Sobre a ciclovia da Ipiranga

Hoje de manhã passei de ônibus pelo lugar onde a ciclista foi atropelada. Acabei vendo a cena meio sem querer – não tinha noção exata de onde tinha sido e não gosto de ficar espiando tragédia.

Além do dia começar carregado e triste, começa também um tanto reflexivo.

Primeiro, faz a gente pensar na forma com que as pessoas lidam com o trânsito. Na verdade, na forma com que a gente, de um modo geral, lida com a vida, com as outras pessoas. A gente sempre tem que ser mais rápido, mais certo, mais esperto que os outros. A gente nunca tá errado e a gente tem sempre que chegar primeiro. A gente tem que estar sempre na frente. Em tudo.

A gente, a gente, a gente. Eu, eu, eu. Repararam como a gente dificilmente se coloca no lugar do outro? Dificilmente se solidariza e é um pouco mais generoso nas nossas ações?

A outra reflexão é sobre a mídia e a cidade. Soube do atropelamento pela rádio hoje de manhã. Antes mesmo de passar ali pelo lugar, já ouvia a jornalista reclamando que ciclistas têm que andar na ciclovia, não podem andar fora dela. E que volta e meia vê isso acontecer, dando o exemplo da Ipiranga. Me parece que falta um pouco de noção de responsabilidade.

Começando pelo timing péssimo. O corpo da menina ainda estava no meio da rua e a jornalista já culpava a vítima, antes de qualquer perícia, sem qualquer respeito.

E continuando pela falta de conhecimento (prefiro crer nessa hipótese do que em má fé) sobre a situação das vias de Porto Alegre. A ciclovia da Ipiranga, a que ela se referiu, presta um baita desserviço aos ciclistas. A tinta é escorregadia e causa acidentes em dia de chuva. Os obstáculos – árvores e postes – são desviados, em uma aparente solução que causa dois problemas: 1) a ciclovia desvia dos troncos, mas não dos galhos; 2) o ciclista perde a visibilidade em diversos pontos e acaba não vendo quem vem pelo outro lado. Por fim, a ciclovia troca de lado do Dilúvio várias vezes ao longo do caminho, passando por cima da calçada nesses pontos. Esses são alguns problemas dessa ciclovia específica, mas certamente meus amigos ciclistas poderiam acrescentar vários outros.

Resumindo, e era aí que eu queria chegar, a ciclovia não serve ao ciclista e torna o motorista ainda mais hostil a quem está na bicicleta na faixa destinada aos carros, o que nos leva de volta ao primeiro ponto, ao egocentrismo geral da galera. E à postura da mídia. Quando a fulana se posiciona da forma que descrevi acima para a audiência grande que ela tem, ela incentiva essa hostilidade e fortalece esse pensamento tacanho, sem uma perspectiva mais ampla de cidade e de sociedade.

Enfim, tem tanta coisa errada que me dá até preguiça ao mesmo tempo em que me deixa triste.

Sobre a ciclovia da Ipiranga

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