Imprensa e as soluções fáceis da “guerra” no Rio

Esses articulistas… Cito como exemplo o da Zero Hora, mas serve para tantos outros. Na página 8 da edição de hoje, Humberto Trezzi diz que “os PMs não alvejaram os criminosos do Complexo do Alemão em fuga” porque “ninguém, nem mesmo o mais fanático militarista, duvida das péssimas consequências políticas de uma chacina transmitida aos lares dos telespectadores”. Quer dizer, não matem pra não aparecer chacina na TV que fica feio, pega mal. O fato de se tirar vidas, ainda que seja de bandidos, é detalhe, não considerado. É a defesa da pena de morte – sem julgamento -, do “bandido bom é bandido morto”.

Evidente que não quero que o tráfico domine os morros cariocas. É claro que quero que a violência diminua o máximo possível, justamente para morrer cada vez menos gente, não mais. Mas está pra lá de provado que só repressão não resolve, que é preciso uma ação integrada de vários setores, com educação, inclusão social, oferta de serviços públicos de qualidade, já que muito da realidade dos chefes do tráfico e de todos os envolvidos com a atividade criminosa é fruto do meio em que se criaram; a gurizada às vezes não vê outra saída para as suas vidas. Em suma, é preciso oferecer dignidade a todos os setores da sociedade, abrir outras portas e escancará-las.

Mas isso é muito complicado, e as respostas prontas são muito mais fáceis. Assim, nossos jornalistas e articulistas noticiam a “guerra” do Rio como um filme, excitados com o clímax, o momento em que o Schwarzenegger vai aparecer e, com um dedo e sozinho, vai disparar contra todos os figurantes, matar todos. Felicidade total! O “bem” venceu o “mal”.

E no dia seguinte, chega outro guri, recém saído das fraldas, e toma conta de novo do morro. E o tráfico volta e cresce, sustentando parte da favela. E a repressão volta, as pessoas morrem e começa tudo de novo.

Engraçado que a edição desta terça-feira d’A Liga levou para as telas da Band o morro da Rocinha e a realidade das pessoas que vivem lá. Pessoas que trabalham, que vivem mal, sentem fome, mal têm teto para cobrir sua casa das chuvas. Mas que não gostam de drogas e morrem de medo que os filhos se envolvam com o tráfico, porque o amiguinho já fuma, já vende, já faz parte da rede, que tem tantas teias. Coincidentemente o programa foi ao ar esta semana, mas já estava na programação antes de ser deflagrada a “guerra” no Rio. Uma perspectiva mais humana da favela e menos cinematográfica, que não aparece por aí. Não interessa mostrar como vive gente pobre, só como morre.

—————-

Ando meio rancorosa, porque fico triste. Vejo a imagem de pessoas com armas na mão – de qualquer um dos lados, independente do motivo que os levou a segurá-las – e tento entender por quê. Qual a razão de segurar um objeto que, se acionado, é capaz de matar? Em que tirar uma vida de alguém melhora a vida de quem mata? Tirando do contexto do enfrentamento, parece tudo tão absurdo. Não faz mais sentido que vivamos em harmonia compreendendo que o outro é tão alguém quanto eu? Mas para isso é preciso que tenhamos harmonia sempre, e harmonia pressupõe igualdade. De direitos, de oportunidades.

Imprensa e as soluções fáceis da “guerra” no Rio

8 comentários sobre “Imprensa e as soluções fáceis da “guerra” no Rio

  1. Ismael disse:

    Eu ontem assistindo os noticiários, pensava justamente sobre o palpitismo, essas soluções fáceis. Jornalistas juntam dois ou três especialistas, geralmente “especialistas”, e querem resolver um problema de décadas na duração da entrevista.

    Mas ontem mesmo minha alma foi lavada. Jornalista(Fátima Bernardes ? Não lembro, vi muitos) dizia que a polícia não se preveniu, não cercou o outro lado do morro. Tomou resposta na hora, dizendo que não é assim, sabiam que a topografia não ajuda, e se faz uma coisa de cada vez. Se não tem alguém pra responder, essa ladainha é repetida.

    Quanto a esse discurso de harmonia, sempre é preciso cuidado.

    Soluções pacíficas dependem de entendimento, respeito de todos os lados. Com um bandido com fuzil, que não tem limites, diálogo não resolve.

    Eu estou esperançoso dessa vez. As UPPs podem realmente fazer efeito. Claro que surgem novos bandidos. Mas esses vão surgir em uma área que não é mais completamente abandonada pelo estado.

    Cris, já notou o Lasier no JA sobre o assunto ? Ele fica falando “tomara que no futuro não seja aqui no estado”, dois dias seguidos. Mas ele ainda não mencionou que o governador Tarso quer criar UPPs no estado. Parece estar preparando o terreno para critica final, criando o ambiente primeiro.

    Curtir

  2. Luís Felipe disse:

    Conheci seu blog há pouco tempo e, concordei com você em outros assuntos porém, neste, discordo em muitas partes.
    Na minha opinião é cruel mas, a verdade é que a situação chegou no ponto que a solução é a Polícia(Exército,BOPE, ou sei lá quem…), atirar pra matar aqueles caras. Fazer “uma limpa”.Serei muito criticado por minha opinião. Muitos vão dizer que aqueles caras são vítimas do sistema, e muitas outras coisas que cansamos de ouvir por aí. Na verdade, essas pessoas gostam de transformar os bandidos em vítimas e nós, verdadeiras vítimas, em acidente de percurso.Sei que há muita coisa escondida por trás destes traficantes mas esse é outro problema a ser resolvido (duvido que aconteça!).
    Concordo que a solução seja educação, inclusão social, etc. Mas isso deve ser começado desde cedo com as crianças. De repente agora, com as UPP’s isso possa se tornar possível nos morros. Quem sabe a partir de agora aquelas pessoas consigam viver melhor, sem se tornarem reféns do tráfico. Desejo mais do que nunca que aqueles lugares se transformen em lugares pacíficos.
    A verdade é que, essa geração de traficantes (criados pelo sistema), infelizmente, não tem solução. Acredito que 99% das pessoas que vivem naquelas comunidades não possam viver em pânico por 1% que espalham medo aos demais. Sobre a pergunta que você deixou no texto, sobre em que melhora a vida de uma pessoa que mata a outra, darei minha opinião: neste caso, pode não melhorar a vida do que mata, mas vai melhorar a vida de inúmeros moradores da comunidade. Basta ver as reações de felicidade dos moradores com a chegada do Exército.
    Infelizmente, em diversas ocasiões, para se ter paz, antes, é necessário guerra, e guerra, consequentemente gera perdas. E nesta guerra, apoio o Estado que,acredito que agora não possa recuar. Como se diz no futebol, a hora é de ir pra cima deles. A hora é essa e, noto que o povo começa a ter uma pequena esperança.
    Escreveu aqui alguém que já foi vítima de assalto, que já teve membro da família (de dentro de casa!) morto em assalto e que, mesmo assim, já acreditou que a violência pudesse ser resolvida de maneira mais pacífica. Hoje, talvez mais desiludido com a situação de bárbarie que vivemos, acredito que a situação certa é a que o Estado está toamndo no RJ. Chega de sermos reféns!
    Certo ou não, é o que penso. Primeira vez que me manifesto sobre o assunto.

    Abraço!

    Curtir

  3. Onde eu assino???

    E ontem de noite, a discussão foi dose. Depois de quase brigar a socos com um amigo de longa data na época da campanha eleitoral (culpa de umas cervejas a mais que eu tomei, e do reacionarismo dele), eu vinha meio que me esquivando de falar de certos assuntos com certas pessoas. Mas aí eu chego e encontro meu irmão tentando explicar a causa de toda a violência no Rio (com base no ótimo “Notícias de uma guerra particular”) para a minha mãe e a minha prima, que acreditam naquela máxima médio-classista de que quem entra na criminalidade “quer dinheiro fácil, sem trabalhar” (mas elas também querem ganhar na Mega Sena, por quê será?). Não pude deixá-lo sozinho e entrei na briga… 😛

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s