Flávio Aguiar: “Sinto falta de uma rede de blogueiros como o #2BlogProg na Europa”

Da Alemanha, o comentarista político Flávio Aguiar fala sobre o II Encontro de Blogueiros Progressistas.

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Flávio Aguiar: “Sinto falta de uma rede de blogueiros como o #2BlogProg na Europa”

#2BlogProg amadurece e encontra a união nas diferenças

O balanço do II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, que aconteceu entre 17 e 19 de junho em Brasília, não pode ser feito sem remeter ao I Encontro, naquele não tão distante agosto de 2010, em São Paulo. Faz menos de um ano, e lembro de coisas do mesmo período que parece que recém aconteceram. Mas o I BlogProg já está distante, mais pelo profundo amadurecimento da militância digital do que pela lembrança ainda viva do encontro.

A percepção do papel da blogosfera na disputa contra-hegemônica pela informação no Brasil é o grande ganho deste um ano de debates intensos e acontecimentos extremamente marcantes. Entre o I e o II BlogProg, houve uma campanha eleitoral de baixo nível e pouco debate político, que pôde manter um mínimo de coerência e respeito ao eleitor (através do respeito à informação) muito em função da participação dos comunicadores digitais, através de blogs e redes sociais.

Lula entre Enio, do PTrem das Treze, e Maria Frô na abertura do #2BlogProg

Muita coisa aconteceu neste meio tempo, e a consciência de seu papel intensificou-se na blogosfera. Ao mesmo tempo, questionamentos surgiram e problemas de outra natureza apareceram. De repente, os blogs progressistas viraram governistas para alguns dos militantes, que sequer se deram ao trabalho de compreender o significado e o motivo da sua crítica. Já faz tempo que me causa certo estranhamento esta visão distorcida sobra a identificação ideológica com algum partido que componha o governo. Afinal, o governo não é governo por acaso, essa conquista foi fruto de muita militância, da qual se deve ter orgulho. E orgulho, inclusive, pelo fato de ter conseguido eleger um projeto político diferente. O que, claro, não impede uma visão crítica, sempre presente entre os blogueiros progressistas.

Mas esse é tema secundário no debate. Até porque em nenhum momento os questionamentos desse e de outros tipos ofuscaram o BlogProg. Amadurecemos politicamente e o que poderia ser mais temerário não aconteceu: não rompemos, não ameaçamos nossa unidade em torno da luta comum. Mantemos nossas divergências pontuais, extremamente ricas para o debate, mas sabemos que estamos reunidos em torno de uma mesma causa. Que a democratização da comunicação é um ideal comum, independentemente de divergirmos acerca de alguns caminhos para chegar a ela.

Luiza Erundina, Fábio Konder Comparato e Venício Lima no debate sobre marco regulatório. No meio, eu e Rogério Tomaz Jr. mediando.

Em agosto de 2010, boa parte de nós – eu incluída – não sabia muito bem o que representava a união dessa blogosfera. Sequer tinha noção de diversos problemas que já apareciam, como a Lei Azeredo, ou sobre debates também políticos mas mais tecnológicos, a exemplo da neutralidade da rede. O BlogProg contribui também aí, para a troca de informações e a denúncia das ameaças, que nos ajudam a orientar a resistência.

Os acontecimentos destes quase 12 meses entre o primeiro e o segundo encontro legitimaram a existência de um movimento de ativistas digitais, a ponto de, já na segunda edição, um ex-presidente – e não qualquer um! – e o ministro das Comunicações estarem na abertura do BlogProg, garantindo-lhe reconhecimento e credibilidade.

Lula representa o povo que "esquece até o que vai fazer no banheiro pra tuitar"

Crescemos, pois, conceitualmente e enquanto militância. Adquirimos conteúdo, trocamos ideias e fortalecemos nossa presença no cenário da comunicação brasileira. Compreendemos a unicidade conservadora da nossa imprensa tradicional e nos organizamos para pluralizá-la. A reunião de blogueiros no BlogProg faz sentido muito além do debate que se estabelece a cada mesa, mas pelo fato de marcarmos presença na agenda política das comunicações. Tornou-se um evento que não mais pode ser ignorado, que incomoda.

Não tem como ignorar um encontro com a presença do ex-presidente

Mas o BlogProg faz sentido também pela reunião presencial de pessoas “virtuais”. Como disse Renato Rovai e eu cansei de registrar a cada encontro de que participei, fortalecemo-nos ao nos conhecermos. Tornamo-nos amigos. Conhecemos como somos além do que escrevemos. Entendemos que temos diferenças, mas elas se dissolvem, porque não são assim tão grandes. Vemos que temos muito mais em comum e que estamos juntos. Crescemos mais ainda. E, bem, ganhamos amigos, oras.

Sr. Cloaca toma seu toddynho de cevada enquanto a Frô, pra variar, tuíta.

Somos, afinal, um fraterno movimento de esquerda em defesa de mais espaço para cada um de nós, a tal da democratização da comunicação. E fazemos isso por entendermos que todos temos o que dizer. Que todos podemos produzir conteúdo.

Continuemos, pois, fortalecendo-nos nas diferenças.

Fotos: Cíntia Barenho

#2BlogProg amadurece e encontra a união nas diferenças

#2BlogProg: a mobilização dos militantes da comunicação digital

Em meio a tantos textos sobre o II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas que circulam por aí, copio um dos melhores que encontrei, pelo conteúdo, pela sinceridade e pelo texto mesmo. Só uma correção: o Rio Grande do Sul também juntou cerca de 200 pessoas.

Do Blog do Rovai:

Um balanço afetivo do II Blogprog

O II Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas foi de longe uma das melhores reuniões de militantes da comunicação nos últimos anos. Sem desmerecer muitas outras que levaram à Conferência de Comunicação e que colocaram a pauta da democratização dos meios no melhor patamar do pós-ditadura.

Mas por que este Blogprog merece um registro especial?

Em primeiro lugar porque foi resultado de uma mobilização de 14 etapas estaduais que somadas registraram 1.800 inscritos. Isso realizado na raça, de forma auto-gestionada, a partir das iniciativas de ativistas de cada canto do país que arregaçaram as mangas e foram à luta.

Em alguns encontros a participação foi fantástica. Recife reuniu 350 pessoas, o Rio teve 200 e o Rio Grande do Sul, que está com uma dívida de R$ 4 mil e precisa de ajuda, levou umas 150 pessoas.

Poderia falar de muitas outras etapas, como a de Minas, onde tomei tanta “água com gás” que fiquei imprestável no domingo dia dos namorados. Mas vou ficar nessas etapas, porque a lista é grande.

Bem, ou seja, só pelo processo anterior a Brasília, o II Blogprog já teria valido a pena. Mas Brasília foi de lascar.

Começou com a chegada de Lula no evento. O ex-presidente estava feliz como pinto no lixo. Chegou brincando, parando para abraçar a todos que via pela frente e aproveitando as deixas pra fazer um trocadilho ou uma piada.

Quando duas blogueiras peruanas que fizeram a campanha de Ollanta Humala pediram uma foto, ele não titubeou.

– Sempre que tem um “brogueiro” na campanha o país elege um Humala. Às vezes elege uma Dilma também.

E caiu na risada.

Lula já desceu do carro perguntando:

– Cadê os “brogueiros” progressistas. Hoje eu quero falar com os “brogueiros”.

Continua lendo aqui que vale a pena.

Foto: Cintia Barenho

#2BlogProg: a mobilização dos militantes da comunicação digital

Carta do #2BlogProg

A carta foi debatida em plenária com os participantes do II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, no domingo, dia 19 de junho. As alterações foram redigidas por Rodrigo Vianna (Escrevinhador). Participaram do II BlogProg 369 pessoas de 21 estados do país. Nos próximos dias, serão divulgadas as moções agregadas à carta.

Carta do II BlogProg – Brasília – Junho de 2011

Desde o I Encontro Nacional dos Blogueir@s Progressistas, em agosto de 2010, em São Paulo, nosso movimento aumentou a sua capacidade de interferência na luta pela democratização da comunicação, e se tornou protagonista da disseminação de informação crítica ao oligopólio midiático.

Ao mesmo tempo, a blogosfera consolidou-se como um espaço fundamental no cenário político brasileiro. É a blogosfera que tem garantido de fato maior pluralidade e diversidade informativas. Tem sido o contraponto às manipulações dos grupos tradicionais de comunicação, cujos interesses são contrários a liberdade de expressão no país.

Este movimento inovador reúne ativistas digitais e atua em rede, de forma horizontal e democrática, num esforço permanente de construir a unidade na diversidade, sem hierarquias ou centralismo.

Na preparação do II Encontro Nacional, isso ficou evidenciado com a realização de 14 encontros estaduais, que mobilizaram aproximadamente 1.800 ativistas digitais, e serviram para identificar os nossos pontos de unidade e para apontar as nossas próximas batalhas.

O que nos une é a democratização da comunicação no país. Isso somente acontecerá a partir de intensa e eficaz mobilização da sociedade brasileira,  que não ocorrerá exclusivamente por conta dos governos ou do Congresso Nacional.

Para o nosso movimento, democratizar a comunicação no Brasil significa, entre outras coisas:

a) Aprovar um novo Marco Regulatório dos meios de comunicação. No governo Lula, o então ministro Franklin Martins preparou um projeto que até o momento não foi tornado público. Nosso movimento exige a divulgação imediata desse documento, para que ele possa ser apreciado e debatido pela sociedade. Defendemos,entre outros pontos,  que esse marco regulatório contemple o fim da propriedade cruzada dos meios de comunicação privados no Brasil.

b) Aprovar um Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) que atenda ao interesse público, com  internet de alta velocidade para todos os brasileiros. Nos últimos tempos, o governo tem-se mostrado hesitante e tem dado sinais de que pode ceder às pressões dos grandes grupos empresariais de telecomunicações, fragilizando o papel que a Telebrás deveria ter no processo.  Manifestamos, ainda, nosso apoio à PEC da Banda Larga que tramita no Congresso Nacional (propõe que se inclua, na Constituição, o acesso à internet de alta velocidade entre os direitos fundamentais do cidadão).

c) Ser contra qualquer tipo de censura ou restrição à internet. No Legislativo, continua em tramitação o projeto do senador tucano Eduardo Azeredo de controle e vigilância sobre a internet – batizado de AI-5 Digital. Ao mesmo tempo, governantes e monopólios de comunicação intensificam a perseguição aos blogueiros em várias partes do país, num processo crescente de censura pela via judicial. A blogosfera progressista repudia essas ações autoritárias. Exige a total neutralidade da rede e lança uma campanha nacional de solidariedade aos blogueiros perseguidos e censurados, estabelecendo como meta a criação de um “Fundo de Apoio Jurídico e Político” aos que forem atacados.

d) Lutar pelo encaminhamento imediato do Marco Civil da Internet, pelo poder executivo, ao Congresso Nacional.

e) Defender o Movimento Nacional de Democratização da Comunicação, no qual nos incluímos, dando total apoio à luta pela legalização das rádios e TVs comunitárias, e exigindo a distribuição democrática e transparente das concessões dos canais de rádio e TV digital.

f) Democratizar a distribuição de verbas públicas de publicidade, que deve ser baseada não apenas em critérios mercadológicos, mas também em mecanismos que garantam a pluralidade e a diversidade. Estabelecer uma política pública de verbas para blogs.

g) Declarar nosso repúdio às emendas aprovadas na Câmara dos Deputados ao projeto de Lei 4.361/04 (Regulamentação das Lan Houses), principais responsáveis pelos acessos à internet no Brasil, garantindo o acesso à rede de 45 milhões de usuários, segundo a ABCID (Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital).

h) Fortalecer o movimento da blogosfera progressista, garantindo o seu caráter plural e democrático. Com o objetivo de descentralizar e enraizar ainda mais o movimento, aprovamos:

– III Encontro Nacional na Bahia, em maio de 2012.

– Que a Comissão Organizadora Nacional passará a contar com 15 integrantes:

– Altamiro Borges, Conceição Lemes, Conceição Oliveira, Eduardo Guimarães, Paulo Henrique Amorim, Renato Rovai e Rodrigo Vianna (que já compunham a comissão anterior);

– Leandro Fortes (representante do grupo que organizou o II Encontro em Brasília);

– um representante da Bahia (a definir), indicado pela comissão organizadora local do III Encontro;

– Tica Moreno (suplente – Julieta Palmeira), representante de gênero;

– e mais um representante de cada região do país, indicados a partir das comissões regionais (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte). As comissões regionais serão formadas por até dois membros de cada estado, e ficarão responsáveis também por organizar os encontros estaduais e estimular a formação de comissões estaduais e locais.

Os blogueir@s reunidos em Brasília ainda sugerem que, no próximo encontro na Bahia, a Comissão Organizadora Nacional passe por uma ampla renovação.

Brasília, 19 de junho de 2011.

Foto de Cíntia Barenho.

Carta do #2BlogProg

Paulo Bernardo no #2BlogProg

Paulo Bernardo, o ministro das Comunicações, reconheceu a existência e a relevância da comunicação digital ao participar da abertura do II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, na sexta-feira (17). Mostrou, pelo menos, que sabe que algo está acontecendo por essas bandas e que é alguma coisa que merece atenção. Ele sabe que sua presença é altamente significativa, pela representatividade. Foi, aliás, justamente o fato de ele ter ido a parte mais importante de sua participação. Até porque não fez muito mais que isso.

Paulo Bernardo prestigiou o encontro, é verdade. Chegou, disse o que queria e foi embora. O ministro respondeu algumas perguntas – foram várias até –, mas isso não significa que ele tenha dialogado. Disse meia dúzia de coisas, mas não ouviu.

Um encontro de blogueiros não tem como finalidade principal fazer palestras. Por mais que elas sejam parte da construção, a importância do encontro está no fortalecimento da blogosfera e na elaboração coletiva de uma pauta de luta. Muito além do Plano Nacional de Banda Larga – extremamente importante, mas insuficiente se vier sozinho e na proposta que está sendo apresentada –, o que se pede é democratização da comunicação. Por isso, dos temas que o ministro poderia tratar, o fundamental, para que tenhamos pluralidade, é o marco regulatório, uma lei de meios.

Paulo Bernardo tocou no assunto – impossível não falar. Mas daquele jeito genérico, sem dizer nem quando nem como vai acontecer e, em boa medida, transferindo a responsabilidade para o Congresso.

Ele não ouviu o que querem os blogueiros. Não aproveitou o encontro para dialogar. Isso ficou muito claro quando Renato Rovai perguntou sobre a formalização da atividade de blogueiro, incluindo-a no Super Simples ou no programa Micro Empreendedor Individual. É um tema que vem nos preocupando e cujas soluções temos procurado. É uma questão urgente, e aquela pergunta do Rovai diretamente ao ministro soou como a possibilidade de alguma coisa acontecer. Mas Paulo Bernardo comentou por alto que era difícil, que tinha que ser algo mais genérico e que ia ver. E passou adiante. Se antes parecia difícil ver algo mudar no curto prazo, agora parece impossível até no longo.

O ministro não só não ouviu como tratou, em sua fala, de temas sobre os quais não parecia ter total conhecimento. Ainda que não dominasse as questões técnicas da qualidade de banda, como a necessidade de velocidade igual para download e upload como estímulo à produção – e não só ao consumo – de conteúdo, ele tinha que ter consciência política do que está tratando. Tinha que saber da importância estratégica da comunicação.

Não tem. Ele não vê que levar internet à população é mais que uma questão de igualdade de acesso, como acontece com água e luz. Que é, antes disso, uma alternativa para dar voz às pessoas e tornar a sociedade mais plural. É diminuir o poder de influência dos grandes meios de comunicação empresariais na elaboração da agenda de discussões. Paulo Bernardo em momento algum pareceu reconhecer a necessidade de ampliar a inclusão digital incluindo conteúdo pedagógico, garantindo a formação e a capacitação de comunicadores. Empoderando a rede.

Mas não estamos no pior dos mundos. Se a fala de Paulo Bernardo não foi satisfatória, ao menos ele esteve lá. Ainda que possa parecer, não é pouco. Sua presença reforça a importância política do encontro. E, bem, sempre poderia ser pior. Poderia ser um Hélio Costa, por exemplo.

Temos um ministro que pode não compreender do que estamos falando e principalmente por que estamos falando. Reconhece, porém, que nós existimos. Não é o suficiente, mas é um começo.

Paulo Bernardo no #2BlogProg