À saúde

Sempre pensei na medicina como uma profissão nobre. A mais nobre de todas. E sempre achei que marcar o x em medicina no vestibular significava uma vontade grande de trabalhar para os outros, pela vida. Pena que as coisas mudaram e o fato de ser uma profissão que dá dinheiro tenha se tornado mais relevante na hora da decisão.

Aí acontece o que a gente vê hoje no Brasil. Os médicos não querem ir pro interior. Ok, entendo não querer se afastar das famílias, dos centros culturais, aquela coisa toda. Mas sabe, tem gente que mora lá no interior. Lá na zona rural, na periferia das cidades, nas pequenas vilas, as pessoas também precisam de médico. Se você não quer se embrenhar lá no interior do desconhecido, ok, mas por que é tão contra aquele que quer?

medica-protestoMédico, quando você não quer atender e é tão contra quem quer, você está se mostrando extremamente desumano, cruel até. Justo você, que tem a humanidade e o amor ao próximo como requisito básico para o exercício da profissão, antes da ciência, da técnica, do conhecimento, antes da infraestrutura. Compaixão é básico, sabe. E ó, o que a gente viu hoje no Brasil está um tanto longe disso. Hostilizar pessoas que estão se afastando de suas famílias, de seu país e se embrenhando no interior de outra pátria que não a sua porque acreditam na necessidade de ajudar outras pessoas é bem egoísta. Tanto com o médico que está chegando quanto com os pacientes que precisam dele. Ainda mais do jeito que essa “opinião” foi expressada, de forma agressiva e preconceituosa, com as últimas pessoas que mereciam ter sido agredidas nesse momento, que mereciam, isso sim, a gratidão de todos nós, de quem precisa e de quem não precisa delas.

Ao longo dos dez anos de governos petistas no Brasil, talvez não tenha havido nenhum enfrentamento de verdade a um poder corporativista estabelecido como está sendo feito agora. É mais um passo importantíssimo na transformação social do país, mas acho mesmo que dá pra dizer que é o primeiro poder que é atingido diretamente.

A crueldade dos médicos soma-se ao espírito individualista da imprensa, que defende os interesses de uma elite preconceituosa e egoísta, pra quem não adianta não perder nada, é preciso que os de baixo não ganhem. Uma elite que não reconhece a população negra senão como seus empregados.

Uma imprensa que faz uma série sobre o caos na saúde pública com o patrocínio do comprometido Sindicato Médico e que depois se opõe a uma possível solução do caos que criticava não pode ser séria. A vida inteira vi essa mesma imprensa chamar Cuba de ditadura e usar vários outros adjetivos depreciativos que nem vale listar. Vi, nos últimos tempos, essa mesma imprensa criticar a vinda de médicos cubanos porque eles não eram bons o bastante. Quando viram que esse argumento era falho – além de a medicina cubana ser referência mundial, era evidente que um médico seja qual for é melhor que nenhum – apelaram para uma defesa hipocritissíssima dos mesmos médicos que antes não eram bons o bastante. Agora a pauta é seus direitos trabalhistas, ignorando todo o processo que os traz para cá, as relações entre Brasil e Cuba e todas as condições da vinda dos profissionais, reconhecidas e referendadas pela Organização Mundial da Saúde.

Nessa batalha incansável pela deslegitimação de um programa tão importante como o Mais Médicos, essa imprensa identificada com a elite preconceituosa que eu citei acima faz mais uma vez aquilo que ela sabe fazer tão bem: omite e manipula. Esquece de dizer que, além dos cubanos vêm argentinos, espanhóis, portugueses… Esquece também que até o PSDB já importou médicos cubanos. E esquece ainda que os médicos que vêm estão aqui de forma livre, por vontade própria, ajudando a gente. Tem até colunista em geral mais sóbria na escolha das palavras comprando o discurso tosco da escravidão. Será que eles se leem? Será que leem o que estão escrevendo? Custo a acreditar.

É muito bom e muito triste o que está acontecendo no país. Bom porque um monte de gente desassistida vai ter o direito básico à saúde e porque a gente vê uma mudança de paradigmas, o estabelecimento de prioridades claras beneficiando os mais pobres, mas muito triste por constatarmos, mais uma vez, o quão mesquinhos muitos de nossos conterrâneos mais abastados podem ser. Mas eles são minoria, levo fé.

À saúde

Está tudo invertido no mundo

Já tinha até desistido de escrever um post específico sobre a privatização de espaços públicos em Porto Alegre, já que abordei um pouco do tema aqui e aqui. Mas os acontecimentos de ontem à noite, que somam a política privatista da Prefeitura com a truculência da Brigada Militar (do governo do estado), me deram comichão, e aqui vão alguns comentários…

Pra começar, essa história está errada desde o princípio. A agressão de ontem aos manifestantes que derrubaram o boneco da Coca-Cola foi só o cúmulo do negócio. Um absurdo total, mas que é consequência da escolha anterior.

Ao leitor que não é daqui, explico… Porto Alegre tem, na frente do Mercado PÚBLICO, um largo (que leva o nome de um jornalista das antigas, Glênio Peres) com características históricas da nossa colonização açoriana, como o piso de paralelepípedos. Várias coisas aconteciam ali, de característica popular. Era um espaço de manifestações do povo, de comícios de partidos e de atividades que incentivam a economia solidária e a agricultura familiar, como feira de produtos. Sempre aconteceu ali uma tradicional feira de peixe às vésperas da Páscoa, por exemplo.

Recentemente, parte desse espaço público foi entregue à iniciativa privada, com a justificativa de que embelezaria a cidade. A Coca-Cola/Vonpar construiu um chafariz que tem 19 pontos de saída de água ao longo do largo e instalou um boneco inflável gigante com o tatu-bola que é símbolo da Copa do Mundo (outro negócio em que circula uma grana violenta que a gente não vê, mas isso fica pra outro dia). Algumas das manifestações que antes aconteciam continuam acontecendo normalmente, mas outras foram prejudicadas, sem falar no cartaz da Prefeitura, na entrada do prédio (ao lado do Mercado Público e do Glênio Peres), que leva o símbolo da Coca-Cola.

Aí chegamos a ontem. Nesta quinta-feira, dia 4 de outubro de 2012, um pessoal saiu ta frente da Prefeitura, em uma manifestação pacífica. O mote era a alegria e a defesa era a dos espaços públicos, como o Largo Glênio Peres e o também privatizado auditório Araújo Vianna (espaço de shows pertencente a Porto Alegre que foi concedido à Opus e agora cobra ingressos do nível de iniciativa privada, elitizando a cultura). Protegendo o boneco tinha, segundo reportagem do Sul21, mais de 20 guardas municipais, 19 policiais militares, quatro viaturas e três motos. Ainda assim, derrubaram o tatu. Como resposta, foram reprimidos violentamente. As fotos com o pessoal sujo de sangue impressionam.

E aí vem a triste constatação de que está tudo errado no mundo. A Prefeitura compra o discurso privatista e cede parte do patrimônio PÚBLICO à inciativa privada, prejudicando atos populares. A Brigada Militar, do governo estadual, reprime os manifestantes. Mas o problema vai muito além, está na sociedade. Critiquei a repressão aos manifestantes e vieram com o discurso classe-mediano me perguntar se eu gostaria que destruíssem meu carro. Discurso vazio de defesa da propriedade privada frente à vida. Não, se eu tivesse carro, não gostaria que o destruíssem. Mas esse carro não seria um patrimônio público que me tivesse sido entregue. E nunca, em hipótese alguma, eu defenderia que batessem na pessoa que destruiu um bem material.

Não concorda que destruam o boneco? Ok, aceito o argumento. Mas nada disso justificativa a agressão.

Acontece que as coisas estão na frente das pessoas, e isso não tem o menor sentido. Daqui a pouco vamos viver em um mundo só de coisas, sem pessoas. Ou com pessoas se odiando em nome de coisas. Um mundo de ódio, de extremos. Que mundo é esse, deus do céu? Eu sou contra a privatização porque defendo que o mundo é das pessoas, não das coisas. E que entregar o patrimônio que é de todos para muito poucos ajuda muito a colocar as coisas em primeiro lugar.

Um mundo que incentiva a intolerância é um mundo triste.

Contra esse mundo aí, porém, temos armas poderosas. Podemos usar o amor e a tolerância, em vez do ódio. Ainda acredito que vai funcionar.

Fotos: Ramiro Furquim (as duas primeiras) e André Ávila. Mais fotos aqui.

Está tudo invertido no mundo

MP investiga se incêndios nas favelas de São Paulo têm relação com interesse imobiliário

Por Janaina Garcia
Do UOL, em São Paulo

O Ministério Público de São Paulo investiga se a série de incêndios ocorridos desde janeiro deste ano em favelas da capital paulista tem relação com o interesse do setor privado ou do setor público em construir nas áreas de entorno dessas comunidades.

Até agora, segundo a Defesa Civil municipal, foram 31 casos na cidade – sendo 15 desde julho. O número é 30% superior ao de todo o ano de 2011, quando 24 incêndios foram registrados. Os números dos bombeiros são maiores: segundo a corporação, a capital registrou 32 incêndios até o começo de setembro de 2012 ante 79 ocorrências durante o ano de 2011. A corporação, no entanto, contabiliza também pequenas ocorrências e comunidades com qualquer número de domicílios.

Em entrevista ao UOL, o promotor de Habitação e Urbanismo da capital, José Carlos de Freitas, afirmou que, “com ou sem incêndio”, a leitura da Promotoria para os casos remete a obras públicas ou interesse do mercado imobiliário.

“Chama atenção que os incêndios vêm acontecendo de uns bons anos para cá, e a contagem deles aumentou neste ano”, disse. “Não podemos afirmar que exista uma atitude orquestrada por trás disso, mas é muito preocupante que esses incêndios aconteçam principalmente quando temos obras públicas ou áreas nas quais o mercado imobiliário tem um interesse enorme de produzir habitação à população de alta renda”, completou.

De acordo com o promotor, os procedimentos cíveis e criminais instaurados pelo MP, além de ações civis públicas já propostas nos últimos meses, apuram ainda para onde os moradores removidos em operações urbanas da Prefeitura de São Paulo, ou por conta dos incêndios, foram encaminhados.

“Temos visto que, quando esses moradores saem das áreas atingidas, eles não retornam para sua localidade e não há ações do poder público para garantir que residam onde estavam residindo –que é onde essas pessoas não só moravam como também trabalhavam ou tinham filhos em creches ou escolas, por exemplo”, definiu o promotor. “A exceção muito grande a essa regra é o que acontece com o Jardim Edith: ali, a construção de habitação popular dentro da operação Água Espraiada só foi adiante porque existe ação da Defensoria Pública acompanhada pelo MP.

“Freitas é o responsável pelo inquérito civil do MP que apura o incêndio ocorrido na última segunda-feira (3) na comunidade do Jardim Sônia Ribeiro, conhecida como “Favela do Piolho”, no Campo Belo (zona sul). Na última nesta quarta-feira (5), ele requereu esclarecimentos da prefeitura e do governo estadual sobre as ações “de ordem habitacional, assistencial, de educação e saúde no que diz respeito a essas famílias”. A estimativa é que ao menos 1.400 pessoas tenham ficado desalojadas só nessa favela.

Urbanistas contestam hipótese de “gatos”

Arquitetos urbanistas ouvidos pela reportagem também disseram estranhar a versão oficial de que a maior parte dos incêndios em favelas paulistanas diz respeito ao tempo seco e a ligações elétricas irregulares, os chamados “gatos”. Foi essa a versão fornecida, por exemplo, pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) e pela Defesa Civil municipal quando questionadas sobre as principais causas dos incêndios.

“Acompanhei esses casos e acho muito estranho, pois normalmente as favelas bem localizadas se incendeiam mais frequentemente do que as mal localizadas. Além disso, esses incêndios mostram despreparo total da prefeitura em atender essas pessoas”, avaliou a arquiteta Lucila Lacreta, do Movimento Defenda São Paulo.

Para a urbanista, a solução dada aos moradores removidos – cestas básicas ou aluguel social por tempo limitado – “não as atende de forma eficiente quando esses sinistros acontecem”. “Isso é uma tragédia para a cidade, porque são pessoas em geral trabalhadoras, ainda que com uma renda muito baixa. Mas não dar a elas opção de moradia faz o problema social se avolumar e afetar toda a população.”

Para o arquiteto e urbanista Leandro Medrano, professor da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, atribuir ao clima seco e aos “gatos” o grande número de incêndios nas favelas “é uma ofensa ao morador”.

“Porque esse cidadão está largado em uma área, ele tem uma importância muito aquém nas políticas públicas. Mas chama atenção, mesmo porque, todo assentamento subnormal [nome dado pelo IBGE para definir comunidades a partir de 51 domicílios] não tem nenhum tipo de estrutura adequada em luz e gás, por exemplo, e não são tantos casos assim de incêndio como em São Paulo”, avaliou.

“Favela influencia valor de imóvel”

Já o arquiteto urbanista Kazu Kakano, do Instituto Pólis, avaliou que ações criminosas nesses tipos de incêndio não são descartadas. “Favela na cidade de São Paulo não é só uma situação precária: ela influencia o valor do imóvel nos arredores. Há essa segregação socioespacial entre ricos e pobres, e creio sim que há essa possibilidade de esses incêndios terem razão criminosa, intencional. E como não temos uma investigação profunda desses casos, não sou otimista: acho que esses incêndios vão continuar acontecendo. Não vejo ação consistente nem em resolver o problema da moradia, nem ações emergenciais –aí não tem como ter outra conclusão”, avalia.

O UOL tentou saber desde a última segunda-feira (3) da Prefeitura de São Paulo para onde as famílias removidas em função de incêndios em favelas foram levadas. A informação, contudo, ainda não foi divulgada.

Sobre supostas falhas na investigação dos incêndios, a SSP reforçou conteúdo de nota oficial, segundo a qual os casos, em sua maioria, estão relacionados aos “gatos”.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

MP investiga se incêndios nas favelas de São Paulo têm relação com interesse imobiliário

Incêndios em favelas: a política de higienização do PSDB

Aparentemente, só favela paulistana faz gato de energia elétrica. Afinal, esse é o motivo atribuído a 70% dos incêndios que vêm acontecendo, segundo a GloboNews. Essa foi a 32ª ocorrência na capital paulista este ano. Em 2011, foram 79 e, em 2008, ano que mais sacrificou moradores pobres, foram 130.

Na matéria da Agência Brasil, aparece ainda o “tempo bastante seco e o vento” como causas do incêndio, relatadas por um coronel do Corpo de Bombeiros. O engraçado é que os dias não têm estado muito secos em São Paulo, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ontem à noite, a umidade relativa do ar era de 76%, parecida com a de Porto Alegre. Há regiões no país bem mais secas e que não chamam a atenção pela quantidade de incêndios. Brasília, com seus mais de 2,5 milhões de habitantes, é sempre lembrada pela baixa umidade do ar. Hoje à tarde, estava em 20%. São Paulo, ao contrário, registrava 67%, ainda mais que a geralmente úmida Porto Alegre, com 49%.

Qual é a explicação então?

Ao contrário de um post que publiquei aqui em dezembro de 2009, preocupada com a disseminação de incêndios nas áreas mais pobres da capital paulista, mas contida em meus comentários, agora falo, sim, na execução de uma política de higienização. Qual a forma mais fácil e rápida de diminuir os pobres de uma cidade? Não é incomum ouvir comentários conservadores de que “tem que pôr fogo em tudo mesmo”. Vale pra morador de rua, maconheiro, marginalizados em geral. Uma política simplista, tão elitista e preconceituosa que é feita na surdina em São Paulo.

Prova de que a coisa é feia mesmo é que já tem até CPI pra investigar os suspeitíssimos casos recorrentes de destruição de favelas pelo fogo, embora ela não seja muito ativa.

Em história tão cheia de fatos inquietantes, outra coisa me chamou a atenção. Em todas as matérias sobre o último incêndio, na Zona Sul paulistana, a Folha.com não dá as razões do desastre, mas se preocupa em dizer repetidamente que o número de ocorrências de 2011 é o mais baixo desde 2008, como se isso fosse bom. Se 79 incêndios em um ano é um número baixo, o que sobra para os 130 de três anos antes?

O importante é observar que há uma sequência no processo de higienização de favelas em São Paulo, que ele é contínuo e que é devastador. É o resultado de uma história de conservadorismo extremo no comando da capital, só interrompido em dois momentos e aprofundado nos últimos sete anos, com a sucessão de governos do PSDB.

Incêndios em favelas: a política de higienização do PSDB

Caminhada do “Basta de Violência contra a Mulher” vai ser domingo

Informações do CDES-RS

Marcha é uma reação ao grande número de assassinatos ocorridos neste ano, que já superaram os índices de 2011

A gente geralmente vê estatísticas e não enxerga as pessoas por trás, mas a violência contra a mulher é um problema bem sério da sociedade. O Brasil é o sétimo país do mundo onde mais ocorrem assassinatos de mulheres. Não dá, né? Por isso, domingo (2), vai ter uma caminhada na Redenção, em Porto Alegre, com o lema “Basta de Violência contra a Mulher”, dando início a um conjunto de ações para reduzir as agressões e mortes e promover a igualdade de gênero. A concentração vai ser na frente do Monumento ao Expedicionário, às 10h30.

Durante a caminhada será divulgada uma carta de recomendação contendo sugestões destinadas a diversos órgãos ligados ao Poder Público ou à sociedade civil.

“É inaceitável conviver com estes atos de agressão e morte de mulheres. Convidamos toda a sociedade a somar-se a este movimento”, convoca o  secretário do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES-RS), Marcelo Danéris.

A secretária de Políticas para as Mulheres, Márcia Santana, sugere que os participantes vistam alguma peça de roupa lilás ou branca.

Estatística dolorosa 

Seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica. Somente na última década, 43 mil delas foram assassinadas, sendo 70% dessas mortes dentro de casa.  O machismo (46%) e alcoolismo (31%) são apontados como os principais fatores que contribuem para a violência e, segundo a ONU, a violência doméstica custa R$ 10,5% do PIB.

Femicídios neste ano já superam 2011

Em todo o ano de 2011 foram assassinadas 46 mulheres no Rio Grande do Sul. De janeiro a agosto deste ano o número chega a 50, revelou a coordenadora das Delegacias de Atendimento à Mulher,  Nadine Anflor. Um diagnóstico realizado pela Secretaria de Segurança Pública nos primeiros cinco anos da Lei Maria da Penha (agosto de 2006 a agosto de 2011) apontou o assassinato de 327 mulheres, enquadrado como femicídio pela terminologia da nova lei.

“É mentira que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. É preciso envolver a família, amigos, colegas de trabalho, parentes e toda a rede de relações das pessoas que sofrem violência para monitorar e denunciar situações de abuso e violência doméstica para alterar este quadro que machuca toda a sociedade”, disse Danéris.

Onde procurar ajuda em caso de violência

Em caso flagrante, primeiro acione a Brigada Militar (Disque 190). Entre em contato com a Rede de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, através do Escuta Lilás – Ligue 0800 5410803, que é o número de utilidade pública do Centro de Referência da Mulher do RS (CRM/RS), ligado à SPM. Você também pode ligar para o 180.

Por telefone ou presencialmente, assistentes sociais, psicólogas/os e advogadas/os do CRM/RS orientam as mulheres em situação de violência sobre seus direitos e sobre os serviços disponíveis para o atendimento de suas demandas. A rede é composta por delegacias, casas-abrigo, Defensoria Pública, Ministério Público, juizados, postos de saúde, centros de perícia, centros de educação, reabilitação e responsabilização dos agressores, organismos de políticas para as mulheres, Núcleos de enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, movimento de mulheres e Centrais de Atendimento à Mulher, como o “Ligue 180”.

Caminhada do “Basta de Violência contra a Mulher” vai ser domingo

A medíocre elite social brasileira

Ignorante e presunçosa, ela lê pouco, ostenta, cultiva o consumismo e tem profundo preconceito em relação às maiorias 

Por Henrique Abel, no Observatório da Imprensa, capturado no Outras Palavras

Um dos preconceitos mais firmemente bem estabelecidos no Brasil é aquele que afirma que a culpa de todos os problemas do país decorre da “ignorância do povo”. A elite social da população brasileira, formada pelas classes A e B, em linhas gerais, está profundamente convencida de que o seu status de elite social lhe concede – como um bônus – também o título de “elite intelectual” do país.

Dentro desse raciocínio, a elite brasileira “chegou lá” não apenas economicamente, mas também no que diz respeito às esferas intelectuais e morais – talvez até espirituais. O país só não vai pra frente, portanto, por causa dessa massa de ignóbeis das classes inferiores. Embora essa ideia preconcebida seja confortável para o ego dos que a sustentam, os fatos insistem em negar a tese do “povo ignorante versus elite inteligente”.

O motivo é simples de entender: em nenhum lugar do mundo, a figura genericamente considerada do “povo” se destaca como iluminada ou genial. Por definição, uma autêntica elite intelectual de um país se destaca, precisamente, por seu contraste com a mediocridade (aí entendida como “relativa ao que é mediano”). Ou seja, não é “o povo” que tem obrigações intelectuais para com a elite social, e sim, justamente o contrário: é preferencialmente entre a elite social e econômica que se espera que surja, como consequência das melhores condições de vida desfrutadas, uma elite intelectual digna do nome.

Analfabetos funcionais

Uma elite social que, intelectualmente, faça jus ao espaço que ocupa na sociedade, não apenas cumpre com o seu papel social de dar algum retorno ao meio que lhe deu as condições para uma vida melhor como, ainda, cumpre o seu papel de servir como exemplo – um exemplo do tipo “estude você também”, e não um exemplo do tipo “lute para poder comprar um automóvel tão caro quanto o meu”.

Tendo isso em mente, torna-se fácil perceber que o problema do Brasil não é que o nosso povo seja “mais ignorante”, pela média, do que a população dos Estados Unidos ou das maiores economias europeias. O problema, isso sim, é que o nosso país ostenta aquela que é talvez a elite social mais ignorante, presunçosa e intelectualmente preguiçosa do mundo, que repele qualquer espécie de intelectualidade autêntica precisamente porque acredita que seu status social lhe confere, automaticamente, o decorrente status de membro da elite intelectual pátria, como se isso fosse uma espécie de título aristocrático.

Nenhum país do mundo tem um povo cujo cidadão médio é extremamente culto e devorador de livros. O problema se dá quando um país tem uma elite social que é extremamente inculta e lê/escreve num nível digno de analfabetismo funcional. Pesquisas recentemente divulgadas dão por conta que apenas 25% dos brasileiros são plenamente alfabetizados, e que o número de analfabetos funcionais entre estudantes universitários é de 38%. A elite social brasileira possivelmente acredita que a totalidade desses 75% de deficientes intelectuais encontra-se abrangida pelas classes C, D e E.

Sem diferença

Será mesmo? Outra pesquisa recentemente divulgada noticiava que o brasileiro lê uma média de cerca de quatro livros por ano. Enquanto os integrantes da Classe C afirmavam ter lido 1,79 livro no último ano, os integrantes da Classe A disseram ter lido 3,6. O número é maior, como naturalmente seria de se esperar, mas a diferença é muita pequena dado o abismo de condições econômicas entre uma classe e outra. Qual é o dado grave que se constata aí? Será que o problema real da formação intelectual do nosso país está no fato de que o cidadão médio lê apenas dois livros por ano? Ou está no fato de que a autodenominada elite intelectual do país lê apenas quatro livros por ano? Vou encerrar o argumento ficando apenas no dado quantitativo, sem adentrar a provocação qualitativa de questionar se, entre esses quatro livros anuais, consta alguma coisa que não sejam os últimos e rasos best-sellers de vitrine, a literatura infanto-juvenil e os livros de dieta e autoajuda.

O que importa é ter a consciência de que o descalabro intelectual brasileiro não reside no fato de que o típico cidadão médio demonstra desinteresse pela vida intelectual e gosta mais de assistir televisão do que de ler livros. Ora, este é o retrato do cidadão médio de qualquer país do mundo, inclusive das economias mais desenvolvidas.

O que é digno de causar espanto é, por exemplo, ver Merval Pereira sendo eleito um imortal da Academia Brasileira de Letras em virtude do “incrível” mérito literário de ter reunido, na forma de livro, uma série de artigos jornalísticos de opinião, escritos por ele ao longo dos anos. Ou seja: dependendo dos círculos sociais que você frequenta, hoje é possível ingressar na Academia Brasileira de Letras meramente escrevendo colunas de opinião em jornais. Podemos sobreviver ao cidadão médio que lê dois livros por ano, mas não estou convencido de que podemos sobreviver a uma suposta elite intelectual que não vê diferença literária entre Moacyr Scliar e Merval Pereira.

“Vão ter que me engolir”

Apenas para referir mais um exemplo (entre tantos) das invejáveis capacidades intelectuais da elite social brasileira: na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo noticiou que uma celebridade global havia perdido a compostura no Twitter após sofrer algumas críticas em virtude de um comentário que havia feito na rede social. A vedete, longe de ser uma estrelinha de quinta categoria, é casada com um dos diretores da toda-poderosa Rede Globo.

Bem, imagina-se que uma pessoa tão gloriosamente assentada no topo da cadeia alimentar brasileira certamente daria um excelente exemplo de boa formação intelectual ao se manifestar em público por escrito, não é mesmo? Pois bem, vamos dar uma lida nas sua singelas postagens, conforme referidas na reportagem mencionada:

“Almas penadas, consumidas pela a inveja, o ódio e a maledicência, que se escondem atrás de pseudônimos para destilarem seus venenos. Morram!”

“Só mais uma coisinha! Vão ter que me engolir, também f…-se, vocês são minurias [sic] e minuria [sic] não conta.”

Em quem se espelhar?

Não vou nem entrar no mérito da completa falta de educação dessa pessoa, que parece menos uma rica atriz global do que um valentão de boteco. Vou me ater apenas a dois detalhes. Primeiro: a intelectual do horário nobre da Globo escreve “minoria” com “u”, atestando para além de qualquer dúvida razoável que se encontra fora do grupo dos 25% dos brasileiros plenamente alfabetizados (ela comete o erro duas vezes, descartando qualquer possibilidade de desculpa do tipo “foi erro de digitação”).

Segundo: ela acha que “minorias não contam”, demonstrando, portanto, que ignora completamente as noções mais elementares do que vem a ser um Estado democrático de Direito, ou mesmo o simples conceito de “democracia” na sua acepção contemporânea. Do ponto de vista da consciência de direitos políticos, sociais e de cidadania é, portanto, analfabeta dos pés à cabeça.

Com os ricos e famosos que temos no Brasil, em quem o mítico e achincalhado “homem-médio” poderia mesmo se espelhar?

A medíocre elite social brasileira

Trabalhar de graça pra Fifa?

Em algum momento decidiu-se que trabalhar de graça pro pessoal que mais ganha dinheiro no mundo e sem ajudar ninguém que precise de ajuda era legal. Daí se criou o programa de voluntariado durante grandes eventos esportivos, que virou notícia no Brasil semana passada com a seleção do grupo de desapegados do mundo material que vão contribuir para que mais dinheiro da Copa do Mundo de 2014 migre para os bolsos de quem já não tem mais bolsos para enfiar tanto dinheiro.

Virou até capa de jornal por aqui o pessoal que se inscreveu para ser voluntário da Copa em todo o Brasil, principalmente os gaúchos (claro), e que ainda nem foi selecionado. Nas redes sociais, a galera comemora o simples fato de ter feito a inscrição. A galera já está feliz só por ter se inscrito.

Juro, não consigo entender o que os motiva. Os jornais, sim, estão atrás de lucro, como sempre. Mas os inscritos, sério, não entendo. É para ver um jogador de futebol de perto? Se sim, pra quê? Se é pra conhecer gente nova, interagir, não precisava entregar tua força de trabalho de graça, convenhamos.

O grande negócio é que o pessoal vai estar trabalhando de graça pro COL (Comitê Organizador Local) e pra Fifa. É um mundo em que circula muita grana. Futebol é legal, esporte é ótimo e até nem sou radical em dizer que Copa e Olimpíadas não deveriam ter vindo pro Brasil. Mas trabalhar de graça pra esse povo?

Em quê esse trabalho voluntário vai ajudar o Brasil? Por que ele não é pago, considerando toda essa grana de que falei aí em cima?

O que eles fazem é explorar a mão de obra do trabalhador e transformar isso em uma coisa legal. Vergonhoso é os jornais esquecerem o jornalismo e o espírito crítico (será que ainda têm algum?) e aderirem a essa publicidade, comemorando junto. Sem em nenhum momento se perguntar por que isso é bom para o Brasil e para a cidadania.

Trabalhar de graça pra Fifa?