Doria e a ração de resto

doria apresenta felizão um programa para distribuir “um granulado nutritivo composto por alimentos habitualmente desperdiçados pela população e que contém importantes propriedades nutricionais, podendo ser adicionado às refeições” para pobres. isso mesmo, resto.

pior que eu consigo até imaginar ele pensando nisso como uma grande ideia. por um lado, tem comida indo pro lixo, aos montes. por outro, gente passando fome. aí vem a lampadazinha, plim, ideia genial: “vamo juntar as pontas”.

eu consigo imaginar porque eu conheço gente que pensaria igualzinho. claro, gente que nunca passou fome e que tá acostumada a ter salmão e filé mignon no almoço do dia a dia. se eles gostariam de comer ração de resto? ah, isso nem passa pela cabeça, porque eles não estão passando fome. “mas melhor isso que nada, né?”

não, amigo, melhor dignidade e comida de verdade do que ração de resto. é engraçado porque as mesmas pessoas que devem estar apoiando esse tipo de medida são as que acham que bolsa família é esmola. e aí a gente vê a situação merda que a gente tá, quando nem a inteligência mínima de ligar pontos sobrevive. garantir dignidade e acesso a direitos a quem nunca teve não pode ser chamado de garantir dignidade, é esmola. mas ração de resto tá de boa ser chamada de comida.

“ai, mas tem muito desperdício.” claro que tem! inclusive o teu, o meu, o do nosso dia a dia. não é dando resto pra pobre comer que a gente vai acabar com ele.

enfim, quando alguém diz que tem pena de quem não tem comida e vem com alguma ideia estapafúrdia como essa, minha questão é: por que você tem direito a comer filé mignon e o pobre tem que ser feliz com resto? porque você nasceu melhor? que chato esse tal de capitalismo, né.

doria racao de resto

Doria e a ração de resto

Toda vez que acontece um estupro

Toda vez que, por um motivo qualquer, a notícia de um estupro se destaca sobre os diversos que acontecem todos os dias a gente aprende algumas coisas.

Sempre tem um homem (na verdade sempre tem vários) pra nos ensinar o que é de fato um estupro e explicar se aquele em questão pode ser chamado de estupro ou não.

Aí um homem também vem nos provar por a + b que a mulher agiu errado em algum momento (usou a roupa errada, tava no lugar errado, tomou as providências erradas) e, portanto, ela tem responsabilidade sobre o próprio estupro ou por outros a serem cometidos. Mais que o próprio estuprador, muitas vezes.

Um homem também aproveita o momento para nos ensinar quais os procedimentos corretos a serem adotados pela mulher e como ela deve se sentir depois de ser estuprada.

De vez em quando aparece um juiz homem pra nos ensinar o que configura violência ou constrangimento em um estupro. Aparentemente, ejacular em cima de uma mulher num ônibus sem ela querer e sequer conhecer o cidadão é de boa.

Nesses momentos a gente aprende também que todo mundo odeia estuprador. Até que acontece um estupro. Aí veja bem não é bem assim não vai acabar com a vida do cara tem que ver se tem provas pode ser denúncia falsa não dá pra confiar só na palavra da mulher… E quem diz isso são os mesmos que depois acusam a galera “dos direitos humanos” de defender estuprador.

Outra coisa que a gente acaba aprendendo é que sempre tem que apelar pro “imagina se fosse tua mãe/irmã/filha” porque a imensa maioria dos homens não consegue se colocar no lugar de uma mulher simplesmente por ela ser uma pessoa sofrendo uma violência.

Topei com todas essas coisas nesses últimos dias lá no twitter. Um monte de aprendizados.

Esqueci de alguma coisa?

Toda vez que acontece um estupro

As eleições 2016 e a esquerda

Bueno, eu também tenho direito ao meu textão. Então, bora lá.

Pra começar, queria dialogar com o discurso de que não fomos pro segundo turno porque a esquerda não se uniu. Não acho justo, não mesmo. É mais fácil apontar o dedo, mas não resolve nada e nem é honesto com o momento. Isso só reduz o debate e nos impede de enxergar o que realmente aconteceu e de agir em cima disso.

Em Porto Alegre, a direita veio com três candidatos e tá aí bela e faceira, com dois deles estão no segundo turno. Em São Paulo, Haddad e Erundina podiam ter andado abraçados a eleição inteira que nenhum deles teria ido pro segundo turno, porque não teve segundo turno. O PT só fez uma capital, Rio Branco, no Acre, e não foi porque PT e PSOL se dividiram em todos os outros lugares. Mesmo em Porto Alegre, se a gente tivesse lançado uma candidatura só, talvez teríamos ido ao segundo turno, mas o Marchezanzinho faria o estrago depois, não tenho dúvida. Em Salvador, o ACM Neto fez quase 75%. A única esperança é o Freixo, e ainda assim é difícil.

O fato é que a esquerda foi massacrada. PT, PCdoB, PSOL, todo mundo. Perdemos nas cidades grandes e nas pequenas também, onde a política acontece de um jeito diferente. E acho que é isso que tem que estar no centro do debate daqui pra frente.

Junto com isso, temos também um volume altíssimo de abstenções, brancos e nulos. Em São Paulo, a soma dos três representa mais do que a votação do Doria, eleito no primeiro turno. Isso porque a gente vive uma crise da política mesmo. As pessoas não se encantam mais por um projeto de esquerda, que já não é mais uma esperança de futuro, mas uma repetição do que já foi. E, por mais que tenhamos avançado muito, tivemos enormes limites, e eles se tornaram evidentes. A criminalização da política nos leva a todos e só favorece os que não fazem a boa política.

Nesse sentido, a Lava Jato é um mal gigante. Investigar e condenar a corrupção é muito importante, mas o que essa operação fez, além da seletividade no processo, foi contribuir para a ideia já tão repetida pela mídia de que político nenhum presta, o que afasta as pessoas da política, tira o interesse pela coisa e despolitiza mais o debate. Só favorece quem tem mais grana, porque a política deixa de valer. Nossa campanha politizada, de combate ao golpe e aos retrocessos, de debate de projeto, não teria espaço nesse cenário.

Os motivos para essa crise são vários. No Brasil, poderia citar não termos enfrentado a reforma política, a regulamentação da comunicação e a reforma do judiciário, a campanha de ódio da mídia, a despolitização do debate, a conciliação com o PMDB, o sectarismo de parte da esquerda, o nosso Congresso horroroso e vários outros. Mas o fato é que estamos vendo uma onda conservadora no mundo todo, e tá aí o Trump pra não me deixar mentir.

Mas bueno, já me alonguei demais. Queria só deixar um último recado, da fala do Raul ontem direcionada aos mais jovens: não se assustem com o que estão vendo, que ainda vai piorar. Vai melhorar um dia, mas até chegarmos lá vai piorar um tanto. É hora de avaliar a conjuntura, repensar o campo de esquerda e reorganizar a luta. Na minha opinião, não pode ser só em torno do PT, do PCdoB ou do PSOL. Na crise dos partidos, temos que repensar a esquerda. Que coisas novas surjam daí.

E, no segundo turno, #VotoNulo.

As eleições 2016 e a esquerda

meu partido é o rio grande?

“meu partido é o rio grande”, diz sartori.

gente, eu jurava que o partido dele era o pmdb. aliás, o mesmo pmdb do governo britto, partido do qual sartori foi líder na assembleia. governo que negociou as bases da dívida que o rs tem hoje. o monstro que todo mundo discute como resolver. sartori diz que quer acabar com a dívida, mas esquece de dizer que ajudou a criá-la.

ana amélia esquece de dizer que era cc do marido no senado enquanto era diretora da rbs e que não cumpria a carga horária.

como tem gente esquecendo de dizer coisa, né?

meu partido é o rio grande?

Mulheres na Casa Branca e a técnica para serem ouvidas

Mulheres são muito mais interrompidas que homens em reuniões, por ambos os gêneros, isso é fato. Diante disso, segundo texto do site Quartz, mulheres da Casa Branca começaram a usar uma técnica muito simples: quando uma mulher diz alguma coisa interessante ou dá alguma ideia boa, outra repete a ideia, dando o crédito pra original. Genial. O texto completo, em inglês, está aqui.

Mulheres na Casa Branca e a técnica para serem ouvidas

A volta do primeiro-damismo celebrada pela mídia

marcelaé difícil escolher por onde começar aqui, viu. são tantos problemas em um texto só que tá complicado. listo quatro: puxa-saquismo, machismo, futilidade e total desconhecimento (pra não dizer que é o posicionamento da empresa mesmo) em relação às políticas sociais. lá pelas tantas, a matéria diz: “A ocasião pedia um traje mais imponente, mas o novo rosto das causas sociais brasileiras, função intrínseca ao cargo de primeira-dama, preferiu o jogo político da moda.”

pra folha (ou, pelo menos, pro cidadão que assina o texto), política social é função intrínseca ao cargo de primeira dama. voltamos aos tempos em que política social era assistencialismo, caridade. deixemos de lado a política social que emancipa, que transforma. deixemos de lado a “política” do social.

parece pequena essa diferença de abordagem, mas é crucial. muda tudo. é um retrocesso sem tamanho. triste demais.

A volta do primeiro-damismo celebrada pela mídia

Mais investimentos ou Estado mínimo? Qual é, afinal, a linha editorial dos grandes grupos de comunicação?

Resposta: a que convém ao momento.

Ok, acho que um dos papéis do jornalismo é apontar os problemas nos diversos serviços públicos (deveria falar mais de empresas privadas também, mas deixemos isso pra um outro momento). Mas quando se fala SÓ dos problemas de uma política que se sabe que teve muitos avanços, o jornalismo já não está mais cumprindo seu papel.

Hoje a rádio de maior audiência do estado entrevistou professores de escolas da rede pública estadual para que falassem de problemas de infraestrutura nas suas unidades. Nenhuma escola que foi reformada foi convidada a participar, pelo menos na parte do programa que eu ouvi. Dessa forma, a rádio instaura um cenário de caos, mas que é um cenário parcial, que não corresponde ao todo da realidade. Cria uma percepção do todo com base na parte e não contribui para a compreensão da situação da educação no Estado. Aí vão alguns poucos dados que mostram alguns dos avanços:

– 63 escolas já têm um computador por aluno

– embora ainda bem longe do ideal, os professores da rede pública estadual receberam 76,68% de aumento e nenhum percebe, na prática, menos que o piso

– 5,5 mil novos professores foram nomeados

– 1.800 escolas foram reformadas ou receberam algum tipo de intervenção, totalizando R$ 300 milhões em investimentos

Crianças do projeto Província de São Pedro usando computadores

Aqui é possível encontrar mais informações sobre o programa Província de São Pedro, que tem como objetivo destinar um computador por aluno da rede estadual.

Educação é um ponto sensível, sim, até porque foi o tema escolhido pela mídia para fazer a oposição mais pesada. Toda a estrutura, desde as instalações até os recursos humanos estavam completamente defasados. Lembram das escolas de lata?

Ainda está longe do ideal? Claro! Os professores seguem ganhando pouco, as escolas ainda não estão adaptadas às necessidades do século XXI – muitas ainda nem às do século XX -, mas na política a gente sempre tem que avaliar em perspectiva, e comparar é fundamental. Quando antes houve avanços tão grandes em tão pouco tempo na educação no Estado?

Pois é.

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Aliás, vale dar uma bisoiada também (quer dizer, não vale muito) na coluna da Maria Isabel Hammes, na editoria de Economia da Zero Hora hoje (6). Ela defende claramente uma política de redução de investimentos, de corte de gastos, para que se consiga diminuir a dívida do Estado. Mais ou menos o que fez o governo Yeda, que parou de investir e estagnou o Estado. Que andou pra trás. Isso no mesmo dia que o seu colega critica repetidamente a situação das escolas.

Mas, peraí, é pra investir ou não? Percebam que a equação do Grupo RBS não funciona. Como melhorar os serviços e aplicar a política do Estado mínimo ao mesmo tempo? Pra andar pra frente, pra funcionar, o Estado precisa de investimentos. A política de incentivo ao desenvolvimento aplicada pelo Governo Tarso se baseia justamente no aumento de investimentos, na recuperação da estrutura do Estado. Mas infelizmente muitos desses investimentos ainda estão recuperando o rombo causado pela inércia dos serviços públicos na gestão anterior. Ainda restam muitos problemas, sem dúvida, mas, repito, é preciso ver em perspectiva. E aí se percebe o tanto que se vem avançando.

O que não dá é pra pedir escolas melhores, salários melhores, estradas melhores, novos hospitais, mais médicos e assim por diante e ao mesmo tempo pedir redução de impostos e corte de gastos. Afinal, é Estado mínimo ou é mais Estado? Podiam pelo menos definir uma linha de raciocínio, pra criticar de um jeito um pouco menos contraditório.

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Foto: Camila Domingues/Palácio Piratini

Mais investimentos ou Estado mínimo? Qual é, afinal, a linha editorial dos grandes grupos de comunicação?