Breve balanço desse início de governo

Nestes primeiros quase dois meses de governo Dilma, há alguns destaques positivos e alguns negativos a serem feitos.

Lado A

De nítida melhoria em relação ao seu antecessor, desponta na liderança o compromisso enfático com a defesa dos direitos humanos. Compromisso que a fez questionar inclusive algumas atitudes da política externa de Lula, como a relação com o Irã. Embora eu defenda a tentativa de intermediar o conflito no Oriente Médio, é preciso deixar claro um posicionamento inamomível de certas visões políticas. Isso inclui também a crítica aos jornalistas presos em Cuba, ainda que a situação não seja exatamente a que a grande imprensa tenta nos fazer engolir. De qualquer forma, qualquer restrição ideológica nesse sentido é preocupante. O que é preciso buscar é a difícil capacidade de estabelecer os mesmos critérios de avaliação para qualquer situação que se enquadre dentro de determinadas características. Louvo, então, o governo Dilma, por buscar esse ideal e, principalmente, a própria presidenta, que orienta pessoalmente essa política.

Ainda dentro do positivo, e cito só mais um fator para não me alongar muito, vejo a relação do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, com as mídias digitais. Já promoveu ou participou de mais de uma situação em que falou direta e exclusivamente para a rede, em detrimento dos jornais tradicionais. Não nega, contudo, o diálogo com nenhuma parte, o que também é positivo. Apenas ressalto a importância que dedica às formas alternativas de se fazer comunicação, como uma forma de mostrar que existem outros meios, que os jornais dos grandes grupos não são os únicos transmissores de informação. É uma forma de valorizar a pluralidade da disseminação da informação. Um incentivo a sua democratização. Ficamos no aguardo de políticas concretas nesse sentido, que já foram sinalizadas, mas ainda não efetivadas – e temos que dar um desconto pelo ainda curto período de governo.

Lado B

Mas não só de louros foram feitos esses primeiros dois meses. No aspecto negativo competem colados dois pontos de difícil aceitação. Um deles ainda é um tanto polêmico, mas outro é absolutamente repreensível e, em parte, contradiz o primeiro ponto positivo. Dilma compareceu ao aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, homenageando o jornal que lhe publicou uma ficha falsa como terrorista durante a ditadura e tentou a todo custo fazer com ela perdesse as eleições para o opositor, José Serra. O mesmo jornal que chamou a ditadura da qual a presidenta foi vítima de “ditabranda”. E Dilma nem precisava ter sofrido o que sofreu nas mãos de seus torturadores para fazer dessa pauta uma defesa incansável. Qualquer defensor dos direitos humanos que se preze, mesmo sem sofrer diretamente o aviltamento, não admite o tratamento que o jornal deu aos militares golpistas.

Na disputa pelo primeiro lugar (ou o último?), está o corte de 50 bilhões de reais no orçamento da União. Talvez até possa ser considerado necessário, de acordo com interpretações econômicas que não me sinto apta a fazer, mas estremece os que defenderam a política econômica de Lula com base na comparação com FHC. Era o presidente do investimento contra o do arrocho e da privatização. O corte faz acender a lanterna quando lembra da tão temida e assustadora palavra para os cidadãos brasileiros, que os fez ficarem desempregados e perderem poder de compra e, mais tarde, provocou terrível crise nos sistemas financeiros dos países mais desenvolvidos: o neoliberalismo.

Conjunto da obra

Dois meses ainda são poucos para se fazer uma avaliação do governo. Sabemos que é impossível seu desempenho ser totalmente positivo, mas, se a balança ficar equilibrada ou apenas levemente pendente para um dos lados, tampouco estará bom. É preciso que o governo Dilma Rousseff se destaque com folga pela execução de políticas públicas que beneficiem a maioria de seus cidadãos. Duas ações teriam peso decisivo no prato que responde pelos aspectos positivos: uma regulamentação concreta da comunicação e uma eficiente reforma política. A ver.

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Fotos: Roberto Stuckert Filho / PR – Dilma com as mães e avós da Praça de Maio;

Caio Guatelli / Folhapress – “A presidente Dilma Rousseff e o editor-executivo da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila, se cumprimentam durante evento em comemoração aos 90 anos da Folha, na Sala São Paulo” (legenda da Folha)

Breve balanço desse início de governo

8 comentários sobre “Breve balanço desse início de governo

  1. Menos de dois meses. Não dá tempo para muita coisa. Pena que tenha dado tempo para a presidenta comprar briga com as centrais sindicais, anunciar cortes no orçamento – desconstruindo, em parte, a imagem de sucesso do governo Lula – ameaçar com retaliação a possíveis dissidentes da base aliada – uma atitude tipicamente “Yediana” – e, como se não bastasse, participar das comemorações do aniversário de um jornal assumidamente pró-ditadura militar.
    Mas isso é apenas o começo. Acredito muito que Dilma possa fazer um grande governo. Se não acreditasse não teria votado nela, não é mesmo?

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    1. Olha, Marco, até pensei em citar esse ponto. Mas, apesar de não ter gostado do que ocorreu, não considero um ponto tão significativamente prejudicial quanto os dois citados. Por questão de espaço, restringi. E hoje chegou a mim uma carta que relata uma conversa com o secretário executivo do Minc, Vitor Ortiz, que garante que foi um passo errado mas que o ministério não é contra a cultura digital e livre. Digamos que eu concedo mais uma chance (e quem sou eu para isso? hehehe) ao Minc. Espero que a coisa ande bem.

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  2. Cris,

    Eu acredito que o tema da Cultura é sim primordial, pois está juntamente à Educação. Eu como professor teria problemas em exibir filmes a meus alunos, caso o ECAD tivesse uma fiscalização mais dura. E isso é só um exemplo. Tá bem claro que o negócio era premeditado. Mas a pressão tá tanta que acredito que o lobby do ECAD não vai pra frente.

    Sobre o Lado A – não vejo o tema dos direitos humanos se estender ao desarquivamento dos arquivos da ditadura. Pensava-se que seria a ex-guerrilheira que iria encarar de frente o leão que foi a ditadura, mas por enquanto nem um sinal do MJ, nem dela. Falar contra o Irã é fácil, pois somos ocidentais, mas se ampliar essa crítica nos tornamos facilmente um grupo opositor, fazendo jus aos interesses americanos. E vejo que sem Celso Amorim a postura do MRE já caiu bastante. Apesar do nome, o novo ministro tem falado muito baixinho por sua pátria. A questão das telecomunicações apenas ampliando a banda larga é muito pouco, o grande passo seria um marco regulatório e uma Tv pública mais forte, investindo no cinema local e na produção de documentários que façam o BR se refletir na atualidade.

    Sobre o lado B – Não vou se quer comentar sobre a festinha da Folha. Mas quanto ao corte de 50 bi, além de ser uma política neoliberal, fez com que os concursos públicos fossem cortados e hoje há mais de 10 mil cargos comissionados só em Brasília, um absurdo sem precedentes no mundo! O tema do salário também foi um agravante, mas não vou discursar sobre o tema. A pensar por esse ínicio, as bandeiras idealistas foram todas jogadas foras e não vejo possibilidades sérias de mudanças na política, pois o próprio partido está se beneficiando com ela.

    Não estou gostando.

    Abraços

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  3. Os pontos negativos são incontáveis. Estou preparando uma série de posts explicitando minhas divergências, mas desde já posso citar algums:

    -Ana de Hollanda, ministra do ECAD;
    -Política Externa pífia e que dá mostras de retroceder tudo que conquistamos
    -Os arquivos nunca serão abertos, Dilma deixou isso claro ao manter o Jobim e teve a cara-de-pau de ir visitar as Mães da Praça de Maio sem que tenha o mesmo respeito pelos grupos de vítimas daqui
    -Retrocessos na política anti-drogas, com a criminalização do pequeno traficante ao invés de re-socialização
    -Insistência em Belo Monte
    -Elevação da taxa de juros como primeira medida econômica
    -Como você disse, o absurdo corte do orçamento
    -Salário Mínimo bem mínimo

    Quanto ao que vocÊ alencou como positivo, eu só vejo o Bernardo falar em PNBL, em regulara mídia mas é só isso, promessas, palavras. O PNBL, aliás, ele já entregou pra Telefônica, não via mais ser universalização, mas preço menor em algumas áreas, tudo com o gov pagando e depois as Teles faturando. O PT privatizou o PNBL antes mesmo de começar.

    Honestamente? Eu não vi nenhum avanço em Dilma, só retrocessos. A opção era Serra, não tinha como não votar na Dilma, mas me envergonho do meu voto.

    Espero que esse arrependimento não dure 4 anos.

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