A esperteza de Zero Hora

A Zero Hora não costuma primar pela qualidade. Me refiro tanto à falta de isenção, que diz ter, quanto à questão mais prática de apuração e qualidade dos textos. Mas às vezes se mostra mais esperta que seus parceiros do Centro do país. Enquanto Folha, O Globo e Estadão deram destaque à entrevista coletiva de Lula a blogueiros, ironizando e recriminando o presidente e debochando dos blogueiros (não tenho cá comigo a imagem, mas quem se superou em todos esses quesitos foi o jornal O Globo), a Zero Hora deu uma notinha em uma página insignificante com um relato breve do acontecido, sem foto. Os jornalões citados escancararam os rostinhos dos comunicadores presentes ao lado de Lula.

Com a entrevista do governador eleito Tarso Genro, seguindo os moldes do presidente, ela fez parecido e deu uma nota seca em um pé de página par. É possível que nem tivesse mencionado o encontro, ou falasse em apenas duas linhas, se Tarso não tivesse forçado a notícia. Afinal, se a Zero Hora é esperta, o governador é mais, e aproveitou a ocasião para anunciar a competente Vera Spolidoro para a Secretaria de Comunicação e Pedro Osório para a presidência da Fundação Piratini, forçando a menção ao encontro.

O jornal evitou fazer juízo do conteúdo da coletiva. Aliás, mal entrou no mérito, indo pouco além da alfinetada que não poderia faltar sobre a censura que a grande imprensa costuma ver em qualquer tentativa de democratizar a comunicação. Acho tão engraçado, porque contradizem o que eles mesmos dizem. Como uma “democratização” pode significar censura? O significado do termo é exatamente o oposto de censura, e vai na direção do que hipocritamente a ZH defende, embora não pratique: a pluralidade.

Mas faz sentido que não gostem. Afinal, democratizar traz embutido dividir. Para que os que têm menos tenham mais, os que têm mais devem perder alguma coisa, nem que seja apenas poder (o que faz todo sentido, em uma perspectiva de mais igualdade). Isso se aplica a qualquer setor da sociedade, inclusive comunicação. Como quem tem poder hoje são esses jornalões citados, que pautam a discussão e formam opinião, eles não gostam da ideia de democratizar.

Nenhum deles gosta, mas é aí que entra a esperteza do negócio. A RBS, ao não dar destaque ao tema, neutraliza o debate em setores da sociedade que praticamente só têm acesso à informação através dela. Já os jornais do Centro do país acabaram caindo na armadilha e exalando despeito, em seus comentários mal intencionados, recheados de inveja e mau-caratismo.

Nesse caso, a “inteligência” da Zero Hora é prejudicial à sociedade, pois enfraquece o debate sobre democratização, ajudando a impedir que muitos setores tenham voz. O jornal podia usar sua esperteza para produzir conteúdo de mais qualidade para a sociedade e valorizar seus funcionários. #ficaadica

A esperteza de Zero Hora

4 comentários sobre “A esperteza de Zero Hora

  1. eugênio disse:

    De um ponto de vista estritamente jornalístico, desta vez, a ZH conseguiu faezr uma matéria sem juizo de valor, apenas relatando o fato.
    O que poderia ser interpretado como uma intencionalidade da parte da RBS, é que, de todos os temas tratados, somente 2 foram citados: Cais do Porto, onde a RBS tem interesse, através do seu braço especulativo-imobiliário e o Conselho de Comunicação, que ameaça diretamente o seu monopólio.

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  2. […] A esperteza de Zero Hora (via Somos andando) Publicado dezembro 11, 2010 r Uncategorized Deixar um Comentário A Zero Hora não costuma primar pela qualidade. Me refiro tanto à falta de isenção, que diz ter, quanto à questão mais prática de apuração e qualidade dos textos. Mas às vezes se mostra mais esperta que seus parceiros do Centro do país. Enquanto Folha, O Globo e Estadão deram destaque à entrevista coletiva de Lula a blogueiros, ironizando e recriminando o presidente e debochando dos blogueiros (não tenho cá comigo a imagem, mas quem se superou em … Read More […]

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  3. Ou ainda podemos pensar que o que despertou essa percepção de ‘esperteza’ do ZH é pela deficiência de conhecimento do assunto por parte de seus profissionais? A ênfase, pelo que reparamos, é sempre de cunho do lado extremo da ‘democratização da informação de qualidade para toda a sociedade’… não?

    Adorei seu texto, parabéns!
    Abs,
    Carol

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