A falácia da liberdade de imprensa

O post de hoje tem como base a palestra do presidente do Grupo RBS no Fórum da Liberdade. Desculpem, car@s leitor@s, mas vou chover no molhado. O sujeito em questão, que atende pelo nome de Nelson Sirotsky, faz insinuações contra deputados que, segundo ele, atentam contra a liberdade de imprensa ao propor leis “direcionadas à produção da mídia brasileira”, segundo o site Comunique-se.

Ele não citou nomes de parlamentares, mas foi bem explícito ao criticar o governador, Tarso Genro, o mesmo que responde pela concessão de gordo patrocínio do governo ao grupo que exerce o monopólio da comunicação no Rio Grande do Sul. O alvo da crítica foi, claro, o Conselho de Comunicação, cuja discussão está correndo no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Para Sirotsky, “qualquer ‘regulação’ para o setor de mídia tem o objetivo de interferir no trabalho de jornalistas e veículos de comunicação”. Deve ser muito bom esse curso de comunicação nas universidades do país, a ponto de formar gente que não erra. Nunca.

Engenheiros, médicos, advogados, biólogos, dentistas etc. etc. têm órgãos de regulação do exercício da profissão. Por que os jornalistas são tão especiais? A profissão é tão importante quanto as outras citadas, e por isso é tão importante que ela seja exercida da melhor forma possível. É por isso que as profissões têm conselhos.

E olha a contradição: “Para o presidente da RBS, o povo é quem deve debater sobre o tema de controle da imprensa”. Pois bem, meu caro, é justamente para propôr um debate com representatividade de diversos setores da sociedade que o conselho precisa existir. O povo, quando organizado, incomoda, daí não vale mais. O povo pode decidir, desde que quieto.

O que precisamos, ao contrário, é brigar pela maior representatividade do Conselho de Comunicação gaúcho, por enquanto se encaminhando para uma discussão muito acanhada, dominada pela mídia corporativa.

Imprensa concentrada não é livre

A crítica do chefe do monopólio de comunicação do RS baseia-se no conceito de liberdade de expressão, aliado ao de liberdade de imprensa. Ele engana-se (ou melhor, tenta enganar seu leitor) ao acreditar que o que temos hoje é imprensa livre. Apesar de a pobreza ter diminuido no Brasil, nenhum novo grupo alcançou um patamar significativo no cenário das comunicações. Ela continua sendo controlada por cerca de dez famílias. E não há liberdade sem igualdade.

Se, num país de 190 milhões, dez famílias dizem o que é ou não notícia (e todas representativas do mesmo espectro social de interesses), não há liberdade de imprensa.

O ClicRBS destacou essa citação do patrão: “Como não acreditar numa democracia cuja imprensa denuncia com a mesma ênfase um escândalo como o do Mensalão, que envolveu políticos ligados ao governo, e um episódio como o do senador Demóstenes Torres, até então uma das lideranças mais fortes da oposição?”. Como acreditar em democracia, perguntaria eu, quando a revista de maior tiragem no país, dedica capa ao mensalão, ocorrido sete anos antes, no momento em que o senador Demóstenes Torres, uma liderança da oposição, está sob fortes denúncias de corrupção? Nota-se uma diferença grande entre os dois episódios, aliás. No segundo, a imprensa estava envolvida não só no crime de desinformar, como no delito em si.

A matéria do Comunique-se encerra assim: “O empresário defendeu a ética jornalística e os valores que fazem parte da profissão – como apuração e produção isenta de conteúdo”. Bom, aí só nos resta rir.

Foto: Diego Vara

A falácia da liberdade de imprensa

8 comentários sobre “A falácia da liberdade de imprensa

  1. Ismael disse:

    É, realmente daí fica muito complicado. E pior que não vejo nenhuma perspectiva real de melhora.

    As vezes penso que seria até bom essa corja toda formada por RBS, Abril, Globo e Folha forçassem mais, puxassem mesmo ao extremo.

    Pra piorar ao ponto de ficar tão escandaloso que o povo acorde para o que acontece.

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  2. Um texto objetivo e bem construído, com argumentos diretos e contundentes. Parabéns pela clareza em criticar, de forma independente, a suposta ética que permeia o jornalismo e a liber(ali)dade de imprensa. Se existe alguma perspectiva de melhora, ela está na internet e nos sites e blogs sem vínculo com as grandes redes e patrocinadores.

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    1. Ismael disse:

      Infelizmente é por aí . Sou Formado em Computação, e logicamente trabalho e gosto muito de internet, mas digo infelizmente porque o poder do Broadcast é infinitamente superior.

      Me refiro ao poder de influenciar. Aquela falsa autoridade que os próprios se atribuem. E que existindo ou não amedronta muita gente de refutar.

      Temos mesmo de passar internet pro povão. Felizmente estão surgindo e se popularizando projetos como Raspberry Pi, que é algo experimental e rústico, mas serve para ensino de informática.

      Se trata de um computador completo, ainda que bem limitado, que custa uns 35 Dólares. Creio que esse tipo de computador de baixo custo, somando-se a internet masi próxima dos celulares de baixo custo. Vamos no mínimo dar uma alternativa de pesquisa.

      E importante também que é dar uma possibilidade do povo ser escutado diretamente.

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  3. guimas disse:

    Eu sempre digo: a imprensa, hoje, não é livre. A imprensa tem dono e atende interesses econômicos e socias bem específicos, muitas vezes óbvios e explícitos.

    O que acontece é que há uma ilusão de que a decisão de pauta é independente do dono. Não é, e, neste modelo, nunca será.

    Mas o senhor da palestra está só defendendo seus interesse imediatos e pessoais. E isto, sim é da democracia.

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  4. meiradarocha disse:

    Conselhos Federais:

    1. Administração
    2. Arquitetos e Urbanistas
    3. Biblioteconomia
    4. Biologia
    5. Biomedicina
    6. Contabilidade
    7. Corretores de Imóveis
    8. Economia
    9. Economistas Domésticos
    10. Educação Física
    11. Enfermagem
    12. Engenharia, Arquitetura e Agronomia
    13. Farmácia
    14. Fisioterapia e Terpaia Ocupacional
    15. Fonoaudiologia
    16. Medicina
    17. Medicina Veterinária
    18. Nutricionista
    19. Odontologia
    20. Psicologia
    21. Profissionais de Relações Públicas
    22. Representantes Comerciais
    23. Química
    24. Serviço Social

    Profissões com Ordens:

    25. Advogados
    26. Músicos

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