Em números: por que a venda da Vale foi um mau negócio para o Brasil

“Vale tem lucro trimestral recorde de R$ 10,6 bi, alta de 253% sobre 2009”

A frase é título de matéria da Folha.com.

A Vale do Rio Doce foi vendida por R$ 3,3 bilhões em 6 de maio de 1997, pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

A Vale produz minério de ferro. De 1997 a 2010, o minério de ferro teve valorização de quase 600%, o que poderia explicar o aumento no lucro e no preço das ações da empresa e isentaria o governo FHC de alguma responsabilidade consciente pela perda de muito dinheiro que o povo brasileiro amargou com a venda da empresa. Se a acusação fosse criminal, poder-se-ia dizer, partindo desse pressuposto, que o governo cometera um delito culposo, não doloso.

Mas o site da Vale exibe sua trajetória. Com uma breve leitura, comparando com dados do Index Mundi referentes ao preço do minério de ferro, é só somar dois mais dois para ver que a privatização teria sido um mal negócio para o Brasil mesmo que o produto não tivesse valorizado no mercado internacional.

No espaço referente a 1999, dois anos depois da privatização, diz lá: “Vale tem o maior lucro de sua história: R$ 1,251 bilhão”. Em 1999, o minério de ferro valia 27,59 centavos de dólar por tonelada de métrica seca. Em 1997, quando foi privatizada, o preço era de 30,15 centavos de dólar. Ou seja, o maior lucro da história da empresa até então se deu em um ano em que o minério de ferro estava mais barato do que no ano da venda da Vale.

Isso é explicado por capacidade de gestão e interesse em fazer a Vale dar lucro. Capacidade de gestão seria perfeitamente conseguida em cargos dentro do governo FHC. O problema é que faltou interesse em fazer crescer uma empresa e fazê-la dar retorno para o povo brasileiro.

Em 1993, antes de FHC ser eleito, a Vale já era classificada pela Fundação Getúlio Vargas como “a primeira empresa no ranking nacional”. Dois anos depois é proposta sua “desestatização”.

Quer dizer, a privatização não é uma questão apenas de momento histórico e de oportunidade de mercado, mas de visão política de desenvolvimento. E nesse quesito qualquer um vê sem necessidade de lupa qual é o projeto comprometido com as empresas e submetido aos interesses estrangeiros e qual é o projeto comprometido com o povo.

————

Preço do minério de ferro:

maio de 1997: 30,15 centavos de dólar por tonelada de métrica seca

1999: 27,59 centavos de dólar por tonelada de métrica seca

setembro de 2010: 205 centavos de dólar por tonelada de métrica seca

————

Dados do site da Vale:

1993: “O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas classifica a Vale como a primeira empresa no ranking nacional”.

1995: “Vale é incluída no Programa Nacional de Desestatização pelo Decreto nº1.510, de 1º de junho, assinado pelo Presidente da República”.

6 de maio de 1997: “O Consórcio Brasil arremata 41,73% das ações ordinárias da Vale por R$ 3.338 milhões em moeda corrente”.

1998: “No primeiro ano após a privatização, a Vale atinge crescimento de 46% no lucro em relação a 96”.

1999: “Vale tem o maior lucro de sua história: R$ 1,251 bilhão”.

————

Recomendo a leitura de “Venda da Vale: um golpe no Brasil”

Em números: por que a venda da Vale foi um mau negócio para o Brasil

3 comentários sobre “Em números: por que a venda da Vale foi um mau negócio para o Brasil

  1. Mariana disse:

    Não é bem assim. Considerando as ações da Previ, cuja diretoria é indicada pela União, e do BNDES como de influência direta do governo, este gerencia mais ou menos 41% do capital votante da Vale. Somando-se ainda a participação do Bradesco e dos outros investidores brasileiros, cerca de 65% do capital votante da empresa estão no País. Além disso, após a privatização, o lucro anual da Vale subiu de cerca de 500 milhões de dólares em 1996 para cerca de 12 bilhões de dólares em 2006. Em 2005, a empresa pagou 2 bilhões de reais de impostos no Brasil, valor superior em dólares ao próprio lucro da empresa antes da privatização. Ainda que se possa questionar a forma como a privatização foi feita, considerando o valor da empresa inferior ao que realmente era, o desempenho da instituição aumentou muitíssimo. E ela ainda escapa do conflito de interesses ao qual está sujeita, por exemplo, a Petrobras, estatal, como se deu no seu processo de capitalização: houve um aumento da fatia do governo (que é ao mesmo tempo vendedor e comprador dos barris de petróleo) na empresa.

    Curtir

  2. Renato disse:

    “Além disso, após a privatização, o lucro anual da Vale subiu de cerca de 500 milhões de dólares em 1996 para cerca de 12 bilhões.”

    VAI SER BURRAAA PQP, então quer dizer que você prefere 2 bilhoes em impostos a 12 bilhões em lucros ???

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s