O jornalismo e a história por trás do fato

Um tempo atrás, eu costumava me dedicar exclusivamente à análise de imprensa nessas minhas incursões internéticas. Geralmente, pegava um caso de um grande jornal, daqueles bastante vendidos, ou de um canal de TV assistido por uma boa fatia do povo no Brasil, ou coisa do gênero, e o comentava. Hoje me dedico bem menos a esse gênero de análise, mas às vezes aparecem coisas inesperadas. No caso que quero contar, uma boa surpresa.

Leio sempre o RS Urgente, porque gosto. Mas hoje vi um texto especial, do João Maneco, que contava uma história. No começo, quase um conto, com linguagem literária. Mas o conteúdo era jornalístico, e dos bons.

Maneco deu uma cara de gente a uma cerimônia tratada costumeiramente de forma burocrática. É difícil ver criatividade no jornalismo diário quando trata de atos de governo. Ontem, no lançamento do “braço gaúcho do programa Brasil Sem Miséria que, no Rio Grande do Sul, vai se chamar RS Mais Igual”, ele viu a história por trás do fato. Entendeu que o programa não é só um nome, que um dia vai gerar números, que serão citados por jornalistas, governo, cientistas políticos e quem mais quiser avaliar as estatísticas da redução da miséria no país.

Maneco viu que o que está por trás é gente. E que a história que estava ali na sua frente traduzia tudo. Ele encadeou as palavras de forma a nos orientar por caminhos do passado e do presente que dão a exata dimensão do momento. O nome disso? Jornalismo. E dos bons.

O texto é este aqui:

Por Tales, Tereza e Suzana

Por João Maneco, publicado originalmente no RS Urgente

Tales Cassiano Mença da Cruz sonha ser músico. Percussionista. O que ele, nos seus míseros 10 anos, ainda não sabe, é que o sonho já foi realizado. Sim, Tales já é um músico. E dos bons. Hoje à tarde, em pleno Palácio Piratini, com um público formado por altas autoridades, uma ministra, um governador, deputados, tal e coisa, Tales não errou uma só batida nos pratos que, na Orquestra Villa-Lobos, estão sob sua responsabilidade. E olha que o repertório não era pra qualquer um. Melodias marciais dos hinos Nacional e Rio-Grandense, duas ou três peças clássico-populares de Heitor Villa-Lobos e um samba de Gonzaguinha. Para completar, ainda ofereceram a Tales a companhia de um ator global que fazia uma leitura dramática enquanto ele tocava. “Lá vai o trem com o menino, lá vai a vida a rodar. Lá vai o trem sem destino, pro dia novo encontrar” declamava Werner Schunnemann ao som dos pratos de Tales.

Talvez por não se dar conta de que o menino podia ser ele, de que a falta de destino podia ser a pobreza em que ele vive, e nem que o dia novo pode ser a vitória sobre a miséria, Tales não se abalou.

É, Tales ainda não sabe, mas pouquíssimos são os músicos que conseguiriam tocar e vivenciar tudo isso sem estarem absolutamente concentrados. Pois ele tocou sorrindo, com expressão levíssima, pouco se importando se o cenário de seu espetáculo reunia obras de artistas do porte de Aldo Locatelli, Paul Landowski e Vasco Prado; muito menos se as soleiras e os rodapés foram esculpidos em mármore de Carrara. O que Tales já sabe, e isso todos nós que o assistíamos também ficamos sabendo, é que ele adora tocar seus pratos. E não importa se isso acontece na Vila Mapa, onde ele nasceu e ainda mora, ou num palácio.

Tales, acho que já disse, tem só 10 anos. Mas há três ele começou a freqüentar a oficina de percussão da escola pública Villa-Lobos onde sua mãe, Maria José, ganha a vida como faxineira. Ele tem dois irmãos um pouquinho mais velhos que também integram a orquestra. E o pai, Lisandro, faz bicos como auxiliar de pedreiro. É assim que a família Mença da Cruz vai vivendo seus dias numa das regiões mais pobres da periferia de Porto Alegre.

O ato que Tales transformou numa cerimônia comovente hoje à tarde, era o lançamento do braço gaúcho do programa Brasil Sem Miséria que, no Rio Grande do Sul, vai se chamar RS Mais Igual. Sim, quando foi eleita, a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff impôs a si mesma e ao país, um desafio grandioso: erradicar a pobreza absoluta, ou seja, fazer com que meninos pobres como Tales, encontrem como ele, um sonho para dar sentido à vida.

O Brasil Sem Miséria é o principal instrumento criado para alcançar este desafio. É um programa que está sob a coordenação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome que, não por acaso, é comandado por Tereza Campello, uma mulher que, segundo disse o governador Tarso Genro na cerimônia de hoje à tarde “não é apenas um quadro político qualificadíssimo, mas um exemplo de militante humanista radical”.

Tereza é paulista, mas viveu boa parte de sua história política no Rio Grande do Sul. Quando foi chamada a se manifestar, não escondeu que estava emocionada. Por ver Tales, por estar de volta a uma terra que ama, a um palácio que freqüentou nos tempos em que assessorava o Governo de Olívio Dutra e à cidade onde moram alguns dos seus melhores amigos. Tereza chorou. Elegante e discretamente, mas chorou. Chorou ao citar a amiga Suzana Lisboa, que hoje completa 50 anos a mais do que Tales e que é símbolo de uma luta que, como a da pobreza, ainda não está acabada. Suzana era casada com Luiz Eurico Tejera Lisboa, seqüestrado, torturado e morto pela ditadura militar. E, como Tereza, ela luta para fechar algumas chagas que fazem do Brasil um país incompleto. Tereza luta contra a injustiça da concentração da renda nas mãos de uns poucos, o que faz com que tenhamos, ainda, 16 milhões de pobres absolutos.

Suzana luta contra a injustiça do não acerto de contas com a memória dos que deram a vida pela liberdade.

É, o Piratini hoje à tarde foi pura emoção. Com a arte de Tales, a saudade e as lutas de Tereza e Suzana. Foi assim que o Rio Grande do Sul assumiu hoje um o compromisso histórico de erradicar a pobreza absoluta. Quem estava lá saiu convencido: Tereza, Suzana e Tales, merecem ver este compromisso cumprido. Afinal, como dizia a música que os alunos da Vila Mapa tocaram no encerramento, a vida é bonita, é bonita e é bonita.

Foto: Caco Argemi (Palácio Piratini)

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