Quando toda a imprensa se rende a uma fofoca…

Até entendo a curiosidade das pessoas com a vida alheia. Psicologicamente, sei que há explicação, e que o desconhecido torna-se próximo através das lentes da televisão, mesclando-se com as vidas reais da nossa convivência cotidiana. Mas uma coisa é ver como curiosidade, outra é o assunto – no caso o casamento real do príncipe britânico – dominar o noticiário no Brasil. Porque daí entramos no debate sobre o papel da imprensa.

O jornalismo tem como fim o interesse social. Não importa se público, privado, concessão pública ou qualquer outro tipo, jornalismo é um serviço com um princípio ético de atender os cidadãos. Dentro dessa ética existem critérios de noticiabilidade, e um deles é a relevância social do assunto. A fofoca e o “jornalismo de celebridade” até podem existir, ainda que inúteis, mas definitivamente não ocupam espaço de destaque na mídia.

Jornalistas que se dizem sérios, aliás, refutam a ideia desse tipo de trabalho. Mas esses mesmos agora se entregam para a cobertura massiva e exagerada do casamento do príncipe da Inglaterra com uma plebeia, se é que esses conceitos ainda têm lugar na nossa sociedade atual. Agora têm a desculpa de que se trata da monarquia inglesa para tratar exaustivamente da vida pessoal de duas pessoas, que em nada vai afetar os cidadãos do mundo e, de forma especial, os brasileiros. A desculpa é, pois, furada. No fim das contas, nada mais é que fofoca.

Vejamos…

– O casamento não vai trazer consequências políticas ou econômicas para o Brasil enquanto nação ou para seus cidadãos diretamente;

– Pelo caráter figurativo da monarquia britânica, o casamento real não vai trazer consequências sequer para o cenário político mundial, europeu, quiçá inglês, além do impacto nos cofres públicos com o gasto da cerimônia – que não se refletem na economia mundial;

– A monarquia – quando de fato exercida – é uma forma de governo autoritária, antidemocrática e ultrapassada, que não teria mais lugar na sociedade contemporânea, rejeitada pela sociedade na medida em que ela não cogita abrir mão da sua democracia;

– Quando não é de fato exercida, a monarquia, com toda sua pompa e falsidade, é apenas ridícula;

– De quebra, essa função toda – da forma com que foi abordada – ainda reforça e estimula uma visão conservadora e machista de família tradicional, em que a mulher – bonita, magra e certinha – sonha com um príncipe perfeito, bonito, rico, bom, poderoso e sem defeitos. Realidade absolutamente distante daquela da grande maioria do povo, não apenas no Brasil.

Juro, não é implicância. Até aceito a divulgação da história como curiosidade, já que não temos como influenciar no sistema político britânico e acabar com a monarquia em nome de uma efetiva e verdadeira democracia. É que eu realmente não consigo entender a transmissão ao vivo do casamento, um Globo Repórter inteiro só para o tema e mais tantos outros programas e partes de programas supostamente jornalísticos tratando de algo tão distante da nossa realidade geográfica, social, política e econômica.

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