A democracia (?) britânica

Meu professor de inglês em Londres contava hoje que o governo britânico tem o maior banco de dados de DNAs do mundo.

Como? Ele conta uma historinha: um dia, quando era mais guri, protestava contra a globalização no centro de Londres. A polícia cercou o grupo por sete horas. Só saía quem desse uma amostra de DNA. Nesse meio tempo, ficaram sem comida, sem água, sem banheiro.

Desde antes dos atentados terroristas de uma década atrás, a polícia do Reino Unido pode prender e colher amostras de DNA qualquer um que suspeite de terrorismo, o que permite praticamente tudo.

Eu, incrédula: “Mas isso não pode acontecer numa democracia”.

“Pois é”, ele respondeu, rindo da minha ingenuidade…

A democracia (?) britânica

8 comentários sobre “A democracia (?) britânica

  1. Cleberson Silva disse:

    Mas qual o problema do governo ter amostras do DNA de seus cidadãos? Antigamente existia banco de dados de impressões digitais, agora o cadastro é com DNA e futuramente sabe-se lá o que não inventarão para identificar as pessoas.
    Com certeza é razoável isso ocorrer em uma democracia, contanto que a maior parte da sociedade aprove o método, claro.

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      1. Cleberson Silva disse:

        Mas tu não disseste que a polícia pode colher amostras de DNA de suspeitos? Se tem uma lei autorizando isso, então não é alimentado de forma ilegal né.
        Em vez da polícia exigir que os arruaceiros apresentem seu documento de identidade, ela colhe amostras de DNA, para permitir uma identificação mais apurada e sem chance de fraude. Sigo não vendo problemas nisso.

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      2. Eu disse que ele faz, não que ele pode fazer.

        Mas mesmo que pudesse seria um absurdo. Nesse caso, o que mais chama a minha atenção é a tentativa de inibir manifestações. Se o Fulano for pra rua dizer que o sistema de saúde do país não está bom, ele corre o risco de ser obrigado a fornecer o seu DNA. Eu não tenho motivos para ter medo de ir presa ou coisa assim, mas não gostaria de dar o meu DNA pro governo. Até porque os governos mudam e a gente nunca sabe o que pode vir a ser feito com esse material.

        Mesmo que soubesse… Convenhamos, se é uma coisa boa e vai ajudar no desenvolvimento, faça-se uma campanha de doação de DNA. Senão, atenta-se contra a liberdade do cidadão. Tu não vives pregando liberdade, Cleberson?

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    1. Qual o problema? Um banco de dados de DNA tem grande interesse para a indústria farmacêutica e já houve governo (Islândia) que comercializou o banco de DNA de sua população com um grande laboratório.

      Certo, e qual o problema nisso? Ocorre que dados de DNA podem servir para melhorar medicamentos, mas também para direcionar investimentos e legitimar medidas discriminatórias.

      Imagine o seguinte: os dados de DNA estão em um banco e podem ser consultados. Você vai fazer um financiamento e o banco recusa porque seu DNA mostra possibilidade de desenvolver doenças cardíacas, com redução na expectativa de vida. Ou: a seguradora não aceita o seguro do carro porque sua linhagem materna tem predisposição para epilepsia. Ou: o empregador nega a vaga porque a subetnia de seu avô paterno está mais sujeita a depressão do que a média populacional. Ou: entre duas cidades que postulam um novo hospital regional, o governo decide por aquela em que há menor tendência a doenças de tratamento caro como uma forma de reduzir custos. Ou: candidatos em um concurso são preteridos, embora sob outra alegação, porque seu DNA mostra um perfil muito independente e contestador.

      Dá para imaginar diversos outros cenários, que tendem a ocorrer antes da terceira década desse século. Por isso, há motivo mais do que suficiente para ver com desconfiança a coleta de DNA da população, sobretudo forçada. E nem entrei nas questões sobre direito à integridade física, a questãao da liberdade de manifestação no caso inglês ou a prerrogativa de não se fazer prova contra si mesmo.

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  2. Jaurês Palma disse:

    …pois é né Cris, “pois é” se tornou a minha expressão de “escolha obrigatória” nesta altura da vida. E relaciona-se com a equivalência tupiniquim do cenário europeu, inglês, planetário, sei lá. Também já lutei nas ruas um dia, para que hoje me extraiam o DNA na marra e a platéia ainda considere isso normal numa…democracia.

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