“Jornalista é aquele que questiona suas próprias crenças”

Mais uma da Abraji:

Sérgio Leo (@segioleo) e Alon Feuerwerker (@AlonFe) – “Os humores da cobertura econômica – entre a crise e o otimismo exagerado”

“Jornalista não é mais aquele cara que se orgulha de ser generalista”, atirou Sérgio Leo logo de cara, defendendo a especialização, o aprofundamento em algum assunto. Mas, especialmente em economia, tem que ter cuidado, porque, ao contrário do que muitos profissionais por aí pensam, ela não é uma ciência exata. Há diversas teorias, e nenhuma deve ser absorvida como verdade absoluta. A opinião do entrevistado não é a única possível. “Houve um processo de desqualificação nas redações de cabeças que pensam diferente.”

Um exemplo: nem todo gasto demais dos governos é ruim. A imprensa costuma criticar os gastos com pessoal e reclama da falta de investimento. Dependendo do caso, levando ao pé da letra, isso pode significar que “pagar professor é ruim e construir hospital vazio é bom”. Acaba acontecendo um fenômeno mais social do que político ou econômico dentro das redações, a formação de consensos.

Ou seja, o estudo de economia serve para o jornalista saber questionar, não para ser o economista. “Jornalista é o que questiona suas próprias crenças”, disse Leo. Quando o jornalista acha que sabe demais e fica muito arrogante, ele deixa de ouvir todos os lados e não checa os números. Fala bobagem ou faz o jogo ideológico, seja da direita ou da esquerda.

Isso sem contar que é muito difícil encontrar uma fonte que entenda de economia, saiba falar claramente e se disponha a isso. Então, quem se dispõe acaba virando o maior especialista. As fontes geralmente são vinculadas ao mercado financeiro, sempre com a mesma forma de avaliar as questões de economia. Ir contra isso é ir contra o pensamento dominante, o óbvio, e isso dá trabalho. “E na época do Google a preguiça se juntou ao plágio”, completa, acrescentando a existência de um certo “conforto ideológico”.

Alon foi enfaticamente contrário ao subjetivismo. “Depois de escrever a matéria, tira os adjetivos e advérbios que vai melhorar muito”, provoca. E defende uma formação mais qualificada. Além de melhorar o curso de jornalismo, “que é ruim”, o cara tem que se especializar na área que quer trabalhar. Puxando a economia como exemplo, se o fulano não entende o conceito, jamais vai conseguir explicá-lo. E brinca: “se você pegar uma matéria de economia e não conseguir entender o que ela quer dizer, pode ter certeza que o repórter também não entendeu”.

“Jornalista é aquele que questiona suas próprias crenças”

Jornalistas erram muito na análise de pesquisas

Ainda sobre o Congresso da Abraji:

Fernando Rodrigues (@fr_bsb) e José Roberto de Toledo (@zerotoledo) – “Como interpretar pesquisas eleitorais”

Essa foi bem uma aula, com informações úteis sobre pesquisas que não vem ao caso repetir aqui. No fim das contas, tira-se de resumo do posicionamento dos palestrantes que pesquisa funciona, sim, e que jornalista erra muito na cobertura de pesquisas, tanto na interpretação, quanto na má avaliação das diferenças entre os institutos ou na nomenclatura utilizada

Fica a indicação do blog de Fernando Rodrigues, com um banco de dados de pesquisas eleitorais desde 2000.

Jornalistas erram muito na análise de pesquisas

No mundo digital, “o importante não é dar primeiro, mas dar gostosinho”

Na sequência de posts sobre o Congresso da Abraji:

Mauricio Stycer (@mauriciostycer) e Marcelo Tas (@marcelotas) – “As redes sociais no jornalismo”

Fiquei na dúvida se assistia essa palestra ou outra no mesmo horário. O Tas é meio estrelinha, achei que ia ser mais um show do que informação útil. Mas acabei indo. Digamos que no fim valeu a pena. O pecado da palestra é que focou só em Twitter. Facebook, por exemplo, não foi nem citado. Mas deu pra fazer uma reflexão sobre as transformações de um modo mais geral.

Com a internet, de acordo com Tas, as pessoas não esperam mais passivas pela notícia. Além de elas irem por conta própria até a informação, também passaram a produzir seu próprio conteúdo.

E tem a tão falada interatividade. Uma menina de 12 anos mandou um recado para o CQC pedindo para diminuir os palavrões, senão sua mãe a proibiria de assistir o programa. Foi feita uma reunião com a equipe, que avaliou que estava demais mesmo. De forma direta ou indireta, o público influencia na produção de conteúdo. “É uma época de ouvir”, disse Tas, “a gente tem que criar um diálogo permanente com a sociedade”.

O Twitter

Para Stycer, um dos papéis que acabaram sendo encampados pelo Twitter é o de discussão da mídia, uma forma de reflexão sobre o futuro da mídia.

Tas lembrou ainda sobre a responsabilidade do que é colocado no Twitter, que pode ter uma baita repercussão. É preciso, então, checar muito bem e manter “fidelidade absoluta a suas crenças”, ser transparente. E diz que essa é uma oportunidade enorme de exercitar a nossa ética.

Por fim, citou Chico Sá: “O furo acabou e nem virou manchete”. Acho um certo exagero, mas vejo uma possibilidade maior de democratização da comunicação dessa forma. Para o Tas, o tal desaparecimento do furo deu uma grande liberdade para o jornalista, porque o valor hoje é do conhecimento. Não da informação, mas da maneira com que ela é processada. Ou seja, o importante “não é dar primeiro, mas dar gostosinho”. Dar melhor, com mais relevância.

No mundo digital, “o importante não é dar primeiro, mas dar gostosinho”

A loucura de produzir conteúdo para várias mídias ao mesmo tempo

Já faz uma semana que terminou o 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo organizado pela Abraji em São Paulo (de 29 a 31 de julho). Por falta de tempo e de internet, não consegui escrever antes, mas, como as discussões não foram temporais, é possível aproveitá-las ainda. Lá havia jornalistas de vários campos ideológicos, mas aparentemente todos estavam dispostos a fazer um trabalho sério. Jornalistas de esquerda ou de direita invocavam a necessidade de fidelidade aos fatos e, a partir disso, a execução de um jornalismo mais interpretativo, mais analítico – o que é diferente de opinativo – e menos raso. Se eles colocam em prática ou não são outros quinhentos, mas vale a reflexão em cima do que disseram.

A ideia aqui é fazer um pequeno resumo de cada uma das palestras que assisti e que acho que valeram a pena, que rendem uma conversa de bar. Coloco uma de cada vez pra não sobrecarregar, com o nome do palestrante e o título da palestra.

Bruno Garcez (@brunogarcez) – “Correspondente multimídia”

Bruno cobriu EUA para a BBC Brasil, produzindo conteúdo multimídia sozinho para a internet e para a TV – tinha parceria com a Band, que veiculava muito de seu material. Foi também ao Haiti (antes do terremeto), entre outros lugares. Circulava de um lado para o outro com câmera, tripé, máquina fotográfica, bloquinho, caneta, em alguns lugares colete à prova de balas e o escambau.

Acostumou-se a montar a câmera no tripé, virar o visor para conseguir enxergar o que gravava e seguir para o outro lado para gravar passagem. Ou segurava a câmera com uma mão e o microfone com a outra ao entrevistar pessoas. E assim ia, enlouquecendo, trabalhando por três e ganhando por um.

Sobre a mistura entre jornalismo e entretenimento nas redes sociais, disse que é “confusa, mas inevitável”. O importante é sabermos aproveitar o que esse limite entre os dois pode oferecer. Por exemplo, uma frase espirituosa do Lula pode não caber na cobertura hard, mas cai como uma luva no Twitter, no Facebook.

Falou um pouco sobre a cobertura internacional feita pela brasileira. Acha que melhorou, por causa do protagonismo do Brasil. Eu diria que tem muito de o Brasil se sentir mais inserido, se sentir parte do mundo, não mais um mero coadjuvante. É ator principal agora, então tem que falar de tudo o que o circunda, não apenas assistir a atuação dos outros. O mundo passa a ser interessante para a imprensa porque a cobertura de mundo completa a de Brasil. Bruno disse que a cobertura de toda a América Latina melhorou, porque ela também é mais protagonista: “independente de gostar ou não das figuras, é impossível ignorar Chávez, Evo, Cristina, Uribe, Ingrid Bentancourt…”.

A loucura de produzir conteúdo para várias mídias ao mesmo tempo

Comodismo mantém o baixo nível do jornalismo brasileiro

A gente usa o termo PIG, consolidado por Paulo Henrique Amorim, para se referir à grande imprensa quando ela faz alguma coisa feia, o que é bem comum. Significa Partido da Imprensa Golpista, e aí cabe uma análise. Partido seria porque essa grande imprensa toma parte na disputa política brasileira. Golpista porque teria interesse em derrubar o atual governo petista.

Até concordo que a maioria dos membros da grande imprensa não gosta do PT, que ela tem tendência a criticar mais Dilma do que Serra e que isso acontece de fato com mais frequência e intensidade. Mas acho que não é fruto de um complô. Pra mim deriva muito mais do que o jornalista econômico Sérgio Leo chamou, no 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo organizado pela Abraji, de “formação de consenso”. Refiro-me especialmente ao jornal impresso.

Especialmente na área de economia, de que ele trata, disse, no Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji, que o grande problema nem é a existência de um PIG ou porque os veículos publicam ou o que os patrões querem, mas a complexidade do assunto. Dá muito trabalho ir contra o pensamento dominante, então os jornalistas, preguiçosos, fazem o mais fácil. Isso significa não dominar o assunto e falar sempre com as mesmas pessoas. Manter essas fontes fixas e óbvias é realmente mais cômodo. Além disso, o tempo é cada vez mais curto, e a demanda, cada vez maior, o que incentiva o pragmatismo, a preguiça de ler, de ir atrás do diferente.

E aí a preguiça se junta ao “conforto ideológico”, que é onde eu queria chegar. Não acredito que o repórter pense a cada matéria “hmm, isso vai ajudar o Serra, então vou falar desse jeito” (imagino ele esfregando as mãos, meio Mr. Burns). O que penso que acontece é que se segue um pensamento que já está lá, que é fácil, que o dia a dia da redação não permite questionar. Falta crítica aos jornalistas, sobra comodismo. E o comodismo leva à manutenção do pensamento dominante, à adaptação ao consenso.

Não que isso justifique a má qualidade do jornalismo, muito pelo contrário. É difícil, mas essencial manter o espírito crítico constantemente para quem está dentro de uma redação. E quem está fora tem o dever de apontar os erros e criticar, para a melhoria da informação produzida e a construção da democracia.

Comodismo mantém o baixo nível do jornalismo brasileiro