Um diálogo estratégico

Um dos desafios do Fórum Internacional de Software Livre (Fisl) e da comunidade do software livre de um modo geral é abrir seu nicho, ampliar o debate e o conhecimento para o público em geral. A filosofia do código aberto, do livre compartilhamento de dados, é bonita pelo seu caráter de solidariedade. Mas a parte técnica assusta um pouco o público não acostumado com sua linguagem e sua complexidade.

Participei do Fisl pela primeira vez este ano, em sua 12ª edição, que acontece de 29 de junho a 2 de julho em Porto Alegre. Confesso que este não é exatamente meu chão. Não conheço programação e não domino nenhum tipo de formato e linguagem de desenvolvimento de software. Como blogueira participante de encontros de blogueir@s e militante pela democratização da comunicação, tenho sentido falta de me apropriar um pouco do conhecimento e do debate da ideologia e da tecnologia do software livre. As atividades – blogs e desenvolvimento de software livre – se complementam, dialogam entre si; ou pelo menos deveriam.

Na prática, os públicos, salvo algumas exceções, são bem diferentes, e os debates, também. Mas os objetivos sociais são semelhantes. Ambos partem da – e para a – mesma concepção de pluralidade e transparência. Mas os debates de blogueiros abordam um conteúdo mais político, até porque criar e manter um blog não exige nenhum conhecimento técnico específico muito aprofundado, é mais fácil; o blog se baseia essencialmente no conteúdo.

O debate do software livre, por outro lado, foca mais na plataforma, no que está por trás do conteúdo. Também há um fundo político no que se discute. Afinal, há a ideologia da liberdade e da solidariedade que o sustenta. Mas o debate é muito mais técnico e específico; por isso, apesar de reunir milhares de pessoas e ter uma militância bastante forte, sinto que há dificuldade em dialogar.

Em nenhum momento coloco em lados opostos os movimentos de blogueiros e de hackers do software livre. Não crio uma rivalidade – que não existe – nem critico um ou outro. Eles são diferentes, mas não se contrapõem. Ambos são importantes e complementares; por isso devem dialogar.

Meu objetivo, ao participar do Fisl, não é de virar programadora ou dominar o conteúdo debatido aqui. Até porque é um conteúdo muito especializado, e não é com a participação em um evento que vou me apropriar dele. Aliás, devo dizer que admiro a capacidade do pessoal que está aqui. Minha tentativa é tentar compreender um pouco este mundo para pouco a pouco aproximá-lo do meu – ou vice-versa. Aproximando-nos, podemos ajudar a ampliar o debate, dos dois lados, e torna-lo mais atraente para quem vê de fora. A ideia é construir uma ponte para um debate comum, respeitando as especificidades de cada um, que fortaleça a luta pela democratização da comunicação e pela liberdade do conhecimento.

——

Obs.: Espero não ter errado nenhum termo 😉

P.S.: Espero em breve conseguir comentar o ótimo debate do Governo Escuta durante o primeiro dia de Fisl.

Um diálogo estratégico

Um comentário sobre “Um diálogo estratégico

  1. Ismael disse:

    Oi Cris. Muito bom abordar esse assunto.

    No início do ano assisti, por vídeo, uma palestra do Eben Moglen, que está tocando o projeto FreedomBox(uma espécie de mini servidor portátil que evita filtros de regimes ditatoriais).

    Nesse vídeo ele lembrava que o o movimento de Software Livre hoje praticamente conseguiu todos seus objetivos iniciais: Oferecer alternativas livres a toda necessidade existente (salvo alguns poucos casos, como ele mesmo lista).

    E depois ele mostrou que os desafios mudam, e focou justamente nesse diálogo. Que nós, me incluo por ser formado em computação ainda que com atuação modesta no Software Livre, temos esse desafio: Dialogar, mostrar como o que se criou é de qualidade, superior muitas vezes, e facilitar o uso, a divulgação. Tornar mais palatável.

    Mostrar os perigos que depender de redes como Facebook e Twitter, por obedecerem a leis americanas, oferecem. O desafio cada vez mais deixa de ser técnico.

    Cris, no mais, muito bom o teu texto. Só acho que, até por não conviver, e ser complicado realmente, não descreveu bem os grupos.

    O público do FISL poderia se dividir em quem apoia e defende o Software Livre, e o Código aberto.

    A diferença? Todo Software Livre é também aberto, é um pré-requisito. Mas nem todo Código Aberto é livre. Deveria ser, mas algumas empresas distorceram o conceito de Código Aberto, retirando o máximo possível o caráter de liberdade afim de explorarem os benefícios técnicos sem necessitar de compromisso algum com a comunidade que desenvolveu o produto.

    Pois bem, esse público do Software Livre propriamente dito, que tem como maior representante o Richard Stallman está praticamente alinhado com tudo que os blogueiros “sujos” defendem.

    Stallman já declarou que a própria Free Software Foundation (FSF) engana por ter Software no nome. Que o objetivo principal é Liberdade. O Software seria a ferramenta.

    No próprio FISL existe uma trilha com palestras de depoimentos, troca de experiências e foco na liberdade.

    No mais, eu penso que ao menos a história da FSF, do GNU, do Linux ou o mais recente Firefox servem de inspiração mesmo sem entrar em técnica.

    De idealizações e utopias(na época) essa gente continuou trabalhando em cooperação mundial. Uma revolução que deu e dá certo sem violência e chegou em um ponto de ameaçar gigantes. Atinge até alguns efeitos inesperados como atrair para trabalho cooperativo algumas das outrora “inimigas”, corporações gigantescas.

    É realmente inspirador.

    Fica como sugestão entrevistar o Alexandre Oliva, da FSF LA (América Latina).

    http://www.fsfla.org/~lxoliva/

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