Mais uma reportagem rasa da Globo

O RBS Notícias e o Jornal Nacional, como não é de se espantar, seguiram a mesma linha na noite de ontem (sábado, 29), dedicando enorme espaço a um tema secundário. E, o que é pior, ignorando diversos aspectos dele.

A reportagem de Alan Severiano era sobre uma iniciativa de lojistas de vender jogos eletrônicos pela metade do preço por um dia.

Como é de praxe, uma abordagem crítica foi deixada de lado em prol da valorização do consumo. Resumindo, o que fizeram foi contar o que estava acontecendo e se aliar aos vendedores na crítica aos altos impostos cobrados pelo governo sobre esses jogos, fazendo com que seu preço duplique ao chegar ao consumidor final. Acontece porque eles são taxados como jogos de azar, que têm taxas bastante elevadas.

O que faltou

Praticamente tudo. Faltou dizer que esse tipo de produto é extremamente secundário, que ninguém precisa de jogos de computador para viver ou ser feliz.

Faltou dizer por que os impostos são cobrados, a que se destinam. Como em qualquer reportagem que trate das taxas que temos que pagar aos governos, a impressão que fica é que o cidadão despende uma quantia enorme de seu salário para um fundo oco que não serve para nada. Nunca se contextualiza a fim de que se compreenda a importância da arrecadação – o que não impediria o questionamento sobre valor abusivo, cobrança em excesso etc.

Um economista, ou talvez um sociólogo, questionaria a que parcela da população o problema diz respeito.

Faltou falar com um pedagogo para avaliar o impacto de jogos de computador sobre os neurônios de nossos jovens. Alguém que pudesse comentar se esse tempo não seria melhor empregado estudando ou com outros tipos de atividades.

Talvez um psicólogo pudesse argumentar que jogos eletrônicos fazem o indivíduo se isolar do resto do mundo, criando um problema de socialização em toda uma geração.

Um médico poderia versar sobre os impactos ao organismo de se ficar horas sentado – como um jovem admitiu na matéria, ainda que a isso não se tenha dado a devida importância – sem praticar exercícios físicos.

A imprensa incentiva determinadas práticas sem questionar suas consequências. Daqui a pouco vem uma matéria no mesmo Jornal Nacional – ou um Globo Repórter, como já houve tantos – mostrando como crescem os casos de obesidade infantil no Brasil, em uma mórbida comparação ao padrão norte-americano. Mas as coisas não se relacionam na notícia. Ninguém enxerga causa e consequência. Ninguém questiona.

Que fique claro, é possível conciliar uma vida saudável com esse tipo de atividade. Como em tantos casos, o essencial é equilíbrio. A matéria não era sobre as consequências de se introduzir os jogos na vida dos jovens, mas todos que foram apresentados como potenciais prejudicados pelo governo brasileiro – esse bobo e malvado – eram adolescentes que adotam exatamente esse comportamento.

Como o foco eram os impostos, talvez fosse oportuno mostrar as consequências de reduzi-los. Como uma reação em cadeia óbvia, aumentaria o consumo, que ampliaria o número de horas dedicada à atividade. Um economista poderia falar a respeito.

Caberia aí perguntar a um dos compradores como agiria. Provavelmente, ele diria que estudo, esporte e outros tipos de lazer seriam diminuidos. E, por fim, se um especialista fosse consultado, poderia discorrer sobre os problemas ou os benefícios resultantes.

Foram mais de dois minutos mostrando o horário que os jovens chegaram à fila, as regras das vendas, quantos jogos foram vendidos e… bem, e o quê mesmo?

Pra variar, a abordagem é rasa e sem função social, interessa apenas – com exceções, claro – a uma elite pequena e sem conteúdo.

Mais uma reportagem rasa da Globo

10 comentários sobre “Mais uma reportagem rasa da Globo

  1. Guto disse:

    Disse no Twitter, e repito aqui: “Faltou dizer que esse tipo de produto é extremamente secundário, que ninguém precisa de jogos de computador para viver ou ser feliz.”

    Muito infeliz essa passagem.

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  2. Leo Tricolor disse:

    A intenção de mostrar a superficialidade da matéria é interessante. Já o texto se perde. E se perde pelas mesmas razões pelas quais critica a matéria: superficialidade e parcialidade.

    Vc parte até levanta a bola da razão da cobrança dos impostos, mas não vai a fundo nela ou nas razões pelas quais existe alta taxação tributária sobre jogos eletrônicos. Por outro lado, trata a coisa como se ela fosse somente danosa ao ser humano, uma espécie de droga.

    Inclusive, fala em entrevistar vários especialistas para comprovar coisas que vc assume como verdade (ou pelo menos dá a entender) sem ter conhecimento de causa. Falar de vídeo games hoje é entender parte importante da sociologia dos nossos tempos, novas formas de interação homem-máquina e homem-homem através da interface digital. É falar de novas estéticas narrativas e artísticas que vêm sendo desenvolvidas ao redor do mundo. Também ignora diversos estudos científicos que pontuam que crianças que têm os jogos eletrônicos como hábito desenvolvem o sentido de observação do ambiente, “escaneia” seu campo de visão mais detalhadamente, desenvolvem maior poder de concentração e criatividade.

    Veja, eu não tenho nada contra discursos “anti-mídia”, acontece que normalmente eles são vazios. O papo do “reclamar por reclamar”.

    Pense nisso.

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    1. Certo, Leo, entendo tua crítica. Acho que há alguns pontos relevantes nela, especialmente na parte em que comentas que trato a coisa apenas como danosa.

      De fato, não considerei com a devida atenção os benefícios que os jogos podem trazer. Acredito que isso tenha acontecido porque a ideia era fazer o contraponto à matéria, que só tinha mostrado os pontos positivos. Quis dizer que há outros aspectos que não foram considerados na reportagem, cobrando uma postura mais crítica da mídia.

      Meu objetivo não era tirar conclusões a respeito da validade dos jogos, mas mostrar que a matéria não se aprofundou nos questionamentos. É por isso, inclusive, que as observações estão sempre na condicional: “se um especialista fosse consultado, ele talvez poderia dizer que…”, ou seja, especialistas não foram consultados, e isso mata a reportagem.

      Mas obrigada pelo comentário. Pode ter certeza que está sendo considerado.

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  3. Leandro disse:

    A diminuição de impostos iria causar uma reação em cadeia? Sem duvida

    Aumentaria o consumo, e o imposto que foi cortado ( leia-se concertado ) teria uma coleta superior.

    Fora o estimulo desse mercado que é um dos maiores do mundo atualmente, que geraria uma série de empregos em varias areas, assim como investimento na area nacional, dado que o Brasil tem um grande potencial na mesma.

    Lembrando ainda que a maioria dos impostos é destinada a suprir as vontades de muitos políticos sem conciencia social, que aumentam salários ( diga-se de passagem, salário de político nem secundário é em vista a nossa vida social atual )

    Obvio que eu concordo que 80% de matérias jornalísticas atuais nem mesmo poderiam ser consideradas jornalísticas, mas a questão dos impostos para jogos eletronicos no Brasil beira o ridículo, e sem falar que estimula o mercado de pirataria que suja o nome do Brasil em varias areas diante o comércio Internacional.

    Discordei de você como deixei claro, mas realmente gostei de sua postagem, afinal todos temos o direito de ter opiniões.

    Quando quiser estarei aberto a explicar o que psicólogos realmente dizem sobre a experiência de jogos, tanto suas mazelas quanto seus benefícios.

    Sucesso no blog e a espera de mais assuntos polêmicos.

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      1. Leandro disse:

        Sem dúvida, discordar é que o faz cada um evoluir individualmente e com sorte ate passar isso socialmente.

        Gostei muito do seu blog, e fico muito feliz que mais alguém se decepcionou com o jornalismo mas preferiu mudar essa visão que temos hoje em dia da área.

        Seja sempre polêmica!

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  4. “Faltou dizer que esse tipo de produto é extremamente secundário, que ninguém precisa de jogos de computador para viver ou ser feliz.” COMPLETAMENTE INFELIZ …

    você é micro! Pense macro, o mercado de games é o que mais cresce no mundo ano após ano! Os benefícios são inumeráveis. Veja o exemplo da Coréia que hoje gera empregos e aumenta a receita com o mercado crescente de games. Falou bem porem falou completamente sem embasamento. É uma pena pessoas criticarem aquilo que jamais conheceram ou sabem mensurar. Pense mais macro da próxima vez que escrever e publicar algo.
    Esse tipo de incentivo não visa somente o consumo, e sim o direito de todo cidadão de ter entretenimento com um preço justo e acessível!
    Games são tão bons (as vezes melhor) do que muitos filmes, e quantas vezes você reclamou do valor do cinema?
    Porque as pessoas acham que cobrar mais barato por uma peça de teatro é louvável, incentivo a cultura … e porque games não?

    Achei seu texto bem papinho de universitário ante Globo, ante mídia e ante O SISTEMA! Concordo que o foco da matéria foi outro, porém o que você nos apresentou em forma de texto é lastimável!

    Sou apoiador do projeto Jogo Justo!

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    1. Caro rew,

      Solicito que leias o comentário que fiz em resposta ao Leo. Como afirmei ali e reitero, minha crítica tinha como alvo o fato de a matéria ter sido muito rasa. Quis mostrar que há outros aspectos da questão que NÃO foram abordados. Os aspectos positivos estavam na matéria – embora até eles não tenham sido aprofundados. E aí admito que faltou em minha postagem criticar a falta de aprofundamento também nessa questão.

      Sim, talvez a passagem que citaste não tenha sido feliz, mas acredito que leste o post com uma visão tão parcial quanto a que criticas, impedindo de ler o que realmente estava escrito.

      Teu questionamento sobre os benefícios dos jogos é válido, mas insisto: minha crítica foi ao fato de a matéria ter sido absolutamente rasa.

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  5. Fazendo uma pequena crítica, eu acho que você começou o texto bem, só que depois foi se perdendo, citando argumentos meio que duvidosos.

    Por exemplo, desde o começo do texto, deu a entender que você é uma crítica ferrenha de jogos de computador.Eu entendo que eles, de fato, são produtos secundários, mas vale a pena lembrar que não só de pão vive o homem.Existe um sem fim de formas de entretenimento, sendo que os jogos e a televisão são algumas delas.

    (Eu li a parte do equilíbrio, e concordo com você neste ponto.Todavia, dizer que ninguém precisa de jogos de computador para viver tem seu caráter pejorativo.Afinal, quem precisa de televisão, rádio e carro para viver.Não seriam também produtos secundários?)

    No decorrer do texto, você começou a associar fatos que não estão necessariamente ligados.Por exemplo, é possível associar, em determinados aspectos, o aumento de casos de obesidade infantil com a popularização dos jogos, mas aí você parece ignorar que existem uma série grande de fatores, dentre os quais podem entrar a violência urbana(Quantos pais deixam seus filhos andarem de bicicleta quando ouvem das atrocidades contra os ciclistas no trânsito?) e a diferença de preço entre os produtos industrializados, quase que inteiramente artificiais, e os produtos “naturais”, em se tratando de alimentação.

    No caso da alimentação, aponta-se que, nos EUA, uma das principais causas da obesidade é essa disparidade de preço.Não só nos EUA pode notar-se tal disparidade, como também aqui.Uma garrafa de suco de uva, de 600ml, custa por volta de R$2,50 nos supermercados, enquanto uma garrafa de refrigerante, com o mesmo volume, custa até R$1,50.

    Quanto ao ponto de que a presença dos jogos para os jovens dificulta a socialização destes, posso dizer com segurança que, se outrora essa falta de socialização era verdadeira, hoje já não o é.

    Eu, como jogador casual de jogos com modo multiplayer, conheci diversos amigos ao redor do mundo através do jogo.Isso sem contar que, um grande aliado que tive quando fui aprender o Inglês foram os jogos.Sem contar, então, os encontros na vida real de jogadores de um mesmo servidor ou de um mesmo jogo.

    Agora, em se tratando da função social da matéria, digo que mostrar a carga tributária que incide nos jogos tem sim, seu impacto social.No caso dos jogos, estes acabaram, junto com as Lan-Houses, estimulando parte da inclusão digital.

    Sem contar que, muitos dos jogadores que não possuem renda para comprar o original, acabam tendo de ir para a pirataria (que indiretamente, tem lá sua importância social).Com a isenção dos impostos, mais pessoas teriam condições econômicas de comprar o original, ainda que um grande número ainda continue na pirataria.

    Dizer que a matéria atende apenas uma elite sem conteúdo é, no mínimo desconhecer a realidade que gira em torno dos jogos em si, além de desconhecer todo o movimento na economia que eles geram.Já se foram os tempos em que, para jogar online, ou mesmo ter um computador, a sua renda tinha de ser bem alta.Hoje, já é possível ter um computador em cada casa com preços acessíveis.

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    1. Só como um PS, eu acredito que a própria abordagem da equipe do Jornal Nacional também poderia ter sido mais abrangente.Todavia, no tempo relativamente curto da matéria, fica difícil fazer uma cobertura boa do assunto(Pelo menos é o que eu acho).

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