Zero Hora dá um olé nos fatos

Matéria da Zero Hora deste domingo (disponível para assinantes) faz uma curva pelos fatos, dá uma ajeitadinha para que a história fique um pouco mais interessante e conveniente. A página 8 diz no título que “Folga de Tarso gera polêmica”.

O texto já começa com uma maldade na primeira frase: “Com menos de seis meses de mandato, o governador Tarso Genro passou a maior parte da semana passada de folga em Madri, na Espanha”. Não é essa a matéria que o título anuncia. Segundo os critérios objetivos de notícia, que a Zero Hora costuma dizer seguir, o lead (abertura da matéria) deve conter a questão central que está sendo noticiada, o “o que”, “quando”, “quem”, “onde” e “como”. Não é isso que está sendo mostrado aqui.

Mas o olé nos fatos vem logo mais. Ao longo do texto, diz que “o PT criticou duramente a ex-governadora Yeda Crusius quando ela visitou o filho nos Estados Unidos”. Como mostrou a própria Zero Hora em 11 de abril de 2009, o cerne da polêmica girava em torno da não-transmissão do cargo durante a viagem, já que Yeda não dialogava com praticamente ninguém, nem com seu vice, Paulo Feijó (que também estava viajando, mas que certamente cancelaria o passeio para assumir o Piratini) e muito menos com o presidente da Assembleia, o petista Ivar Pavan.

Ou seja, a polêmica não é a mesma. Em 2009, não houve questionamento sobre o fato de a então governadora viajar a passeio durante o exercício do mandato. E uma viagem exclusivamente de turismo, ao contrário da de Tarso, que tirou uns dias de folga entre importantes compromissos de trabalho. A polêmica de dois anos atrás não existe hoje: o governador tem um ótimo relacionamento com seu vice, Beto Grill, em quem confia e a quem transmitiu o cargo sem qualquer tipo de constrangimento ou pé atrás.

No texto feito pelo mesmo jornal quando da viagem da ex-governadora, não dizia que ela “durante os dias de folga, assistiu a cinco filmes, fez caminhadas diárias e manteve contatos com a esquerda espanhola”. Se a viagem a turismo fosse algo de se questionar, o caso de Yeda seria um pouco mais grave, já que Tarso aproveitou para fazer política, que indiretamente pode até beneficiar o estado.

Zero Hora planta uma contradição no PT que não existe. E o faz com extrema maldade na escolha das palavras, querendo mostrar que o governador está lá curtindo a vida sem fazer muito caso do que acontece no estado. Neste caso, o partido de Tarso não foi incoerente, não fez no governo o que criticava na oposição.

Pluralidade?

E ainda nem entramos no mérito da diversidade de fontes, a tal pluralidade. Em 2009, o jornal consultou o presidente da Assembleia, Ivar Pavan, o secretário da Fazenda, Ricardo Englert, a assessoria do vice-governador, Paulo Feijó, o secretário do Planejamento, Mateus Bandeira, o chefe da Casa Civil, José Alberto Wenzel, o líder de bancada Elvino Bohn Gass (PT), o deputado Adão Villaverde (PT), o senador Pedro Simon (PMDB) – entrevistado na qualidade de ex-governador -, e o também ex-governador Alceu Collares (PDT), nesta ordem. Comentou ainda que Germano Rigotto, outro que ocupara o Piratini, não quis opinar.

No texto deste domingo, os entrevistados foram o líder da bancada do PSDB, Jorge Pozzobom, o líder da bancada do PMDB, Giovani Feltes, e o deputado Frederico Antunes (PP). Todos da oposição. Uma retranca, no pé da página, dá a posição de Tarso. Mais uma vez, tratamentos diferentes e a criação forçada de uma polêmica.

Zero Hora dá um olé nos fatos

Um comentário sobre “Zero Hora dá um olé nos fatos

  1. João Volino Corrêa disse:

    Oi Cris,

    Tempos atrás me ocorreu de propor a campanha Ombudsman Já na ZH, logo depois de saber de uma amiga que o tal “Conselho de Leitores” criado para dar uma ar de “a gente se preocupa com o que pensam do que a gente publica” era repleto de mimosuras com finalidade de promover lavagem cerebral com gosto de democracia marketeira, ao sabor de lanchinhos e sucos mil.

    Bem que agora, com o Cloacinha, o Diário Gauche e o RS Urgente, além de ti e dos muitos blogueiros, essa campanha poderia provocar esse patranha metida a democrata e moderninha, no mínimo, a ter que responder porque não adotam essa política de auto-crítica, de fato, ao invés de paparicar leitores pra aliciar consciencias coletivas.

    Abraço

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