Nem toda pergunta vale ser feita

Sim, todo jornalista tem o direito de perguntar o que quiser. Mas é bom tomar cuidado porque, quando a pergunta é burra, pode ficar ridículo. Na página 3 de Zero Hora, o quadro “Direito de pergunta” revela que o jornalista Tulio Milman cometeu o grande pecado do jornalismo: falou o que achava sem se informar. Não leu.

A pergunta é a seguinte:

“E, se em vez de anistiar as dívidas dos pequenos produtores, o governo ou a Assembleia tivessem proposto que elas fossem pagas com qualquer tipo de trabalho comunitário?”

Faltou ler o básico: a proposta enviada à Assembleia e sua justificativa. Ambas estão disponíveis para consulta pública no site da AL. E nem são muito grandes, cada uma tem apenas uma página. Em alguns poucos minutos ele daria conta do recado. Entre outras coisas, a justificativa diz:

“para uma parcela significativa dos mutuários, não seria viável o empenho do Estado em ajuizar as cobranças, pelo custo não ser compensatório.

Ademais, constatou-se que as buscas dos oficiais de justiça não foram suficientes para a localização dos executados, uma vez que os endereços para cumprimento dos mandados são, em sua imensa maioria, na área rural. Mesmo com a utilização de sistemas de busca integrada, não houve êxito nas localizações.”

Ou seja, um dos motivos que levou à proposta de anistia é a dificuldade de se encontrar os devedores no meio rural.

Como, então, o jornalista de espaço tão privilegiado na RBS propõe que seja executada a dívida com serviços prestados à comunidade? Se é difícil até de encontrar os agricultores para executar o valor em dinheiro, se tornaria impossível exigir que eles se deslocassem até alguma comunidade mais próxima (que ainda assim pode ser razoavelmente longe e de difícil acesso) sabe-se lá quantas vezes, para fazer esse trabalho.

Agricultores humildes, sem grana, possivelmente sem carro e com extrema necessidade de se dedicar à sua produção para manter o sustento da família – afinal, agricultores familiares, na imensa maioria dos casos, não têm funcionários, trabalham apenas com os membros da família.

Além da inviabilidade da exigência por si só, é possível que eles gastassem mais em deslocamento do que o valor da dívida original, que gira em torno de R$ 2.760,48, em média.

Nem toda pergunta vale ser feita

4 comentários sobre “Nem toda pergunta vale ser feita

  1. A resposta é relativamente simples: este rapaz não tem suficiente discernimento para alcançar a compreensão dos dois lados de um problema desta natureza. Esse rapazinho, há alguns dias atrás, propôs a seus leitores uma questão muito simples sobre a decisão de Lula de não extraditar Battisti. Disse ele: “imaginem que Battisti fosse um criminoso político de direita, será que Lula decidiria da mesma forma?”. Ora, esse mesmo rapaz

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  2. (Faltou um pedaço). Continuando: esse mesmo rapaz se coloca contra a Comissão da verdade, não consegue compreender que sua não instalação significa absolver diretistas que cometeram graves crimes (políticos?). Esse rapaz não consegue aceitar a ideia do estado concedendo direitos, vantagens ou favores a alguém que não seja muito rico, alguém que seja apenas um humilde trabalhador urbano ou rural. Esse menino não entende que um “trabalho comunitário” realmente relevante seria se a empresa onde ele trabalha, empregasse pessoas de diferentes matizes ideológicas. O pensamento único demonstrado por comentaristas e jornalistas da RBS é um verdadeiro desserviço à comunidade e à democracia.
    Tá, agora sim terminei.
    Abraços.

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  3. Licurgo disse:

    Isso não é uma pergunta, é uma doença! E grave! A literatura médica registra como stúpidus classistus. Acomente principalmente empregados querendo agradar patrões.

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