Pronto, a imprensa derrubou Palocci

Não, não defendo o Palocci. Na verdade, não gosto dele, nem política nem pessoalmente. Mas é impossível não considerar, na articulação que levou a sua queda da Casa Civil, que algo de muito errado aconteceu.

Em primeiro lugar, a presunção de inocência, direito de qualquer cidadão, foi completamente ignorada. Não que isso não fosse esperado, conhecendo nossa imprensa. Mas a orquestração para derrubá-lo foi muito além de qualquer limite.

A torcida pela sua queda misturava-se com a pressão para que ela acontecesse, a ponto de ser impossível detectar onde terminava uma e começava outra. A partir de determinado momento, ninguém mais questionava se Palocci tinha ou não culpa no cartório. A pergunta geral que se ouvia na imprensa – e tomo como exemplo Lasier Martins, na rádio Gaúcha, emissora do grupo RBS – era quanto tempo ele resistia no cargo. Ou seja, já estava definido, não pelo governo, que ele cairia; a única dúvida era quando e como.

O caso serviu também para desgastar fortemente a imagem de Dilma. Não que o governo tenha contribuído, com sua falta de ação diante da iminente crise forçada e de certa forma também forjada – já que a proporção que o caso tomou vai muito além da sua real dimensão. Mas a crítica à presidenta exacerbou-se pelo lado errado. Quase não se dizia que ela era conivente, mas se enfatizava que ela não tinha comando, que Lula havia tomado as rédeas, que os brasileiros não gostavam e não queriam isso. Ouvi esse comentário do mesmo Lasier e de tantos outros, como se sua opinião representasse a de todos os cidadãos e cidadãs do país. Em uma clara tentativa de torná-la, isso sim, a opinião do povo. O velho papel, cada vez menos eficiente, de formador de opinião.

Não se questiona o papel da mídia de apontar erros, crimes ou qualquer outro problema e cobrar explicação. O que incomoda é a forma de fazê-lo e o critério. Na verdade a falta de critério, que faz com que o tratamento seja completamente diferente a depender do partido no governo.

Nesta história toda cansa também a notícia pronta de antemão. Foi assim que a imprensa definiu que a sucessora de Palocci seria a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ou a diretora da Petrobras Maria das Graças Foster, com alguma pequena chance de o escolhido ser o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. No fim, deram com os burros n’água, e Dilma escolheu a senadora Gleisi Hoffmann.

Não que não tenha sido engraçado. Todos batendo na mesma tecla, num uníssono que já cansou há tempos, para serem todos desmentidos depois. A notícia estava pronta, mas não era de verdade. Para completar, analisava-se o perfil de Miriam Belchior e Maria das Graças Foster como “gerentonas”, sendo cada uma delas uma perfeita “Dilma da Dilma”. Notícia repetida e cansativa, forjada apenas para criticar o estilo da presidenta, já que se comentava que nenhum ministro queria duas dilmas, que ninguém agüentaria.

No fim, não foi nenhuma das duas. Mas qual a legenda para a foto de Gleisi na capa da Zero Hora de hoje? “A Dilma de Dilma: Gleisi Hoffmann será uma técnica na Casa Civil”. Pelo menos a gente se diverte…

Seguem alguns poucos exemplos…

http://twitter.com/#!/BlogdoNoblat/status/78110619152285696

http://twitter.com/#!/andrelmachado/status/78077218206650369

http://twitter.com/#!/rosaneoliveira/status/76796748722479104

http://twitter.com/#!/cristilobo/status/77887348758675457

http://twitter.com/#!/reinaldoazevedo/status/78169168167436289

P.S.: Com a notícia de que Gleisi Hoffmann ocuparia a Casa Civil, imediatamente me ocorreu questionar quanto tempo levariam os comentários machistas. A resposta veio rápido demais. Uma breve olhada no perfil de Reinaldo Azevedo no Twitter é suficiente.

Pronto, a imprensa derrubou Palocci

4 comentários sobre “Pronto, a imprensa derrubou Palocci

  1. Infelizmente, para o governo e para o país, foi preciso pressão da imprensa golpista para a queda do Palocci. Sei que não é simples, mas teria sido melhor se Dilma tivesse demitido o ministro logo no início das denúncias, e com todo o espalhafato possível. Aliás, teria sido perfeito se ele não tivesse sido escolhido ministro. Enfim, já foi tarde. Bola pra frente, Dilma!

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  2. Erik Bulhões disse:

    Realmente, a imprensa derrubou o Palocci.
    Mas faz isso ao descobrir os rolos nos quais ele estava metido, e não pela pressão por sua acertada demissão. Francamente, alguém acredita que ele ganhou honestamente aquele dinheiro todo (que é só a ponta do iceberg, obviamente), com base nos fabulosos ensinamentos sobre finanças corporativas e macroeconomia que aprendeu na faculdade de Medicina? E não me venham com a conversa fiada de que ser Ministro da Fazenda transforma alguém, por si só, em mago da economia. É claro que agrega bastante conhecimento, mas o principal papel do Ministro da Fazenda é dizer NÃO aos (cada vez mais) numerosos órgãos públicos que querem gastar o dinheiro do contribuinte com besteira, liberando os recursos a conta-gotas e só para os programas que, em tese, realmente beneficiam a sociedade. Precisa de um doutorado em Yale para fazer isso? Não. Precisa é de articulação política, capacidade gerencial e saber jogar duro quando for preciso, coisa que o Palocci tem de sobra.

    Com relação à presunção de inocência, ela vale apenas para os processos criminais. Nos demais casos, vale a lógica oposta: na dúvida, pró sociedade. Se for levar em conta apenas o que foi provado, o Collor teria terminado seu mandato. Eu era muito jovem na época, mas sempre me falaram que, provado mesmo, só houve uma Fiat Elba comprada com recursos desviados, tanto é que nem preso ele foi (pois para prender alguém, precisa provar com absoluta certeza que o sujeito praticou o crime, o que é muito difícil de comprovar em um político), somente sofreu a condenação política. E por que? Porque foi o único governo desde a redemocratização a não contar com o PMDB em suas fileiras.

    Sinceramente, fiquei decepcionado com a atuação de nossos órgãos de controle. O Congresso Nacional se mostrou totalmente submisso ao governo. O Procurador-Geral da República se omitiu, manobrando juridicamente para garantir o arquivamento da representação para garantir sua reeleição (e falavam do Geraldo Brindeiro, o famoso Engavetador-Geral da República do governo FHC). A Controladoria-Geral da União demonstrou estar totalmente subordinada aos interesses políticos, mostrando, mais uma vez, que somente combate criminosos pequenos.
    Restou apenas a imprensa para ajudar a fazer valer a vontade da sociedade. E bastou. Pena que teremos que ler por muitos meses inúmeros jornalistas frustrados e/ou ativistas falando sobre “o PiG”, a “imprensa golpista”, “conspiração dazelite” etc. É um saco mas vale a pena.

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  3. Por que Palocci?

    Antonio Palocci caiu por falta de apoio político. Sua nomeação equivocada para um cargo estratégico, a resistência de setores influentes do PT e a inabilidade no trato com a base aliada selaram seu destino desde muito cedo. A disputa pelos cargos nos diversos níveis governamentais, as derrotas do Planalto em votações polêmicas e os preparativos para as eleições municipais de 2012 apressaram o desfecho do imbróglio. O enriquecimento do ex-ministro serviu apenas como o pretexto “republicano” que faltava ao discurso dos adversários.

    Se houvesse lídima preocupação ética no debate, o público já saberia que a lista dos misteriosos clientes de Palocci envolve financiadores da própria mídia corporativa e de muitas campanhas eleitorais, inclusive de petistas célebres. A imprensa oposicionista, que num passado recente se chocou diante de certos “dossiês”, elucidaria o vazamento nebuloso dos dados que fundamentaram as acusações. E a curiosidade acerca do crescimento patrimonial alheio provocaria uma febre de estudos comparativos sobre centenas de parlamentares, ministros, governadores e prefeitos.

    Por que apenas Palocci deve tais explicações ao eleitorado? A esquerda precisa que a Folha de São Paulo alavanque seus escrúpulos morais? Vamos investigar, companheiros?
    É impossível aceitar a idéia de que os fundamentos do Direito não cabem no universo político. Mesmo que a presunção da inocência pareça irrelevante para o caso específico, a rapidez com que ela foi desprezada revela apenas um autoritário pendor para o linchamento e nenhum anseio real de justiça. É o pior exemplo que o STF poderia conseguir às vésperas de julgar os acusados do tal “mensalão”.

    Questionar a fragilidade e o oportunismo dos ataques a Palocci não significa defendê-lo. Em vez de refugiar-se nas acusações de patrulhamento ideológico, a blogosfera que ajudou a fritá-lo poderia ao menos evitar o maniqueísmo reducionista dos veículos tradicionais.

    http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

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  4. Cleberson Silva disse:

    Acreditar que a imprensa tem o poder de derrubar ou erguer alguém é o mesmo que acreditar que revistas como Placar, Trivela e outras sobre futebol têm o poder de decidir o resultado de um campeonato.

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