Famílias aguardam a dignidade chegar

No Centro de Porto Alegre, um apartamento de 250 m² custa mais de R$ 600 mil, para uma família de quatro, cinco, talvez seis pessoas. Em Igrejinha, na Região Metropolitana, quase na Serra gaúcha, a cerca de 80 km de Porto Alegre, umas 50 pessoas de 14 famílias dividem um galpão de cerca de 240 m² no loteamento Acácias, invadido. São os remanescentes da chuva que destruiu diversas casas em janeiro de 2010.

Naquela época, 50 famílias ficaram desabrigadas. Destas, 36 dispersaram; foram para a casa de parentes ou deram algum outro jeito improvisado. Qualquer jeito é melhor do que a vida que aquelas pessoas levam ali.

Divisórias improvisadas isolam os cubículos de cada família. Um banheiro feminino e um masculino são a infraestrutura sanitária de que dispõem.

Não há dignidade nessas condições.

Agora, as 14 famílias que não encontraram alternativa vivem sob a ameaça de despejo a qualquer momento. A solução possível seria a doação de um terreno para a construção de habitações decentes, o que poderia contar com financiamento do governo federal. O imbróglio fica por conta da prefeitura, que quer tirá-los da provisória e péssima situação atual sem oferecer alternativa.

Já foi avaliada a possibilidade de o governo estadual ceder uma terra, mas não há nenhuma na região. A solução, simples e não muito cara, estaria nas mãos do município.

É realmente deprimente. Da janela dos cubículos de trás se enxerga o esgoto correndo aberto, quase colado na construção precária. Por ali passam os dejetos daquelas famílias e os da escola do terreno vizinho. Por ali andam descalças as crianças mais novas que ainda não sabem o que é ter um lar. Ali correm as doenças, a sujeira e a humilhação.

Eles não são vagabundos, como diria facilmente o preconceito popular. Eles são, em sua maioria, trabalhadores da indústria calçadista, que se destaca em todo o país pelas fábricas bem-sucedidas produzindo para o mercado interno e para exportação. O trabalho ali está sobrando, pleno emprego. Pleno subemprego. Os salários são baixos, a qualidade de vida daquelas famílias é pouca.

Já não têm mais nem Bolsa Família. Segundo Elias, um dos desabrigados, o município argumenta que as crianças faltaram a escola, que não compareceram à pesagem. Ele garante que não é verdade, e que está sendo cobrado que adolescentes de 17, 18 anos sejam pesados para fornecer o auxílio à família.

Elias tem sete filhos, uma escadinha que vai dos quatro aos 17 anos. Em outubro do ano passado, quando foram despejados do outro terreno em que estavam, ficou três dias acorrentado na praça de Igrejinha para pedir uma alternativa. Ela veio, mas é indigna e não deve durar.

Joceli de Oliveira Garcia, que lidera as reivindicações do grupo, pede ajuda, porque “por aqui por baixo (sem algum político para intervir) está feia a coisa”. Ali só se vê tristeza e angústia.

Como no meio rural, também na cidade a distribuição do espaço é injusta e não obedece a sua função social.

Famílias aguardam a dignidade chegar

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