Tarso Genro: “o tucanato rebaixou a agenda da disputa política”

Flavia Bemfica, do Terra

Eleito em 3 de outubro governador do Rio Grande do Sul com 54,35% dos votos válidos, o petista Tarso Genro conquistou uma vitória histórica: foi a primeira vez desde a Constituição de 1988 que um governador elegeu-se em primeiro turno no Estado. A vitória não foi obra do acaso. Após ter governado o Rio Grande do Sul de 1999 a 2003 e de ter se debatido com disputas internas que o enfraqueceram, o PT gaúcho conseguiu afinal colocar seus interesses acima daqueles de suas “estrelas” para construir com uma candidatura competitiva.

Tarso, que no passado havia protagonizado algumas das disputas dentro do PT gaúcho, encontrou várias “pedras” no caminho da eleição de 3 de outubro. Afastou-as uma a uma, e cada qual a seu tempo. O PT começou a pavimentar a candidatura ao governo em 2008, mas o então ministro não era o único pré-candidato. De quebra, existiam os interesses do diretório nacional, que, como forma de garantir a coligação nacional, chegou a cogitar – e a começar a negociar – uma aliança estadual semelhante à que foi derrotada em Minas Gerais, na qual o PT se uniria ao PMDB e não ficaria com a cabeça de chapa.

Os petistas gaúchos – e Tarso em especial – reagiram e as negociações naufragaram. Em seguida, tiveram início os debates dentro da sigla para definir o processo de escolha do candidato. Três postulantes se apresentaram, mas, contrariando uma prática histórica, o partido chegou a um nome de consenso ao invés de realizar prévias.

Na metade de 2009, com uma antecedência que acelerou o processo eleitoral e contou muitos pontos durante a campanha, o PT foi o primeiro partido a apresentar oficialmente seu pré-candidato ao governo: Tarso. Candidatura definida, o PT gaúcho, sempre acusado de não ceder espaço a aliados, tentou convencer antigos e possíveis novos parceiros de que havia mudado.

O sucesso da estratégia, às vezes, veio por vias indiretas. O PDT, um dos cortejados, acabou optando por aliar-se no papel com o PMDB. Mas durante todo o ano de 2008 o então presidente estadual petista, Olívio Dutra, e o pedetista, Romildo Bolzan Júnior, percorreram o Estado anunciando uma aliança, o que pesou para que, na prática, os trabalhistas continuassem divididos. E Tarso divulgou à exaustão que, se eleito, convidaria o PDT para integrar o governo. O que, diga-se de passagem, já fez.

O PT também tentou atrair o PTB, sem sucesso, e insistiu junto aos antigos companheiros do PSB e do PCdoB, que pareciam dispostos a lançar uma candidatura própria. De novo, o partido parecia fadado a um isolamento que já era comemorado pelos adversários. Mas, em mais um exercício de paciência e muita conversa, a negociação com o PSB e o PCdoB deu resultado.

Mesmo depois de firmada a aliança, eram poucos os que acreditavam que o PT conseguiria ultrapassar no primeiro turno seu índice histórico de votação – na faixa dos 35%. Tarso percorreu o Estado inteiro e estava entre “os poucos”. Eleito, ele não deu tempo para que dissessem que seu governo de coalizão ficaria na promessa. De imediato começou a construir uma base de sustentação forte. Já procurou o PDT e o PTB. Ao mesmo tempo, assumiu a coordenação da campanha de Dilma Rousseff (PT) no Estado e está na linha de frente dos que respondem ao bombardeio adversário.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista que o governador eleito concedeu ao Terra:

Terra: Havia uma expectativa de vitória no primeiro turno na eleição presidencial e uma dúvida sobre se haveria ou não segundo turno no Rio Grande do Sul. E aconteceu o contrário. O senhor venceu no primeiro turno e a candidata Dilma Rousseff vai disputar o segundo da eleição presidencial. O que houve?

Tarso: Tudo começou com a unidade interna do nosso partido. O adiantamento da escolha do candidato feito através de um debate político forte dentro do partido que levou não a um dissenso, mas à unidade. Depois, a implementação das 15 caravanas pelo interior, onde discutimos nosso programa, que é este que está aí, que foi apresentado, com todas as forças sociais e econômicas do Estado. Em terceiro lugar, nossa paciência e nosso desejo sempre público de respeitar o tempo do PCdoB e do PSB para compor a frente e depois o sucesso de formação da frente. Essa vitória no primeiro turno não seria possível sem a presença do PCdoB e do PSB. E também, obviamente, embora secundariamente, mas também importante, o apoio do PR e do PPL, que nos aumentaram o tempo de televisão. E, finalmente, o fato de que não nos deixamos envolver em querelas menores aqui no Estado. Sempre apresentamos uma visão programática, que podia ser apresentada com coerência tanto junto ao MST como junto aos sindicatos, como junto à academia, como junto ao empresariado. Nunca falseamos nosso programa para agradar plateia. Inclusive em relação a questões polêmicas aqui no Estado, como privatizações, pedágios e respeito aos movimentos sociais. Isso nos deu credibilidade e nossa mensagem foi compreendida profundamente pela sociedade gaúcha.

Terra: E na eleição nacional, o que aconteceu?

Tarso: Acho que houve um equívoco de avaliação, que não levou em consideração que o próprio Lula, que é o Lula, não ganhou no primeiro turno. Havia um otimismo exagerado em relação à credibilidade do governo Lula, que hoje bate recordes de mais de 80% (de aprovação), e que isso daria sustentabilidade imediata para uma vitória no primeiro turno. É um equívoco. Foi um equívoco. Foi isso que, eu diria, criou uma atmosfera de vitória no primeiro turno. Acho que não é um erro de direção da campanha como dizem alguns, mas é uma sensação que afetou todo o nosso campo. E refletiu de uma maneira negativa nos últimos 15 dias de campanha, quando devíamos ter reagido duramente aos ataques do Serra e colocado temas fundamentais como estão sendo colocados agora, como a questão de quem é o Serra como gestor. Que, na verdade, ele é um gestor muito mais modesto e muito inferior à Dilma, e qual a sua posição real sobre a questão do modelo neoliberal aqui no Brasil, que se refletiu na sua conduta perante as privatizações.

Terra: Então, agora, a resposta está correta?

Tarso: Na minha opinião, está. O que me impressiona é uma espécie de cinismo da candidatura Serra quando se diz atacada pela candidatura Dilma. Quando, na verdade, o que a Dilma está fazendo é simplesmente responder com elegância aos ataques brutais que foram feitos e, inclusive, às versões distorcidas que o PSDB deu sobre as questões relacionadas com a corrupção. Vou dar um exemplo concreto: nunca o Estado brasileiro combateu tão duramente a corrupção como nos últimos anos aqui no Brasil. Isso é um estudo da Universidade de São Paulo. Não é uma bazófia do governo federal. Com a utilização do caso Erenice, o PSDB só fez obscurecer este fato. A corrupção só é tema de debate no Brasil porque nunca foi tão combatida. Pelo governo do presidente Lula.

Terra: Segundo turno é mais difícil do que primeiro?

Tarso: Não. Todo candidato quer ganhar no primeiro turno porque isso aí lhe dá uma força política para constituir o governo, bastante significativa. Agora, no caso do presidente Lula, foi o contrário. E nós queremos que aconteça a mesma coisa com a Dilma. E acho que nós vamos ganhar a eleição. O fato de que o Serra parou de crescer e a Dilma parou de cair e que os debates, no mínimo, têm sido parelhos até agora, nos autorizam a dizer que nós vamos obter uma vitória no segundo turno com uma boa margem de votos.

Terra: O senhor concorda com os que dizem que a campanha deste segundo turno tem muitos ataques de ambas as partes e pouco debate de propostas?

Tarso: O tucanato rebaixou a agenda da disputa política com a questão da religião, com a questão do aborto e com a utilização rançosa, udenista, do caso Erenice. Esse rebaixamento no começo surtiu efeito, mas, a medida em que a nossa campanha e a Dilma começaram a responder, isso tende a perder efeito.

Terra: A decisão nacional do PV, de independência em relação a eleição presidencial neste segundo turno, frustrou o PT?

Tarso: Na conjuntura, foi uma decisão positiva. Eu disse logo depois da eleição que, no mínimo, a Marina jamais apoiaria o Serra. Pela trajetória e pela história dela, que conheço há 30 anos. Uma pessoa com quem eu militei nos momentos mais duros do golpe militar. Conheço a sua formação e conheço a sua história, a sua grandeza moral e política. É óbvio que o meu pensamento é que ela perdeu uma oportunidade de se colocar como uma grande liderança, equivalente a do Lula e da Dilma, se apoiasse a Dilma. Mas esse é um raciocínio de um amigo e de um companheiro da Marina, que não foi o dela, que eu respeito profundamente.

Terra: O senhor, como governador eleito no primeiro turno, assumiu a coordenação de campanha de Dilma no Rio Grande do Sul. Dilma teve uma vantagem de 400 mil votos sobre Serra no primeiro turno no Estado, mas as pesquisas apontam o ex-governador na frente na região Sul no início do segundo turno. Qual é a estratégia para manter a dianteira nas urnas entre os gaúchos?

Tarso: Nós vamos fazer uma diferença maior da Dilma em relação ao Serra aqui no segundo turno. A Dilma vai chegar, no mínimo, à minha votação, o que pode fazer uma diferença fundamental para ela ganhar a eleição. E a amplitude da nossa campanha pode ser sintetizada pela mesa do Plaza São Rafael (na semana passada, durante plenária de arrancada da campanha de Dilma no segundo turno no Estado, no Centro de Eventos do Hotel Plaza, estavam na mesa principal, entre outros, o senador Sérgio Zambiasi, do PTB; o deputado federal Mendes Ribeiro Filho, do PMDB, que coordenou a campanha do candidato derrotado do partido ao governo, José Fogaça; o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, do PDT; e ainda o deputado federal Pompeo de Mattos, do PDT, que concorreu a vice de Fogaça; e o presidente do PDT gaúcho, Romildo Bolzan Júnior.) Aquela mesa composta ali ela só ocorreu aqui no Rio Grande do Sul em 1961 quando o Estado se opôs massivamente ao primeiro movimento golpista. O fato de o PMDB ter escolhido o Serra no Rio Grande do Sul não me surpreendeu. O que me surpreendeu positivamente foi ele ter permitido formalmente que os setores do PMDB mais progressistas transitassem em direção a candidatura da Dilma. Portanto, o ambiente aqui no Sul é altamente positivo.

Terra: Eleito, o senhor já procura construir com vários partidos no Rio Grande do Sul um governo de coalizão. O senhor acredita que vai contar com o PDT e o PTB na base de sustentação?

Tarso: Estamos procurando os partidos a partir de uma afinidade mínima programática e também considerando a base social destes partidos. O caso do PP, por exemplo: eles têm uma base muito forte na agricultura familiar, que é respeitável, e que é um lugar onde nós também, do PT, somos muito fortes. O PDT e o PTB são partidos que aqui têm origem no velho trabalhismo. Com um vínculo muito grande com essas bases mais populares, onde também o PT tem uma base muito forte. Então, queremos contar sim com o PDT e o PTB no governo, para compor um governo de coalizão.

Terra: O que o senhor imagina encontrar no governo. Como o senhor avalia que está a situação do Estado?

Tarso: O primeiro ano de governo é sempre muito difícil. O orçamento que se apresenta é sempre o orçamento do governo anterior e ele reflete a visão do governo anterior sobre desenvolvimento, sobre direitos sociais, sobre políticas públicas. Então, temos que trabalhar minimamente para que o primeiro ano seja um ano de recomposição de equilíbrio orçamentário, e também de continuidade daquelas políticas do governo anterior que sejam políticas legais, em primeiro lugar, e positivas, em segundo lugar. Além disso, no primeiro ano, fazer um grande pacto político no Estado por dentro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social para traçar políticas públicas estratégicas para o período seguinte. Com a consciência de que nosso último ano vai refletir também no governo que vai nos suceder.

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