Os cinco anos de Twitter e a confusão do jornalismo

Cinco anos atrás Lula ainda estava em seu primeiro mandato e a oposição acreditava em uma vitória nas eleições de outubro de 2006 crente que a influência do mensalão derrubaria as pretensões de reeleição de Lula. Dilma, então, mal era apontada como uma possível sucessora. No RS, nem se cogitava a possibilidade de o PSDB eleger o furacão Yeda, que em seguida começou a devastar o estado. Eu estava começando o segundo ano de faculdade, tinha um blog ainda incipiente e errático. A blogosfera ainda era, para mim, um conceito em construção, muito mal definido.

Em 21 de março, o Twitter, por incrível que pareça, completou cinco anos. Confesso que em 2006 eu ainda sequer sabia da existência do microblog. Praticamente tudo mudou em cinco anos, ao mesmo tempo em que tudo continuou exatamente no mesmo lugar, do mesmo jeito. A tal da relatividade do tempo.

O jornalismo brasileiro continua a mesma merda, mas a forma de fazê-lo se transformou. Fazer apuração para TV ou rádio, escrever matérias, seja para impresso ou internet, já não basta. O conceito de multimídia tomou conta, incorporando ainda mais meios. As redes sociais se tornaram moda, e dominá-las parece o suficiente para se destacar na profissão. Como se a forma importasse mais que o conteúdo.

Nos cinco anos do Twitter, o Knight Center for Journalism in the Americas escreveu que o microblog, “em sua curta existência, revolucionou não somente a comunicação, como também o jornalismo, com notícias instantâneas e curtas“. Mais adiante alerta para o outro lado: “também já contribuiu para que alguns repórteres fossem despedidos e até presos, gerando questionamentos sobre a liberdade de expressão e o papel do Twitter no jornalismo“. Como exemplo, lembra que “Octavia Nasr, uma jornalista com 20 anos de experiência na CNN, foi demitida em julho de 2010 por um comentário no Twitter sobre um líder do grupo palestino Hezbollah”

Não só no Knight Center, mas em grande parte das análises sobre o papel dos blogs, das redes sociais e de todas essas ferramentas que implicam em questionamentos sobre a linguagem e a forma de fazer jornalismo acontece uma confusão entre entre conteúdo e meio.

O Twitter é apenas um meio de divulgar conteúdo, que pode ser bem ou mal utilizado, como, em geral, qualquer mídia. O fato de uma jornalista ter sido demitida pelo seu comentário mostra que a CNN não sabe lidar com opiniões contrárias, ou que o limite entre a opinião pessoal do jornalista e a informação que ele veicula e em que meios ele deve fazer cada uma das coisas está em aberto. Mas isso quem faz não é o Twitter, é o jornalismo, são as pessoas por trás do Twitter, da CNN, de cada veículo de comunicação.

O jornalismo está sofrendo enormes transformações, e grandes erros são e serão cometidos pelo caminho. Alguns por mau-caratismo, outros por inexperiência e dificuldade de lidar com as novidades que surgem. Simplesmente, por não saber como agir diante de uma situação totalmente nova. Isso quem faz somos nós. As ferramentas de que dispomos podem ser boas ou ruins, úteis ou não, mas são apenas ferramentas – sem reduzir sua importância para a eficiência na transmissão de conteúdo, mas o conteúdo transmitido é de responsabilidade nossa.

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