A volta do primeiro-damismo celebrada pela mídia

marcelaé difícil escolher por onde começar aqui, viu. são tantos problemas em um texto só que tá complicado. listo quatro: puxa-saquismo, machismo, futilidade e total desconhecimento (pra não dizer que é o posicionamento da empresa mesmo) em relação às políticas sociais. lá pelas tantas, a matéria diz: “A ocasião pedia um traje mais imponente, mas o novo rosto das causas sociais brasileiras, função intrínseca ao cargo de primeira-dama, preferiu o jogo político da moda.”

pra folha (ou, pelo menos, pro cidadão que assina o texto), política social é função intrínseca ao cargo de primeira dama. voltamos aos tempos em que política social era assistencialismo, caridade. deixemos de lado a política social que emancipa, que transforma. deixemos de lado a “política” do social.

parece pequena essa diferença de abordagem, mas é crucial. muda tudo. é um retrocesso sem tamanho. triste demais.

A volta do primeiro-damismo celebrada pela mídia

A ideia era poder dizer que a rua tava grande pra pouca gente. Que ninguém tinha ido e a sustentação do governo era fraca. Não deu, a rua lotou, em todo o país. Tentaram, mas não tinha como disfarçar as imagens. Aí, qual a solução? Mudar a narrativa, trocar o foco. Agora, o grande problema é q no dia 18 a rua foi tomada por ~militantes~, ao contrário do dia 13, que reuniu cidadãos.

Dois pontos:

1. Essa construção é uma mentira. Eu estava na rua dia 18 e vi tudo que é tipo de gente. Aliás, aí tá a beleza, na diversidade. Teve gente que não aceitou material de defesa do Lula porque tava ali só pela democracia, por exemplo.

2. Militantes não são cidadãos? Sério, globo? A pior parte desse discurso é deslegitimar o militante. A pessoa vale menos porque ela tem uma história de luta? A mobilização é menos mobilização porque quem milita ali já militou em outras causas antes? Esse é um discurso extremamente agressivo (como, aliás, tem sido todo o movimento de direita que quer derrubar a presidenta) e preconceituoso. Eu sou militante, sim. E sou militante porque sou cidadã. Porque quero construir um lugar melhor pra gente viver. Globo, uma dica: não me diminui por ser militante, porque tenho um baita orgulho disso, viu.

Sobre a ciclovia da Ipiranga

Hoje de manhã passei de ônibus pelo lugar onde a ciclista foi atropelada. Acabei vendo a cena meio sem querer – não tinha noção exata de onde tinha sido e não gosto de ficar espiando tragédia.

Além do dia começar carregado e triste, começa também um tanto reflexivo.

Primeiro, faz a gente pensar na forma com que as pessoas lidam com o trânsito. Na verdade, na forma com que a gente, de um modo geral, lida com a vida, com as outras pessoas. A gente sempre tem que ser mais rápido, mais certo, mais esperto que os outros. A gente nunca tá errado e a gente tem sempre que chegar primeiro. A gente tem que estar sempre na frente. Em tudo.

A gente, a gente, a gente. Eu, eu, eu. Repararam como a gente dificilmente se coloca no lugar do outro? Dificilmente se solidariza e é um pouco mais generoso nas nossas ações?

A outra reflexão é sobre a mídia e a cidade. Soube do atropelamento pela rádio hoje de manhã. Antes mesmo de passar ali pelo lugar, já ouvia a jornalista reclamando que ciclistas têm que andar na ciclovia, não podem andar fora dela. E que volta e meia vê isso acontecer, dando o exemplo da Ipiranga. Me parece que falta um pouco de noção de responsabilidade.

Começando pelo timing péssimo. O corpo da menina ainda estava no meio da rua e a jornalista já culpava a vítima, antes de qualquer perícia, sem qualquer respeito.

E continuando pela falta de conhecimento (prefiro crer nessa hipótese do que em má fé) sobre a situação das vias de Porto Alegre. A ciclovia da Ipiranga, a que ela se referiu, presta um baita desserviço aos ciclistas. A tinta é escorregadia e causa acidentes em dia de chuva. Os obstáculos – árvores e postes – são desviados, em uma aparente solução que causa dois problemas: 1) a ciclovia desvia dos troncos, mas não dos galhos; 2) o ciclista perde a visibilidade em diversos pontos e acaba não vendo quem vem pelo outro lado. Por fim, a ciclovia troca de lado do Dilúvio várias vezes ao longo do caminho, passando por cima da calçada nesses pontos. Esses são alguns problemas dessa ciclovia específica, mas certamente meus amigos ciclistas poderiam acrescentar vários outros.

Resumindo, e era aí que eu queria chegar, a ciclovia não serve ao ciclista e torna o motorista ainda mais hostil a quem está na bicicleta na faixa destinada aos carros, o que nos leva de volta ao primeiro ponto, ao egocentrismo geral da galera. E à postura da mídia. Quando a fulana se posiciona da forma que descrevi acima para a audiência grande que ela tem, ela incentiva essa hostilidade e fortalece esse pensamento tacanho, sem uma perspectiva mais ampla de cidade e de sociedade.

Enfim, tem tanta coisa errada que me dá até preguiça ao mesmo tempo em que me deixa triste.

Sobre a ciclovia da Ipiranga

Outono

A grande vantagem de morar em um lugar que tem as quatro estações bem definidas não é ter um calor absurdo no verão ou um frio desnecessário no inverno. A grande vantagem, quer dizer, AS grandes vantagens são ter a cidade cheia de flores na primavera e a luz linda e suave e a lua displicentemente encantadora no outono.

Escurece mais cedo, mas escurece mais bonito. Chega aí, outono.

outono

Outono

Mais investimentos ou Estado mínimo? Qual é, afinal, a linha editorial dos grandes grupos de comunicação?

Resposta: a que convém ao momento.

Ok, acho que um dos papéis do jornalismo é apontar os problemas nos diversos serviços públicos (deveria falar mais de empresas privadas também, mas deixemos isso pra um outro momento). Mas quando se fala SÓ dos problemas de uma política que se sabe que teve muitos avanços, o jornalismo já não está mais cumprindo seu papel.

Hoje a rádio de maior audiência do estado entrevistou professores de escolas da rede pública estadual para que falassem de problemas de infraestrutura nas suas unidades. Nenhuma escola que foi reformada foi convidada a participar, pelo menos na parte do programa que eu ouvi. Dessa forma, a rádio instaura um cenário de caos, mas que é um cenário parcial, que não corresponde ao todo da realidade. Cria uma percepção do todo com base na parte e não contribui para a compreensão da situação da educação no Estado. Aí vão alguns poucos dados que mostram alguns dos avanços:

– 63 escolas já têm um computador por aluno

– embora ainda bem longe do ideal, os professores da rede pública estadual receberam 76,68% de aumento e nenhum percebe, na prática, menos que o piso

– 5,5 mil novos professores foram nomeados

– 1.800 escolas foram reformadas ou receberam algum tipo de intervenção, totalizando R$ 300 milhões em investimentos

Crianças do projeto Província de São Pedro usando computadores

Aqui é possível encontrar mais informações sobre o programa Província de São Pedro, que tem como objetivo destinar um computador por aluno da rede estadual.

Educação é um ponto sensível, sim, até porque foi o tema escolhido pela mídia para fazer a oposição mais pesada. Toda a estrutura, desde as instalações até os recursos humanos estavam completamente defasados. Lembram das escolas de lata?

Ainda está longe do ideal? Claro! Os professores seguem ganhando pouco, as escolas ainda não estão adaptadas às necessidades do século XXI – muitas ainda nem às do século XX -, mas na política a gente sempre tem que avaliar em perspectiva, e comparar é fundamental. Quando antes houve avanços tão grandes em tão pouco tempo na educação no Estado?

Pois é.

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Aliás, vale dar uma bisoiada também (quer dizer, não vale muito) na coluna da Maria Isabel Hammes, na editoria de Economia da Zero Hora hoje (6). Ela defende claramente uma política de redução de investimentos, de corte de gastos, para que se consiga diminuir a dívida do Estado. Mais ou menos o que fez o governo Yeda, que parou de investir e estagnou o Estado. Que andou pra trás. Isso no mesmo dia que o seu colega critica repetidamente a situação das escolas.

Mas, peraí, é pra investir ou não? Percebam que a equação do Grupo RBS não funciona. Como melhorar os serviços e aplicar a política do Estado mínimo ao mesmo tempo? Pra andar pra frente, pra funcionar, o Estado precisa de investimentos. A política de incentivo ao desenvolvimento aplicada pelo Governo Tarso se baseia justamente no aumento de investimentos, na recuperação da estrutura do Estado. Mas infelizmente muitos desses investimentos ainda estão recuperando o rombo causado pela inércia dos serviços públicos na gestão anterior. Ainda restam muitos problemas, sem dúvida, mas, repito, é preciso ver em perspectiva. E aí se percebe o tanto que se vem avançando.

O que não dá é pra pedir escolas melhores, salários melhores, estradas melhores, novos hospitais, mais médicos e assim por diante e ao mesmo tempo pedir redução de impostos e corte de gastos. Afinal, é Estado mínimo ou é mais Estado? Podiam pelo menos definir uma linha de raciocínio, pra criticar de um jeito um pouco menos contraditório.

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Foto: Camila Domingues/Palácio Piratini

Mais investimentos ou Estado mínimo? Qual é, afinal, a linha editorial dos grandes grupos de comunicação?

DEMOCRACIA E PARCERIA, por Luiz Inácio Lula da Silva

São gravíssimos os atos de espionagem praticados pela NSA – a Agência Nacional de Segurança dos EUA – contra os Chefes de Estado do Brasil e do México. Nada, absolutamente nada pode justificar a interceptação de telefonemas e a invasão da correspondência reservada dos Presidentes da República de países amigos, ferindo a sua soberania e desrespeitando os princípios mais elementares da legalidade internacional. E é mais grave ainda que importantes autoridades norte-americanas tenham querido legitimar tal agressão com o argumento de que os EUA estariam “protegendo” os interesses dos nossos países.

À medida que a verdade dos fatos vai sendo revelada, fica evidente que, no caso brasileiro, além da Presidente Dilma Rousseff, a Petrobrás, nossa empresa petrolífera, também foi espionada pela NSA, o que desmente as alegadas – e já por si inaceitáveis – razões de segurança.

A inadmissível ingerência nos assuntos internos do Brasil e as falsas razões alegadas provocaram a indignação da sociedade e do governo brasileiros. A Presidente Dilma Rousseff já questionou diretamente o Presidente Barack Obama sobre o problema e aguarda uma resposta convincente, à altura de sua gravidade.

O governo brasileiro está tratando o caso com a maturidade e o sentido de responsabilidade que caracterizam a Presidente Dilma Rousseff e a nossa diplomacia – mas é impossível subestimar o impacto que ele pode ter, se não for adequadamente resolvido, para as relações Brasil-EUA.

Basta imaginar o escândalo e a comoção que aconteceriam nos Estados Unidos se algum país amigo interceptasse ilegalmente, sob qualquer pretexto, os telefonemas e a correspondência reservada de seu Presidente.

O que leva um país como os EUA, tão justamente ciosos de sua democracia e de sua legalidade internas, a afrontarem a democracia e a legalidade dos outros? O que faz pensar às autoridades norte-americanas que elas podem e principalmente devem agir de modo tão insensato contra um país amigo? O que as faz acreditar que não existe nenhum inconveniente moral ou político em desrespeitar o Chefe de Estado, as instituições e as empresas do Brasil ou de qualquer outro país democrático?

E o mais inexplicável é que essa flagrante ofensa à soberania e à democracia brasileiras acontece num contexto de excelentes relações bilaterais. O Brasil, historicamente, sempre valorizou as suas relações com os Estados Unidos. Nos últimos dez anos, trabalhamos ativamente, e com bons resultados, para ampliar ainda mais a interação econômica e política do Brasil com os EUA.  Mantivemos ótimo diálogo institucional e pessoal com os seus governantes. Apostamos em uma parceria de fato estratégica entre os dois países, baseada em interesses comuns, sem prejuízo do nosso esforço pela integração da América Latina e de um maior intercâmbio com a África, a Europa e a Ásia.

Para isso, não hesitamos em enfrentar a desconfiança e o ceticismo de amplos setores da opinião pública brasileira, ainda traumatizados pela participação direta do governo norte-americano no golpe de Estado de 1964 e o seu permanente apoio à ditadura militar (como, de resto, a outras ditaduras militares do continente). Nunca duvidamos de que aprofundar o diálogo e fortalecer os laços econômicos e diplomáticos com os Estados Unidos fosse a melhor maneira de ajudá-los a superarem aquela página sombria das relações interamericanas, e a sua política de ingerência autoritária e antipopular na região.

No episódio atual, se ambos os países querem preservar o muito que as nossas relações bilaterais avançaram nas décadas recentes, cabe uma explicação crível e o necessário pedido de desculpas dos EUA. Mais do que isso: impõe-se a sua decidida mudança de atitude, pondo fim a tais práticas abusivas.

Os EUA devem compreender que a desejável parceria estratégica entre os dois países não pode assentar-se na atitude conspirativa de uma das partes. Condutas ilegais e desrespeitosas certamente não contribuem para construir uma confiança duradoura entre os nossos povos e os nossos governos.

Um episódio como esse, por outro lado, demonstra o esgotamento da atual governança mundial, cujas instituições, regras e decisões são frequentemente atropeladas por países que muitas vezes confundem seus interesses particulares com os interesses de toda a comunidade internacional. Demonstra que é mais urgente do que nunca superar o unilateralismo, seja ele dos EUA ou de qualquer outro país, e criar verdadeiras instituições multilaterais, capazes de conduzir o planeta com base nos preceitos do Direito Internacional e não na lei dos mais fortes.

O mundo de hoje, como ninguém ignora, é muito diferente daquele que emergiu da 2ª Guerra Mundial. Além da descolonização africana e asiática, diversos países do sul se modernizaram e industrializaram, conquistando importantes progressos sociais, culturais e tecnológicos. Com isso, adquiriam um peso muito superior no cenário mundial. Hoje, os países que não fazem parte do G-8 representam nada menos que 70% da população e 60% da economia do mundo. Mas a ordem política global continua tão monopolizada e restritiva quanto no inicio da guerra fria. A maioria dos países do mundo está excluída dos verdadeiros espaços de decisão. É injustificável, por exemplo, que a África e a América Latina não tenham nenhum membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou que a Índia esteja fora dele. A governança global precisa refletir o mundo contemporâneo. O Conselho de Segurança só será plenamente legítimo e democrático – e acatado por todos – quando as várias regiões do mundo participarem dele, e os seus membros não defenderem apenas os próprios interesses geopolíticos e econômicos, mas representarem efetivamente o anseio de todos os povos pela paz, a democracia e o desenvolvimento.

Esse episódio e outros semelhantes apontam também para uma questão crucial: a necessidade de uma governança democrática para a internet, de modo que ela seja cada vez mais um terreno de liberdade, criatividade e cooperação – e não de espionagem.

* Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil

DEMOCRACIA E PARCERIA, por Luiz Inácio Lula da Silva

Anúncio do pibão evidencia partidarismo da imprensa

Não foi em tom de dúvida. O caderno Dinheiro da Zero Hora de domingo foi uma constatação, uma certeza de que o Rio Grande do Sul não tem chance. Uma frase atrás da outra montando um retrato de caos. As contas do estado não fechariam, o crescimento seria ínfimo, quase sem salvação. Quer dizer, salvação até teria, mas seria preciso “reinventar-se outra vez, encontrar um rumo, tomar as decisões certas”. Ou seja, não com o governo que aí está, esse sem rumo.

Essa é a mensagem, claríssima, de um jornal que assume, neste caderno mais do que nunca, sua posição de oposição ao governo do estado. Vale dizer o que for, mesmo que não seja bem verdade.

Nem me refiro a uma frase específica. Vários problemas de fato existem, mas eles são descontextualizados, parecem fruto exclusivamente da política atual e termina que a narrativa constrói uma história que não corresponde com a realidade. Os números usados são de 2011, mas isso aparece no cantinho do gráfico, escondidinho. Em nenhum momento o texto deixa claro que o caos que eles estão mostrando não é atual, pelo contrário. Mas aí não passou nem uma semana e veio o anúncio de que o PIB gaúcho no 2º trimestre foi de 15%. Quinze por cento! Padrão chinês de crescimento, acima de qualquer indicador nacional. Mas lá na matéria do Itamar Melo e do Nilson Mariano está: “continuaremos a crescer mais devagar do que o Brasil nos anos vindouros”.

E é assim em todos os veículos do grupo. Num dia (terça, 10), a Gaúcha fala em risco de desemprego por retração da indústria no estado. No dia seguinte, a Zero Hora tem que dar o PIB de 15% por causa da "supersafra de grãos e da produção industrial". Não é de hoje que a RBS se comporta como partido. E não é de hoje que repudia qualquer ação desenvolvimentista, mas agora consegue dar uma volta e criticar a política desenvolvimentista do governo Tarso por… falta de desenvolvimento!

Mas não faltam investimentos e o estado cresce, como ficou provado poucos dias depois. O relatório da Fundação de Economia e Estatística (FEE) mostra muito claramente o cenário e evidencia essa postura partidária do grupo de comunicação. Aliás, escancara a manipulação da informação.

E, assim, na boa, comparar crescimento e políticas de 2013 com a República Velha é risível.

Anúncio do pibão evidencia partidarismo da imprensa