Um desrespeito do Estado a uma família

Parece mentira. Em novembro, um acidente levou duas pessoas muito queridas. Foi de fato um acidente. Na direção, Morency, um motorista cuidadoso que passou mal e acabou perdendo o controle do carro. Depois de meses, Cristina Haubrich, filha de Morency e Vilma, o casal que estava no carro, vê a imagem do veículo em uma campanha contra a imprudência no trânsito, utilizada sem a autorização da família. Como se o motorista de fato tivesse causado o acidente por imprudência. Um desrespeito. O texto que segue é de Cristina Haubrich, retirado do Dialógico:

Sentimentos

Quem já passou pela infelicidade de perder alguém de sua família?

Muitos de nós. Estes, com toda certeza, sabem como é sofrido. Os demais imaginam. Digo, nem todos os demais. Somente as pessoas com uma mínima sensibilidade.

Pois bem, eu perdi meu pai e minha mãe em um acidente de trânsito no dia 2 de novembro de 2009, na Estrada do Mar.

Os sensíveis solidarizam-se e conseguem empaticamente sentir o que isto significa e as marcas que deixa.

Meu pai, motorista há muitos anos, sempre extremamente prudente e sem nada que desabonasse sua responsabilidade teve um mal súbito e isto foi o que provocou o acidente. Tudo o que passa e sente uma filha, os netos e demais familiares é indescritível.

Mesmo neste momento, no dia, na semana, nos meses seguintes precisamos enfrentar a situação e encaminhar várias documentações, solicitações, por conta de uma burocracia que dizem ser necessária para que tenhamos os direitos reconhecidos (liberação do veículo, seguro, auxílio funeral, etc).

No entanto, no dia 14 de fevereiro (vejam, 3 meses depois), ainda sem muitas das situações referidas no parágrafo anterior devidamente resolvidas, fui agredida com a visualização do veículo durante uma viagem pela referida estrada. Aqueles de sensibilidade mais aguçada devem imaginar a dificuldade que era, para mim, passar em tal estrada e o que senti ao ver o veículo. Não sei quem autorizou essa exposição. Porém, acredito que para a sua felicidade nunca deve ter passado por isso. O que deveria ser um final de semana para recarregar energias para um ano de trabalho transformou-se em um final de semana rememorando momentos terríveis.

Talvez até não estivesse tão empenhada em divulgar esse fato e solicitar mudanças neste tipo de postura se não tivesse isso agredido também a memória de uma pessoa que não pode defender-se. A imagem distorcida que milhares de pessoas que por ali passaram teriam daquele motorista causou-me revolta. Então percebi que moralmente eu tinha uma obrigação de defender não só aquele que sempre me deu bons exemplos em todos os sentidos, mas também possíveis futuras vítimas como nós.

É claro que existe um motivo para o carro estar ali: a campanha de prevenção de acidentes. Campanha esta com a qual concordo e a qual dignifico. Porém, meu pai não foi imprudente. Ele também foi vítima. Não de imprudência de ninguém. Não sei exatamente do quê. Destino? Não sei. Mas sei que não foi imprudência. Meu pai nunca foi imprudente no trânsito e de repente é exposta esta imagem errônea publicamente, sem mesmo a necessária – ou, parece neste caso, a desnecessária – burocracia da autorização da família.

Pois bem, não quero contestar a campanha. Sugiro apenas que utilizem veículos com a ciência da família e que tais veículos realmente tenham se envolvido em acidentes por imprudência. Ouso até propor que junto ao veículo seja colocado um painel com a causa do acidente: ingestão de álcool, excesso de velocidade, ultrapassagem em local proibido,etc.

Reitero, finalizando, que meu objetivo é apenas que outras pessoas não sintam o que senti e, principalmente, deixar claro que meu pai não teve culpa, não foi um acidente por imprudência.

Um desrespeito do Estado a uma família

Quando acidentes deixam de ser só estatísticas

Acidentes de trânsito acontecem todos os dias. Eles são números. Números escabrosos, que só aumentam, sempre e sempre. Mas ainda assim são números. Não comovem. Chocam, mas não embrulham o estômago. E o pior, não mudam as atitudes de quem está no trânsito.

Ver a coisa ali, com o sangue vermelho, os corpos no chão, a moto caída. Comprovei que isso, sim, choca. E realmente embrulha o estômago.

Não foi preciso ir para uma estrada em fim de feriadão. Zona de classe média em Porto Alegre, lugar tranquilo, rua não muito movimentada. Primeiro, vi a moto. Não é a primeira vez que essa cena aparece na minha frente, achei que era mais um motoqueiro caído que já se levantara e só esperava a EPTC chegar. Até que ouço o comentário: “Bah, é um casal, olha ali”.

Quando o carro passou do lado, enxerguei a mulher e o homem estirados na calçada. A coisa era recente, a SAMU nem tinha chegado ainda. A perna do homem estava praticamente descolada do corpo.

Quando lia comentários de pessoas vomitando ao ver acidentes, achava estranho. Pensava que eu teria um choque, uma coisa mais psicológica, mas não a esse ponto. Hoje não sei por que não vomitei. A vontade efetivamente veio, o estômago se embrulhou.

Eu nunca vira uma cena tão forte ao vivo. No jornal, na TV não conta. Ao vivo dói, e fica martelando na cabeça todo o resto do dia.

Mas o mais triste é sair dali e enxergar, como todos os dias, todas as barbeiragens que são cometidas nas ruas de Porto Alegre. Todas as imprudências que provavelmente levaram ao acidente de hoje. E que são feitas por esperteza, pra chegar na frente do carro vizinho, pra roubar uma vaga. Quem sabe roubar uma vida.

Não sei como nem quando, mas uma hora as pessoas têm que se dar conta que dirigir não é um videogame. Talvez com mais fiscalização, punições mais rígidas. O trânsito mata, e mata porque se cometem crimes. Em São Paulo, ultrapassou os homicídios como principal causa de morte não natural em 2007 e 2008 (ainda não foram divulgados os números de 2009). A maioria envolvendo motoqueiros.

Infelizmente, vemos esses números todos os dias e já não nos comovemos mais, de tantos que são. Mas são números tristes, e precisamos lembrar disso todos os dias, a cada nova estatística, a cada novo acidente, a cada morte.

Quando acidentes deixam de ser só estatísticas