cooJORNAL: imprensa sem patrão

Interessante como, desde 1973, quando começou a circular o cooJORNAL, tanta coisa mudou e outra tanta continuou rigorosamente igual. A capa do primeiro número da publicação dizia: “O jornalista entre a sua ética e os interesses da empresa”. Nada mais atual.

Foi essa atitude combativa e corajosa que marcou a história do cooJORNAL, “um jornal de jornalistas sob o regime militar”. É essa forma diferente de todas as outras no Brasil de fazer jornalismo. De questionar. De falar sobre qualquer coisa. Que todo o resto não faz.

“O que se tentou fazer foi criar uma imprensa sem patrão”, disse o chargista Edgar Vasques no documentário que resgata a história da cooperativa de jornalistas e de seu jornal e que foi apresentado ontem à noite, em Porto Alegre, pouco antes da sessão de autógrafos do livro que faz parte do mesmo projeto.

Na verdade, o cooJORNAL era aquilo que eu e meus colegas passamos a faculdade inteira pensando em como fazer. Uma publicação de gente comprometida com a notícia, com o jornalismo, com a sociedade. E que, ainda por cima, reúne um time de muito talento fazendo aquele jornalismo de fundo, da grande reportagem, de fôlego. Tudo articulado com humor, fotografia. A coisa completa. E humor e fotografia reinventados, feitos de um jeito mais humano.

O cooJORNAL repensou a relação com a informação e a forma de transmiti-la, pelo texto, pela fotografia, pela ilustração, pela poesia, pelo humor… Em um contexto de censura, de ditadura. Ele fez aquilo que ninguém mais fazia. Fez jornalismo. Porque, como disse o jornalista Elmar Bones, no Brasil são cinco ou seis grupos que produzem a informação que o resto quase todo repercute. Estes grupos estavam, ainda segundo Elmar, o Bicudo, estavam sempre de acordo, e havia uns jornais pequenos que furavam com esse esquema.

Isso não é pouco. A publicação chegou a ter cerca de 100 profissionais, que publicavam o que grandes veículos não ousavam.

O grande problema é que os grandes não gostavam disso. E o governo – a ditadura militar – também não. É quase unanimidade que o cooJORNAL talvez tivesse resistido até hoje não fossem as investidas da ditadura, que ameaçou anunciantes, processou o jornal, ameaçou colocar bombas em bancas que vendessem veículos alternativos – e em alguns casos botou mesmo – e tanto mais.

Não é um saudosismo barato, de achar que tudo no passado é melhor do que é hoje. No meu caso, é um saudosismo do que eu nunca vi. Fiz jornalismo porque achava tudo o que via nos meios de comunicação ruim demais. Depois, a gente perde um pouco do romantismo e vê que é mais difícil transformar a realidade do que se pensava. Mas sobrevive a ideia de que bom jornalismo existe. Pode ser dificíl, mas não impossível, como mostrou o cooJORNAL

Foto: Capa da edição número 1 do cooJORNAL.

O livro “CooJORNAL: um jornal de jornalistas sob o regime militar: reportagens selecionadas” é editado pela Libretos e organizado por Rafael Guimaraens, Ayrton Centeno e Elmar Bones. E inclui um DVD com o documentário.

cooJORNAL: imprensa sem patrão

2 comentários sobre “cooJORNAL: imprensa sem patrão

  1. Dudu Guimaraens disse:

    Cris, queria ter estado no lançamento para rever meus colegas coojornalistas. Pois é na faculdade naquele final da década de 70 a gente sonhava em ser donos do nosso próprio nariz e de certa forma conseguimos por algum tempo. Fico feliz de ter participado. Ainda que na Famecos tenha tido bons professores como o Antoninho, o Bendatti e o Capparelli,. foi na casa da Comendador Coruja que aprendi com Trindade, Bicudo e outros tantos o que era fazer um jornal.

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