DEMOCRACIA E PARCERIA, por Luiz Inácio Lula da Silva

São gravíssimos os atos de espionagem praticados pela NSA – a Agência Nacional de Segurança dos EUA – contra os Chefes de Estado do Brasil e do México. Nada, absolutamente nada pode justificar a interceptação de telefonemas e a invasão da correspondência reservada dos Presidentes da República de países amigos, ferindo a sua soberania e desrespeitando os princípios mais elementares da legalidade internacional. E é mais grave ainda que importantes autoridades norte-americanas tenham querido legitimar tal agressão com o argumento de que os EUA estariam “protegendo” os interesses dos nossos países.

À medida que a verdade dos fatos vai sendo revelada, fica evidente que, no caso brasileiro, além da Presidente Dilma Rousseff, a Petrobrás, nossa empresa petrolífera, também foi espionada pela NSA, o que desmente as alegadas – e já por si inaceitáveis – razões de segurança.

A inadmissível ingerência nos assuntos internos do Brasil e as falsas razões alegadas provocaram a indignação da sociedade e do governo brasileiros. A Presidente Dilma Rousseff já questionou diretamente o Presidente Barack Obama sobre o problema e aguarda uma resposta convincente, à altura de sua gravidade.

O governo brasileiro está tratando o caso com a maturidade e o sentido de responsabilidade que caracterizam a Presidente Dilma Rousseff e a nossa diplomacia – mas é impossível subestimar o impacto que ele pode ter, se não for adequadamente resolvido, para as relações Brasil-EUA.

Basta imaginar o escândalo e a comoção que aconteceriam nos Estados Unidos se algum país amigo interceptasse ilegalmente, sob qualquer pretexto, os telefonemas e a correspondência reservada de seu Presidente.

O que leva um país como os EUA, tão justamente ciosos de sua democracia e de sua legalidade internas, a afrontarem a democracia e a legalidade dos outros? O que faz pensar às autoridades norte-americanas que elas podem e principalmente devem agir de modo tão insensato contra um país amigo? O que as faz acreditar que não existe nenhum inconveniente moral ou político em desrespeitar o Chefe de Estado, as instituições e as empresas do Brasil ou de qualquer outro país democrático?

E o mais inexplicável é que essa flagrante ofensa à soberania e à democracia brasileiras acontece num contexto de excelentes relações bilaterais. O Brasil, historicamente, sempre valorizou as suas relações com os Estados Unidos. Nos últimos dez anos, trabalhamos ativamente, e com bons resultados, para ampliar ainda mais a interação econômica e política do Brasil com os EUA.  Mantivemos ótimo diálogo institucional e pessoal com os seus governantes. Apostamos em uma parceria de fato estratégica entre os dois países, baseada em interesses comuns, sem prejuízo do nosso esforço pela integração da América Latina e de um maior intercâmbio com a África, a Europa e a Ásia.

Para isso, não hesitamos em enfrentar a desconfiança e o ceticismo de amplos setores da opinião pública brasileira, ainda traumatizados pela participação direta do governo norte-americano no golpe de Estado de 1964 e o seu permanente apoio à ditadura militar (como, de resto, a outras ditaduras militares do continente). Nunca duvidamos de que aprofundar o diálogo e fortalecer os laços econômicos e diplomáticos com os Estados Unidos fosse a melhor maneira de ajudá-los a superarem aquela página sombria das relações interamericanas, e a sua política de ingerência autoritária e antipopular na região.

No episódio atual, se ambos os países querem preservar o muito que as nossas relações bilaterais avançaram nas décadas recentes, cabe uma explicação crível e o necessário pedido de desculpas dos EUA. Mais do que isso: impõe-se a sua decidida mudança de atitude, pondo fim a tais práticas abusivas.

Os EUA devem compreender que a desejável parceria estratégica entre os dois países não pode assentar-se na atitude conspirativa de uma das partes. Condutas ilegais e desrespeitosas certamente não contribuem para construir uma confiança duradoura entre os nossos povos e os nossos governos.

Um episódio como esse, por outro lado, demonstra o esgotamento da atual governança mundial, cujas instituições, regras e decisões são frequentemente atropeladas por países que muitas vezes confundem seus interesses particulares com os interesses de toda a comunidade internacional. Demonstra que é mais urgente do que nunca superar o unilateralismo, seja ele dos EUA ou de qualquer outro país, e criar verdadeiras instituições multilaterais, capazes de conduzir o planeta com base nos preceitos do Direito Internacional e não na lei dos mais fortes.

O mundo de hoje, como ninguém ignora, é muito diferente daquele que emergiu da 2ª Guerra Mundial. Além da descolonização africana e asiática, diversos países do sul se modernizaram e industrializaram, conquistando importantes progressos sociais, culturais e tecnológicos. Com isso, adquiriam um peso muito superior no cenário mundial. Hoje, os países que não fazem parte do G-8 representam nada menos que 70% da população e 60% da economia do mundo. Mas a ordem política global continua tão monopolizada e restritiva quanto no inicio da guerra fria. A maioria dos países do mundo está excluída dos verdadeiros espaços de decisão. É injustificável, por exemplo, que a África e a América Latina não tenham nenhum membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou que a Índia esteja fora dele. A governança global precisa refletir o mundo contemporâneo. O Conselho de Segurança só será plenamente legítimo e democrático – e acatado por todos – quando as várias regiões do mundo participarem dele, e os seus membros não defenderem apenas os próprios interesses geopolíticos e econômicos, mas representarem efetivamente o anseio de todos os povos pela paz, a democracia e o desenvolvimento.

Esse episódio e outros semelhantes apontam também para uma questão crucial: a necessidade de uma governança democrática para a internet, de modo que ela seja cada vez mais um terreno de liberdade, criatividade e cooperação – e não de espionagem.

* Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente do Brasil

DEMOCRACIA E PARCERIA, por Luiz Inácio Lula da Silva

Anúncio do pibão evidencia partidarismo da imprensa

Não foi em tom de dúvida. O caderno Dinheiro da Zero Hora de domingo foi uma constatação, uma certeza de que o Rio Grande do Sul não tem chance. Uma frase atrás da outra montando um retrato de caos. As contas do estado não fechariam, o crescimento seria ínfimo, quase sem salvação. Quer dizer, salvação até teria, mas seria preciso “reinventar-se outra vez, encontrar um rumo, tomar as decisões certas”. Ou seja, não com o governo que aí está, esse sem rumo.

Essa é a mensagem, claríssima, de um jornal que assume, neste caderno mais do que nunca, sua posição de oposição ao governo do estado. Vale dizer o que for, mesmo que não seja bem verdade.

Nem me refiro a uma frase específica. Vários problemas de fato existem, mas eles são descontextualizados, parecem fruto exclusivamente da política atual e termina que a narrativa constrói uma história que não corresponde com a realidade. Os números usados são de 2011, mas isso aparece no cantinho do gráfico, escondidinho. Em nenhum momento o texto deixa claro que o caos que eles estão mostrando não é atual, pelo contrário. Mas aí não passou nem uma semana e veio o anúncio de que o PIB gaúcho no 2º trimestre foi de 15%. Quinze por cento! Padrão chinês de crescimento, acima de qualquer indicador nacional. Mas lá na matéria do Itamar Melo e do Nilson Mariano está: “continuaremos a crescer mais devagar do que o Brasil nos anos vindouros”.

E é assim em todos os veículos do grupo. Num dia (terça, 10), a Gaúcha fala em risco de desemprego por retração da indústria no estado. No dia seguinte, a Zero Hora tem que dar o PIB de 15% por causa da "supersafra de grãos e da produção industrial". Não é de hoje que a RBS se comporta como partido. E não é de hoje que repudia qualquer ação desenvolvimentista, mas agora consegue dar uma volta e criticar a política desenvolvimentista do governo Tarso por… falta de desenvolvimento!

Mas não faltam investimentos e o estado cresce, como ficou provado poucos dias depois. O relatório da Fundação de Economia e Estatística (FEE) mostra muito claramente o cenário e evidencia essa postura partidária do grupo de comunicação. Aliás, escancara a manipulação da informação.

E, assim, na boa, comparar crescimento e políticas de 2013 com a República Velha é risível.

Anúncio do pibão evidencia partidarismo da imprensa

Globo assume – naquelas – o apoio ao golpe de 1964. E não pede desculpa!

Eis que o Globo faz um mea culpa e se diz arrependido de ter apoiado o golpe militar no Brasil. Peraí, é isso mesmo? Hmm, na verdade, não exatamente.

O editorial em que o jornal carioca assume que quase 50 anos atrás fez outro editorial comemorando o 1º de abril de 1964 como o ressurgimento da democracia diz sim que foi um erro, mas não chega a dizer que não deveria ter feito o que fez ou que hoje não faria o mesmo.

Ok, assumir um erro, antes tarde do que nunca, é válido, assim como responder ao clamor das ruas. Mas só é válido mesmo se é legítimo. E desconfio que não seja o caso.

Primeiro, o texto cita outros jornais e “parcela importante da população” como que para dizer que não estava sozinho e diminuir sua culpa. Manhê, o Joãozinho jogou bola dentro de casa, daí eu joguei também e quebrei o vaso. A culpa é tão do Joãozinho quanto minha. Ou seja, bora apontar o dedo pros outros pra tentar aliviar a consciência, diminuir um erro que é nosso, só nosso. Ainda mais quando já somos bem grandinhos e podemos – devemos – tomar decisões sozinhos.

Depois, criticam João Goulart, suspeito ainda de dar um golpe, o que justificaria, então, outro golpe defensivo. Hein? Boa estratégia, defender um golpe pra evitar outro golpe que seria dado pelo presidente democraticamente eleito, que, por sua vez, foi antidemocrático ao retomar o presidencialismo através de um, vejam bem, plebiscito, com votos do povo. Muito coerente. Tem um parágrafo ali tão torto, tão contraditório e tão cheio de ódio que chega a dar preguiça. Mas que comprova que as intenções do editorial não são tão verdadeiras assim.

materia-o-globo-de-07-10-1984Aí querem nos fazer crer que passaram a ditadura inteira tentando convencer os militares a acabar com ela. Aham. Pra isso, citam um editorial de Roberto Marinho em 1984. Elogiando Geisel, um presidente-ditador, ainda que tenha sido ele o responsável pela abertura inevitável. “Destacava também os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara a sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da democracia”. Ou seja, reconhecia totalmente o erro, só que não. E ainda o justificava.

“Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade.” E eu achando que era um texto pra reconhecer que tinha acontecido exatamente o contrário e pra pedir desculpa a todos que foram expulsos do país, que foram presos, torturados, mortos. Já no fim, ainda diz: “Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva”. Não, não são. Muitos deles estão vivos e ainda buscam, no mínimo, um pedido de desculpa, já que a justiça parece tão distante. Esse pedido não veio. E, na boa, sem ele esse texto todo não vale nada.

É bonito dizer que foi um erro, mas “pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país.” Em determinado momento, o editorial diz que é preciso compreender os atos e os posicionamentos dentro do seu contexto. De fato, por justiça, é preciso entender o momento histórico. Nesse caso, é hipócrita não dizer que as Organizações Globo lucraram imensamente com a a ditadura. Não seriam o que são hoje sem ela. E isso, olha só, não está no texto.

Ainda que fosse um mea culpa de coração, não seria suficiente. A sociedade continua pagando pelos posicionamentos das grandes organizações da mídia. Ainda espero um editorial da Globo assumindo a criminalização dos movimentos sociais, o apoio na eleição do Collor, a perspectiva neoliberal por que rege seu noticiário, a tentativa de derrubar governos democraticamente eleitos porque são de esquerda e tantas outras coisas.

De qualquer forma, já é possível dizer com certeza que o período de 64 a 85 foi, na verdade, uma ditadura civil-militar, com apoio de parcelas poderosas da sociedade civil, como grandes grupos de imprensa.

Globo assume – naquelas – o apoio ao golpe de 1964. E não pede desculpa!

À saúde

Sempre pensei na medicina como uma profissão nobre. A mais nobre de todas. E sempre achei que marcar o x em medicina no vestibular significava uma vontade grande de trabalhar para os outros, pela vida. Pena que as coisas mudaram e o fato de ser uma profissão que dá dinheiro tenha se tornado mais relevante na hora da decisão.

Aí acontece o que a gente vê hoje no Brasil. Os médicos não querem ir pro interior. Ok, entendo não querer se afastar das famílias, dos centros culturais, aquela coisa toda. Mas sabe, tem gente que mora lá no interior. Lá na zona rural, na periferia das cidades, nas pequenas vilas, as pessoas também precisam de médico. Se você não quer se embrenhar lá no interior do desconhecido, ok, mas por que é tão contra aquele que quer?

medica-protestoMédico, quando você não quer atender e é tão contra quem quer, você está se mostrando extremamente desumano, cruel até. Justo você, que tem a humanidade e o amor ao próximo como requisito básico para o exercício da profissão, antes da ciência, da técnica, do conhecimento, antes da infraestrutura. Compaixão é básico, sabe. E ó, o que a gente viu hoje no Brasil está um tanto longe disso. Hostilizar pessoas que estão se afastando de suas famílias, de seu país e se embrenhando no interior de outra pátria que não a sua porque acreditam na necessidade de ajudar outras pessoas é bem egoísta. Tanto com o médico que está chegando quanto com os pacientes que precisam dele. Ainda mais do jeito que essa “opinião” foi expressada, de forma agressiva e preconceituosa, com as últimas pessoas que mereciam ter sido agredidas nesse momento, que mereciam, isso sim, a gratidão de todos nós, de quem precisa e de quem não precisa delas.

Ao longo dos dez anos de governos petistas no Brasil, talvez não tenha havido nenhum enfrentamento de verdade a um poder corporativista estabelecido como está sendo feito agora. É mais um passo importantíssimo na transformação social do país, mas acho mesmo que dá pra dizer que é o primeiro poder que é atingido diretamente.

A crueldade dos médicos soma-se ao espírito individualista da imprensa, que defende os interesses de uma elite preconceituosa e egoísta, pra quem não adianta não perder nada, é preciso que os de baixo não ganhem. Uma elite que não reconhece a população negra senão como seus empregados.

Uma imprensa que faz uma série sobre o caos na saúde pública com o patrocínio do comprometido Sindicato Médico e que depois se opõe a uma possível solução do caos que criticava não pode ser séria. A vida inteira vi essa mesma imprensa chamar Cuba de ditadura e usar vários outros adjetivos depreciativos que nem vale listar. Vi, nos últimos tempos, essa mesma imprensa criticar a vinda de médicos cubanos porque eles não eram bons o bastante. Quando viram que esse argumento era falho – além de a medicina cubana ser referência mundial, era evidente que um médico seja qual for é melhor que nenhum – apelaram para uma defesa hipocritissíssima dos mesmos médicos que antes não eram bons o bastante. Agora a pauta é seus direitos trabalhistas, ignorando todo o processo que os traz para cá, as relações entre Brasil e Cuba e todas as condições da vinda dos profissionais, reconhecidas e referendadas pela Organização Mundial da Saúde.

Nessa batalha incansável pela deslegitimação de um programa tão importante como o Mais Médicos, essa imprensa identificada com a elite preconceituosa que eu citei acima faz mais uma vez aquilo que ela sabe fazer tão bem: omite e manipula. Esquece de dizer que, além dos cubanos vêm argentinos, espanhóis, portugueses… Esquece também que até o PSDB já importou médicos cubanos. E esquece ainda que os médicos que vêm estão aqui de forma livre, por vontade própria, ajudando a gente. Tem até colunista em geral mais sóbria na escolha das palavras comprando o discurso tosco da escravidão. Será que eles se leem? Será que leem o que estão escrevendo? Custo a acreditar.

É muito bom e muito triste o que está acontecendo no país. Bom porque um monte de gente desassistida vai ter o direito básico à saúde e porque a gente vê uma mudança de paradigmas, o estabelecimento de prioridades claras beneficiando os mais pobres, mas muito triste por constatarmos, mais uma vez, o quão mesquinhos muitos de nossos conterrâneos mais abastados podem ser. Mas eles são minoria, levo fé.

À saúde

Afinal, o Estado é laico?

Esse episódio do cidadão expulso da Câmara Municipal de Piracicaba por se recusar a levantar durante a leitura da um trecho da Bíblia me lembrou de um post que faz tempo que eu quero fazer. Trata-se de situação bem semelhante, regimentada em uma das principais instituições da nossa democracia.

Democracia que, a cada episódio desses, torna-se um pouco menos democrática. Um deputado que chegue a ser presidente da Câmara dos Deputados não pode ser politeísta, ateu ou agnóstico. Ele tem que, obrigatoriamente, acreditar em Deus. Afinal, o parágrafo 2 do artigo 79 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados determina que o presidente abrirá a sessão proferindo as seguintes palavras:

regimento camara

Se o cidadão virar deputado e de deputado passar a presidente da Câmara, ele não pode se furtar de ser religioso a menos que mude o regimento, o que ele não pode fazer sozinho. Se @ deputad@ for ateu/ateia, ele não só vai estar ferindo um direito seu garantido pela Constituição, de liberdade religiosa, como vai ofender seus colegas e os demais cidadãos brasileiros que cultivam a fé em um Deus.

A laicidade do Estado está assegurada lá na nossa Constituição pelos itens VI e VIII do parágrafo 5º:

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

Afinal, nosso Estado é ou não laico? Se não respeita a laicidade, pode ser considerado democrático?

Afinal, o Estado é laico?

Eleições 2012 e os rumos do PT gaúcho

A tal festa da democracia acabou ontem em Porto Alegre, no primeiro turno e com um resultado acachapante. O processo eleitoral de 2012 não resultou em uma situação confortável para a esquerda na capital e para o PT gaúcho.

Não se pode falar em derrota do partido em nível nacional e sequer estadual porque disputa com boas chances de vitória a importantíssima São Paulo, garantiu Márcio Pochmann, que começou com 1%, no segundo turno em Campinas e aumentou o número de prefeituras, no RS e no Brasil. E, afinal de contas, é o partido da presidenta da República e do governador do estado. Mas teve derrotas importantes, como o terceiro lugar de Humberto Costa no Recife e a vitória de Marcio Lacerda em Belo Horizonte, deixando um dos melhores quadros do partido, Patrus Ananias, fora até de um segundo turno.

O resultado na capital gaúcha não é surpresa, o que não quer dizer que seja bom. Os petistas do estado nem sentiram muito o terceiro lugar que não atingiu os dois dígitos no percentual de votos, porque já contavam com um desempenho pífio e a vitória do trabalhista, ex-PT e hoje aliado com a direita, José Fortunati. Isso em uma cidade acostumada a ver o PT partir de 30%, onde o projeto político que já completa dez anos de Presidência da República ganhou corpo, fez bonito e chamou a atenção. Agora termina a eleição com o candidato a prefeito em terceiro lugar, com míseros 9,64% das intenções de voto e com a representação na Câmara menor (ainda que tenha visto uma positiva renovação nos nomes, elegendo candidatos qualificados). A cidade que criou o Orçamento Participativo, revolucionando o conceito de democracia ao mostrar que ela é muito mais do que o voto na urna e a representação, e que deu vida ao Fórum Social Mundial viu três candidatos disputarem a eleição com um discurso muito parecido. Um discurso asséptico, desideologizado. A ponto de o eleitor não conseguir enxergar diferenças significativas entre eles.

Cabe à esquerda e principalmente ao PT fazer com que o resultado das urnas não seja de todo mau, se aproveitar o momento para fazer uma ampla e profunda reflexão.

Nos partidos que se reconhecem à esquerda no espectro político, faltou conteúdo ideológico na condução das campanhas, ainda que tanto Manuela D’Ávila quanto Adão Villaverde tenham apresentado programas de governo mais identificados com os princípios da esquerda. A exceção fica com o PSTU, que, nos debates entre candidatos que foi oportunizada a participação de Erico Correa, provocou o debate mais politizado de forma competente. Mas é sintomático que esse debate tenha sido proposto apenas por um partido que disputa eleições apenas para fazer o confronto, sem pretensão de se eleger.

O PSOL optou por focar a campanha na crítica a situações específicas, deixando o debate político macro de lado e adotando o discurso fácil e despolitizante que tenta há décadas convencer o cidadão de que políticos são todos iguais. Ironicamente, fez coro com a grande mídia. A postura não fomenta o debate de fundo, que passa pela estrutura política, e favorece a direita, que é quem se privilegia da despolitização. O partido sofreu ainda com a injustiça (ainda que legal) contra Luciana Genro, impedida de concorrer a vereadora. Mesmo com a majoritária pequena, poderia ter ampliado a representação na Câmara. Manteve os combativos Pedro Ruas e Fernanda Melchionna.

O PCdoB apostou alto e começou o jogo acreditando na vitória. As contradições colocadas nas alianças contribuíram para a queda livre que terminou com as chances de Manuela. O discurso igualmente desprovido de conteúdo político encerrou o sepultamento da candidatura majoritária, que saiu de um primeiro lugar em pesquisas pouco depois de iniciada a campanha para tímidos 17,76% nas urnas. Ainda assim, o partido saiu melhor do que entrou, criando uma representação legislativa com duas vagas na Câmara.

Quem sai enfraquecido mesmo é o PT. Não acho que deveria ter coligado com Manuela, mas que deveria ter ido para a disputa para fazer um debate político de verdade. Uma candidatura que começou pequena, sem muito a perder, não deveria ter medo de promover uma discussão profunda sobre cidade, sobre o espaço público e sobre a própria política, valorizando a cidadania e defendendo a ampliação radical da democracia. Se tivesse se proposto um discurso de esquerda de verdade, teria certamente arregimentado mais votos nas urnas que ontem computaram a vontade do eleitor gaúcho. Em vez disso, manteve-se no raso, não fez o enfrentamento ao projeto político que aí está e deixou de evidenciar os profundos problemas que a cidade enfrenta. O candidato, ainda que extremamente esforçado e um deputado muito competente, era fraco. Sofria da falta de carisma e da dificuldade de articular um discurso de esquerda que empolgasse. A candidatura sofreu ainda com a ausência da presidenta Dilma Rousseff na campanha, o que acho extremamente lamentável, reflexo de um projeto que muitas vezes é mais pragmático que ideológico.

Mas essa é uma questão pontual, de uma eleição específica. O problema do partido em Porto Alegre e em algumas outras grandes cidades do estado é mais amplo e não é novo. O PT sofre da falta de lideranças novas. Permanece como referência quase absoluta Olívio Dutra, que é um grande lutador, mas que foi eleito prefeito há já distantes 23 anos e governador há 14. Além dele, ainda destacam-se o governador Tarso Genro e o deputado estadual e ex-prefeito  Raul Pont. Os mesmos de 20 anos atrás. A única novidade (que não é tão nova, mas mais recente) é o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, que se reelegeu com esmagadores 71,27% dos votos e se apresenta como provável substituto de Tarso na tarefa de concorrer ao Piratini. Mas vale refletir se sua estratégia política, mais ao centro e aglutinando em sua coligação 17 partidos em que o mais de esquerda é o próprio PT e que inclui PCdoB, PMDB, PTB e o direitista partido da vice, o PP.

Urge a necessidade de se reinventar, de criar quadros novos para tempos novos, mas sem perder a identidade e a motivação que levou à criação do partido. A defesa dos direitos dos trabalhadores, da garantia da cidadania e da ampliação da democracia devem continuar presentes e norteando a atuação do PT, mas dialogando com as profundas transformações por que passa o mundo, que vão das novas possibilidades – inclusive de fortalecimento democrático – trazidas pelo avanço da tecnologia à crise sistêmica que enfrentamos e que precisa ser discutida, com a proposição de alternativas.

Se o governo do estado se coloca o desafio de incorporar essa tecnologia na construção de seu projeto e de discutir as revoltas mundo afora e a descrença nos partidos políticos, também absorve práticas contraditórias e muitas vezes condenáveis, na ânsia de garantir a aprovação dos meios de comunicação e de parte conservadora do eleitorado. A postura que assumiu diante dos abusos da Brigada Militar ao reprimir uma manifestação no Centro de Porto Alegre não tem justificativa que se enquadre com um projeto de esquerda e não seria imaginável em um PT como o que governou o estado com Olívio Dutra em 1998. Imediatamente após a denúncia de abusos da Brigada Militar, o posicionamento do governo veio à tona defendendo a atuação do órgão e criticando os manifestantes. Ficou para depois das eleições a nota em que o governador determina a apuração do ocorrido. Ainda difere de um governo de direita, como o de Yeda Crusius, que responde sem remorso pela morte do sem-terra Elton Brum, mas decepciona quem defende uma política voltada para a cidadania.

O partido precisa, sobretudo, fortalecer o debate interno, a construção de ideias e teorias. Precisa produzir conteúdo sobre as condições em que se encontra e sobre as transformações sociais que acontecem no Brasil e no mundo. O PT e os outros partidos que igualmente se dizem de esquerda precisam interpretar a sociedade e a si mesmos de forma contínua e, a partir disso, formular um projeto político que se discuta permanentemente, diante dos acontecimentos. Isso não significa adaptar-se aos fatos e aceitá-los passivamente, mas propor alternativas coerentes diante da realidade e da constante transformação social.

Fotos: Ramiro Furquim/Sul21 e Michel Cortez/Sul21

Eleições 2012 e os rumos do PT gaúcho

Está tudo invertido no mundo

Já tinha até desistido de escrever um post específico sobre a privatização de espaços públicos em Porto Alegre, já que abordei um pouco do tema aqui e aqui. Mas os acontecimentos de ontem à noite, que somam a política privatista da Prefeitura com a truculência da Brigada Militar (do governo do estado), me deram comichão, e aqui vão alguns comentários…

Pra começar, essa história está errada desde o princípio. A agressão de ontem aos manifestantes que derrubaram o boneco da Coca-Cola foi só o cúmulo do negócio. Um absurdo total, mas que é consequência da escolha anterior.

Ao leitor que não é daqui, explico… Porto Alegre tem, na frente do Mercado PÚBLICO, um largo (que leva o nome de um jornalista das antigas, Glênio Peres) com características históricas da nossa colonização açoriana, como o piso de paralelepípedos. Várias coisas aconteciam ali, de característica popular. Era um espaço de manifestações do povo, de comícios de partidos e de atividades que incentivam a economia solidária e a agricultura familiar, como feira de produtos. Sempre aconteceu ali uma tradicional feira de peixe às vésperas da Páscoa, por exemplo.

Recentemente, parte desse espaço público foi entregue à iniciativa privada, com a justificativa de que embelezaria a cidade. A Coca-Cola/Vonpar construiu um chafariz que tem 19 pontos de saída de água ao longo do largo e instalou um boneco inflável gigante com o tatu-bola que é símbolo da Copa do Mundo (outro negócio em que circula uma grana violenta que a gente não vê, mas isso fica pra outro dia). Algumas das manifestações que antes aconteciam continuam acontecendo normalmente, mas outras foram prejudicadas, sem falar no cartaz da Prefeitura, na entrada do prédio (ao lado do Mercado Público e do Glênio Peres), que leva o símbolo da Coca-Cola.

Aí chegamos a ontem. Nesta quinta-feira, dia 4 de outubro de 2012, um pessoal saiu ta frente da Prefeitura, em uma manifestação pacífica. O mote era a alegria e a defesa era a dos espaços públicos, como o Largo Glênio Peres e o também privatizado auditório Araújo Vianna (espaço de shows pertencente a Porto Alegre que foi concedido à Opus e agora cobra ingressos do nível de iniciativa privada, elitizando a cultura). Protegendo o boneco tinha, segundo reportagem do Sul21, mais de 20 guardas municipais, 19 policiais militares, quatro viaturas e três motos. Ainda assim, derrubaram o tatu. Como resposta, foram reprimidos violentamente. As fotos com o pessoal sujo de sangue impressionam.

E aí vem a triste constatação de que está tudo errado no mundo. A Prefeitura compra o discurso privatista e cede parte do patrimônio PÚBLICO à inciativa privada, prejudicando atos populares. A Brigada Militar, do governo estadual, reprime os manifestantes. Mas o problema vai muito além, está na sociedade. Critiquei a repressão aos manifestantes e vieram com o discurso classe-mediano me perguntar se eu gostaria que destruíssem meu carro. Discurso vazio de defesa da propriedade privada frente à vida. Não, se eu tivesse carro, não gostaria que o destruíssem. Mas esse carro não seria um patrimônio público que me tivesse sido entregue. E nunca, em hipótese alguma, eu defenderia que batessem na pessoa que destruiu um bem material.

Não concorda que destruam o boneco? Ok, aceito o argumento. Mas nada disso justificativa a agressão.

Acontece que as coisas estão na frente das pessoas, e isso não tem o menor sentido. Daqui a pouco vamos viver em um mundo só de coisas, sem pessoas. Ou com pessoas se odiando em nome de coisas. Um mundo de ódio, de extremos. Que mundo é esse, deus do céu? Eu sou contra a privatização porque defendo que o mundo é das pessoas, não das coisas. E que entregar o patrimônio que é de todos para muito poucos ajuda muito a colocar as coisas em primeiro lugar.

Um mundo que incentiva a intolerância é um mundo triste.

Contra esse mundo aí, porém, temos armas poderosas. Podemos usar o amor e a tolerância, em vez do ódio. Ainda acredito que vai funcionar.

Fotos: Ramiro Furquim (as duas primeiras) e André Ávila. Mais fotos aqui.

Está tudo invertido no mundo