Quando a crítica vira só má vontade

O melhor remédio pra quando se está há muito tempo sem postar é dar uma olhada nos jornais brasileiros. Rapidinho as mãos começam a coçar e escrever torna-se inevitável…

No caso, nem precisei buscar a edição de Zero Hora, à qual só teria acesso daqui de Londres se pagasse por uma assinatura que chegaria no Brasil. Recebi por e-mail e comento aqui.

A mim soa estranho quando um jornalista reclama de excesso de participação popular nas decisões de um governo. Uma coisa é questionar se o programa que o governo estadual vai lançar em novembro – “Governador Pergunta”, complementar ao já existente “Governador Responde”, que incentiva a contribuição dos indivíduos com ideias que devem passar a ser consideradas na implementação de políticas, vai de fato ser efetivo. Outra é desmerecer essa opinião dos cidadãos, como fez Rosane de Oliveira na edição de ontem (9/10) da Zero Hora, logo depois de uma matéria quase que exclusiva sobre o programa. Pior ainda é quando isso é feito com o único objetivo de criticar por criticar.

A jornalista disse que o secretário de Saúde do governo do RS, Ciro Simoni, por ser médico, entendia melhor que ninguém qual era o problema da saúde pública. Ok, o objetivo aqui não é questionar a competência do secretário. Ela deixou implícita a opinião de que o único problema é falta de vontade política. Além de desmerecer a participação cidadã, ela simplifica a questão, que é extremamente complexa. Para ela, o problema é estritamente financeiro. Sem dinheiro, sem médicos, sem saúde. Como o governo aplica 7% do orçamento em saúde, quando deveria aplicar 12% (e ela não menciona que o orçamento foi aprovado no governo anterior), não há solução. Ela ignora que é possível, com pouco ou muito dinheiro, investir bem ou mal. Parece não estar interessada em dar às pessoas a possibilidade de falar sobre onde elas acham que é mais necessário aplicar o dinheiro que, afinal de contas, é delas. Esquece que o governo existe, de forma bastante simplista e utópica, para organizar as questões sociais e fazer as coisas acontecerem, e não centralizar as decisões e tomá-las sozinho em nome de todos.

Rosane opta por simplesmente não avaliar as possibilidades positivas de mais um canal de participação popular. Ela decide negá-lo antes de que ele sequer exista. Críticas, ok, são boas para que se possa melhorar, aperfeiçoar sempre, em qualquer área. E eu as tenho também neste caso. Mas as minhas dizem respeito aos limites que esse modelo ainda impõe. A participação deveria e poderia ser mais ampla, apesar de eu achar de uma extrema vanguarda a utilização de canais digitais para incluir a sociedade no processo político do governo. Engraçado é quando a crítica é por participação demais, não de menos.

A coluna da página 10 ainda tenta confundir o leitor fugindo do foco. É evidente que o “norte do governo Tarso Genro” foi dado antes da eleição do ano passado, com a elaboração do programa de governo e a definição de uma linha política. Mas também é verdade que é possível manter uma linha política e abrir espaço para que sua implementação seja constantemente discutida e melhorada. Até porque a linha política do governo inclui a participação. A participação é parte do programa, não contraditória a ele.

Criticar é uma coisa; mas mudar de opinião para criticar por qualquer motivo, sem concender o benefício da dúvida, não passa de má vontade. Perigoso para o jornalismo em uma democracia. Especialmente aquele que se diz isento.

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A íntegra da coluna assinada por Rosane de Oliveira:

Risco de frustração

Todas as formas de participação popular são bem-vindas numa democracia, mas não se pode vender a ilusão de que quem decide os rumos do governo é o cidadão que vota pela internet numa lista de prioridades ou participa de uma assembleia. O norte do governo Tarso Genro foi dado por sua equipe ainda na campanha eleitoral. O plano de governo é o fio condutor dos programas que ganharam a etiqueta de prioritários. O poder da participação popular ainda é reduzido, apesar de todos os instrumentos criados no Piratini para popularizar o rótulo de governo digital.

O projeto Governador Pergunta – A Primeira Assembleia Digital do Brasil, que será lançado em novembro, tem tudo para se transformar em sucesso de marketing, no Brasil e no Exterior. É questionável, no entanto, a utilidade de se mobilizar a população, pela internet ou pessoalmente, para que diga como se pode melhorar o atendimento e o acesso à saúde pública. Os gestores sabem muito bem o que falta aos usuários do Sistema Único de Saúde. Por ser médico, o secretário estadual da Saúde, Ciro Simoni, sabe melhor do que ninguém. Não precisa fazer pesquisa. Sabem, também, que para atender às demandas mínimas da população é preciso ter recursos.

Soa estranho o governo consultar a população para saber o que fazer para melhorar o acesso à saúde pública e se comprometer a “adotar as 50 propostas mais votadas”, se o Estado aplica menos de 7% da receita líquida em saúde, quando deveria aplicar 12%. Com dinheiro, Estados e municípios poderiam contratar mais médicos para programas de prevenção e mais especialistas para reduzir as filas, comprar equipamentos de última geração para oferecer diagnósticos mais precisos, aumentar a oferta de leitos, reduzir o tempo de espera nas emergências, oferecer melhor qualidade no atendimento à gestante e ao idoso, tornar realidade as maravilhas prometidas numa campanha eleitoral.

O excesso de canais para a sociedade se comunicar com o governo traz um risco ao futuro da consulta popular: o da frustração, se as demandas não forem atendidas por falta de dinheiro.

Quando a crítica vira só má vontade

2 comentários sobre “Quando a crítica vira só má vontade

  1. Muito bem colocado.

    Seguindo o raciocínio da colunista, podemos dizer que soa estranho a Zero Hora consultar os leitores por meio de conselhos, enquetes e espaço para emails. Por serem jornalistas, as pessoas que dirigem o jornal sabem muito bem o que precisam seus leitores. Por sua formação profissional, sabem melhor do que ninguém quais as notícias e informações desejadas por seu público. Não precisa fazer pesquisa.

    Transportado para uma outra realidade, fica ainda mais evidente como é falho o raciocínio da Rosane. E como o texto dela foi mal escrito.

    Mas sou obrigado a concordar em um aspecto: prometer a adoção das 50 propostas mais votadas não é sensato. Entendo que o intuito é atrair a participação, mas pode não ser viável (por falta de recursos), conveniente (não se conhece a qualidade das propostas) ou legal (porque há atribuições das esferas federal e municipal envolvidas). E daí uma boa ideia pode virar mais uma promessa irrealizada.

    Retirando a garantia de concretizar as “50 mais”, o projeto do governo estadual é ótimo.

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