Poderes. Essa tomada de atitude dela e de sua campanha pode, sim, ser considerada como uma mudança de ideologia. Este compromisso firmado com as igrejas passa a ser um importante item de seu programa de governo e revela que tipo de dogmas e preconceitos poderão guiar suas políticas públicas. Se precisarmos nos restringir às entrelinhas do acordo, ou seja, se considerarmos que ele só se aplica à leis que poderiam ser enviadas pelo executivo, então mais uma vez teríamos que admitir que há a intenção de enganar alguém. Neste caso, os próprios evangélicos, que acreditam estarem apoiando uma candidata que comunga com eles dos mesmo paradigmas, quando na verdade, Dilma buscaria apenas apoio que lhe garanta a eleição…

    Mais uma vez eu digo: saudade de vocês todos!! É sempre bom poder manter uma conversa de bom nível! Abraçooo!!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s