O político Mario Vargas Llosa

Como Caetano Veloso, muitos músicos, atores, escritores, podiam se ater a sua arte. Quando fogem de sua jurisdição, às vezes falam besteira. Pelo menos alguns deles têm a consciência de que podem falar, mas que se meter com política é tarefa difícil, para poucos.

Mario Vargas Llosa diz que aprendeu muito quando concorreu à Presidência do Peru, em 1990, mas reconhece que sua visão de política é limitada: “careço de virtudes, olho a política pelo viés da literatura”. Não deixa de ser uma definição bonita a do homem que julga que a atividade política traz à tona o que o homem tem de melhor, mas também o que tem de pior.

É bom, porque seus julgamentos são pautados pelo viés neoliberal. Foi para um encontro de jovens pensadores do neoliberalismo que veio a Porto Alegre pela primeira vez. A segunda foi para uma mesa-redonda sobre política e literatura. Não adianta, a mistura entre os dois assuntos é inevitável na conversa com o Prêmio Nobel de Literatura e ex-candidato a presidente.

Infelizmente, a coletiva de imprensa que antecedeu a palestra no Fronteiras do Pensamento, que acontece hoje à noite (14), na capital gaúcha, não aprofundou temas culturais. As primeiras perguntas não saíram do raso em que muitos jornais geralmente se pautam, mas quando houve uma tentativa de aprofundamento, Vargas Llosa logo cortou: “isso faz parte da conferência de hoje à noite”.

América Latina e seus governos

Assim, contentemo-nos com a discussão sobre temas gerais e sobre política. Dos mineiros chilenos aos governos latino-americanos. Sobre esses, vê um progresso considerável na comparação com 30 anos atrás. Progresso, para Vargas Llosa, é haver democracia. Para ele, pouco importa se de direita ou de esquerda, se a vida do povo melhora ou não, o importante é que seja democrático. Não discordo do valor da democracia, mas não é o único ponto a se considerar. E, bem, para o escritor, a Venezuela é uma semi-ditadura.

Uruguai, Brasil e Chile (na época de Bachelet) são exemplos de democracias de esquerda citados. O Chile atual, Peru e Colômbia, democracias de direita. Todos “fenômenos novos e muito positivos”. Já a Argentina… “Hoje não se recorda que já foi um país desenvolvido, é triste pensar que esse país está nas mãos do casal Kirchner”.

Opinião questionável, ainda mais quando pautada por uma visão conservadora de imprensa. Uma visão mercadológica, que não vê o interesse social. Assim é a sociedade ideal de Mario Vargas Llosa, que louva a democracia política e a economia de mercado. Para os brasileiros defensores do mesmo neoliberalismo de Vargas Llosa e que hoje pautam a discussão sobre um falso moralismo, a posição se torna incômoda quando esplicitada pelo mesmo escritor que defende a legalização das drogas.

Literatura estimula a reflexão

O mais interessante, como é de se supor, fica na visão sobre a literatura. Uma pena que o assunto tenha sido abordado de forma tão ligeira. Ele diz que suas ideias sobre literatura foram mudando com o tema. No início, foi muito inspirado por Sartre, mas avisa: “ele é muito inteligente, mas muito sério, não via a possibilidade de humor”, que Vargas Llosa descobriu em Pantaleão e as Visitadoras. O Prêmio Nobel de Literatura via essa arte como um instrumento de transformação da sociedade, uma “arma política”.

Com o tempo, viu que a realidade não confirmou essas ideias. “A literatura não produz mudanças históricas imediatas e não pode ser usada como um instrumento de ação política. Creio que atua de uma maneira lenta, indireta, através das consciências e da sensibilidade que ajuda a formar. E de uma maneira também imprevisível, que não se pode planificar, programar.” É por conta disso, porque a literatura “estimula uma mentalidade diferenciada” que todas as ditaduras exerceram controle sobre ela.

O político Mario Vargas Llosa

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