Qual o futuro dos moradores da Vila Dique?

Do RS Urgente:

A geógrafa Lucimar Fátima Siqueira registra sua preocupação, no Blogue Blue, com a situação dos moradores da Vila Dique, em Porto Alegre, uma das áreas diretamente atingidas pela ampliação da pista do Aeroporto Internacional Salgado Filho. “Entulhos foi o que sobrou das casas dos moradores que agora estão reassentados, vivendo de aluguel social ou acomodados em casas de passagem no local do reassentamento porque a construtora não está cumprindo com o cronograma”, escreve. Ela registra, com certo espanto, a declaração do diretor geral do Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB), Humberto Goulart, sobre a área e os moradores: “Hoje ou amanhã a Infraero pode começar as obras. Mas não deixe para depois de amanhã, pois pode haver outra ocupação aqui”.

Essa declaração, observa Lucimar, destaca que o mais importante é o cumprimento dos acordos que viabilizam os negócios envolvendo a Copa do Mundo, não a questão habitacional e a preocupação com as condições de vida dos moradores da Vila Dique. “Se a área foi liberada e os moradores saíram, que importa em que condições vivem agora? E o que acontecerá com as famílias que ficaram na Vila Dique por não estarem na área das obras da pista? ” – pergunta a geógrafa.

Qual o futuro dos moradores da Vila Dique?

Prefeitura de Porto Alegre: a ideologia da periferia

A transferência dos moradores da Vila Dique para o Rubem Berta segue uma lógica antiga, um tanto cruel, que ajuda a perpetuar desigualdades.

A Vila Dique existe há cerca de 30 anos, perto do aeroporto internacional Salgado Filho. Ali viviam cerca de 4 mil pessoas em condições subumanas. A imensa maioria de seus moradores, em 2007, ganhava menos de dois salários mínimos, como mostra este estudo. Um dos problemas mais graves da comunidade é a falta de saneamento. Esgoto a céu aberto, água contaminada.

Há décadas a situação é essa. Agora, os moradores da Vila Dique estão sendo removidos. Serão transferidos para um bairro da periferia, na zona Norte de Porto Alegre, chamado Rubem Berta. Um bairro enorme, que cresce cada vez mais, pra lá do sambódromo.

Lá a Prefeitura construiu 1.476 habitações populares para os moradores da Vila Dique. Sua remoção está estampando inúmeros outdoors de propaganda da gestão Fogaça-Fortunati (PMDB-PDT) na capital (em 2010, a Prefeitura gastou R$ 11,3 milhões em saúde e educação e R$ 14 milhões em publicidade), como um grande feito, pelo qual há muito se esperava.

Vale então lembrar algumas coisinhas.

– Em fevereiro de 2008, a Zero Hora publicou matéria afirmando “Vila Dique some a partir de agosto”. O texto dizia que a Vila Dique sumiria ainda em 2008.

– Em 25 de agosto, veio a notícia da abertura da licitação.

– Em outubro de 2009, o Diário Gaúcho, jornal da mesma rede, disse: “A partir de amanhã, uma nova etapa na história de mais de três décadas da Vila Dique, na Capital, começará a ser contada. É quando as primeiras 48 famílias do local serão transferidas para um loteamento construído na Zona Norte”.

– Em janeiro de 2011, o site da Prefeitura diz que a previsão é que terminem as remoções em dezembro.

E sabe por que a Vila Dique está sendo “removida”? Falta de sanemento e de infraestrutura foram toleradas por anos a fio. Mas agora vem aí a Copa do Mundo e é preciso ampliar a pista do aeroporto. A Vila impedia essa ampliação.

Moradores continuam afastados da cidade

Tirar os moradores da vila era extremamente necessário, não só pelas obras de ampliação do aeroporto, mas também e principalmente pelas condições insalubres em que viviam. Sem saneamento básico, vivendo em meio ao esgoto, é impossível a um cidadão manter sua dignidade, sem falar em problemas de saúde decorrentes.

Mas transferir essas pessoas para o bairro Rubem Berta é afastá-los ainda mais do Centro, em uma cidade ainda muito concentrada na região central e seu entorno.

Se houvesse uma descentralização, em que cada bairro se transformasse em mini-cidades, mini-centros, seria possível que os moradores conseguissem manter uma qualidade de vida melhor, sem gastar tempo e dinheiro em deslocamentos gigantes. Mas isso não acontece, e muitos dos moradores dos bairros afastados precisam ir a outras regiões para trabalhar.

Além disso, alguns moradores da vila tinham habitações maiores para suas famílias, e reclamam que serão obrigados a diminuir de patamar.

Jogar essas comunidades para longe é fortalecer a dicotomia centro-periferia, entre os que têm fácil acesso aos serviços e os que não têm. É uma lógica tão perversa quanto antiga, que levou a criar bairros como a Restinga, por exemplo. Vale comparar algumas distâncias para se compreender um pouco melhor:

Centro – Bom Fim: 1,5 km

Centro – Menino Deus: 4 km

Centro – Aeroporto (ao lado de onde ficava a Vila Dique): 9,2 km

Centro – Rubem Berta (onde estão sendo reassentados os moradores da Vila Dique): 15,3 km

Centro – Restinga: 19,1 km

A comunidade da Vila Dique estará melhor no Rubem Berta? Sim, provavelmente. Terão moradia, saneamento, condições mínimas de vida. Mas não é possível que uma administração comemore que uma comunidade vive simplesmente “melhor”, na comparação entre o péssimo e o ruim. É preciso saber se essa comunidade passou a viver realmente bem.

Enquanto viverem pobres na periferia e classe média e ricos próximo do Centro, esses moradores serão sempre tratados como cidadãos de segunda classe. O preconceito continuará e a vida permanecerá difícil.

Prefeitura de Porto Alegre: a ideologia da periferia

O que é que Porto Alegre tem, e não tem

Por Marcelo Carneiro da Cunha, no Sul 21:

Estimados leitores, cumpri com o meu ritual de renovação do meu visto porto-alegrense retornando à cidade na semana passada. E voltar até aí é sempre a mesma mistura de banzo sem solução com um olhar atento para tudo, comparando o que a cidade tem, com o que vejo nessas andanças por muitos lados, além de riachos que nos separem do mundo, como o Ipiranga, o Mampituba ou o Atlântico.

Nessa chegada, a primeira coisa que me chamou a atenção, entortando o pescoço até o limite da cervical, foi que a Vila Dique continuava ali sob o avião. Opa: não era para ter saído? Não existe uma grave questão que prejudica a cidade, o estado, que é termos uma pista de aeroporto de apenas 2.200 m, impedindo aviões maiores de sair com carga total e encarecendo os fretes? Não era uma questão estratégica resolver esse problema, além da questão humana de dar um jeito na Vila Dique? Eu estive lá, há anos, visitando uma escola, e alguns alunos não vieram ao encontro por não terem roupa, e não acho que eles estivessem falando de roupa arrumada. Espero todo esse tempo por uma solução digna para algo tão indigno, e que ainda nos permita ter um aeroporto com pista decente. Não arrumaram? Não deram um jeito?

Porque uma cidade é do tamanho dos jeitos que a gente dá pra elas, estimados leitores. Nessa semana, por exemplo, fui ver a maravilhosa sinfônica de SP tocar na maravilhosa Sala São Paulo, onde ela se apresenta. E pensei na OSPA. Eu cresci indo ver a OSPA, domingos e terças e não entendo como Porto Alegre pode viver sem um lugar para a sua sinfônica. São Paulo pode dar jeito nisso, mas Porto Alegre não pode? Desde quando? Como éramos capazes de dar um jeito no Theatro São Pedro láaaa em 1860, mais ou menos. Pioramos, desde então?

O problema é dinheiro? Pois observando atentamente a minha cidade, eu vi que não há placas nas esquinas. Sabem placas de esquina? Certamente temos esquinas, muitas. Temos ruas, e elas têm nomes. Então cadê as placas nas esquinas contendo os nomes das ruas? Uma cidade sem placas nas esquinas é uma cidade que se leva a sério?

Senhor prefeito de Porto Alegre, onde quer que o senhor esteja. São Paulo tem 22 mil quilômetros de ruas e acha normal ter placas nas esquinas. Em TODAS as esquinas. A minha Porto Alegre, que o senhor alega governar, não pode ter? Como o senhor pode dormir à noite sabendo que a cidade não tem pista de aeroporto nem placas nas esquinas? Se até Curitiba, que nem tem esquinas, pode ter placas nas esquinas, como o senhor dorme à noite enquanto Porto Alegre não as tem? Pode acordar e explicar, por favor?

Já em outros itens a cidade vai dando os seus jeitos. Vi lugares novos, bares, restaurantes, bem legais. Conheci o Bier Markt, sensacional para quem gosta de cerveja de verdade, coisa aliás escassa aqui no Norte onde eu vivo, provando que cerveja tem jeito, na cidade. Pude curtir o pão com manteiga da melhor padaria que eu conheço no Brasil, Barbarella. Não deu tempo de provar o melhor mil-folhas, de bergamota, no Patissier. Pude olhar para o Guaíba sob o céu azul, e o banzo atingiu limites quase insuportáveis; deu para passar no Iberê Camargo, o que sempre enche o peito de um sentimento que seria pecaminoso, se eu acreditasse nessas coisas. Vi um varejo com jeito de século 21 tomando forma, o que é bastante bom, e vi muita gente na rua, em uma noite de começo de semana. Porto Alegre tem o menor desemprego em área metropolitana no Brasil, eu li, e isso começa a aparecer.

Não vi polícia na rua, como vejo aqui, vi uma grande festa do Inter na noite anterior a viagem para Abu Dhabi, talvez o clube do Brasil que melhor constrói a relação com sua comunidade, hoje (e quem admite é um gremista de quatro costados). Sofri com os nossos péssimos táxis, e, infelizmente, taxistas bastante pouco animados com o decoro profissional. Quem foi que disse que a gente merece nada mais do que aqueles Corsas sedãs, que são pequenos, minha gente? Ouvi comentários e piadas dos motoristas que avermelharam os ouvidos nada puritanos desse neto da Jovita, e paguei caro para andar em um taxi que parecia ter um estado pulmonar pior do que o meu, e eu moro em São Paulo!!!

Penso no que a cidade pode ser, com um plano estratégico à altura de suas possibilidades, de um novo uso para o porto, para a Mauá, que removesse aqueles horrendos prédios-garagem, e nos desse algo onde morar diante do rio. Penso em um centro vivo e bonito, numa Praça da Alfândega renovada e de volta para as pessoas, penso em uma nova Feira do Livro e, radicalizando, em uma cidade com placas nas esquinas.

Não é fácil criar uma cidade digna das aspirações de uma Porto Alegre, mas é muito, muito mais fácil de se fazer isso quando a cidade em questão é uma Porto Alegre, não? Penso nisso enquanto o avião me traz de volta para a cidade com céu cinza e placas nas esquinas onde vivo, e penso que tudo que eu quero é um jeito aí, porque se tem uma coisa que todo ser vivo precisa ter é um lugar para onde voltar, de onde quer que se encontre, de onde quer que a vida tenha levado, e de onde sempre, sempre mesmo, se volta.

* Jornalista e escritor

O que é que Porto Alegre tem, e não tem

Marcelo Adnet e a cabeça da elite brasileira

A paródia da elite feita pelo Marcelo Adnet me lembrou o dia, em outubro deste ano, em que eu esperava uma conexão atrasada em Congonhas. Era feriadão, praticamente todos os voos estavam atrasados. Sentei em uma daquelas confortáveis poltronas de aeroporto quase em frente a uma elegante mulher, vestida com um terninho bem alinhado, em cima de um salto que não parecia nada confortável, mas que depois vi andando com altivez. Estava ali, teclando no seu aparelhinho eletrônico que podia ser de tudo. Aliás, parecia qualquer coisa, menos um celular. Eu sentia que o mundo estava ali naquelas mãos. Pelo menos a vida dela devia estar, porque era o centro das atenções da mulher, que não parava de mexer naquelas teclas por um só minuto. Ela olhou para a pessoa que estava ao seu lado, fez uma cara de dor profunda e reclamou do alto do seu direito: “Está ficando difícil viajar, já foi bem mais fácil”.

Percebi que estava difícil por minha causa. Paguei bem menos na passagem de avião do que eu pagaria se fosse de ônibus de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. Só nesse ano fui três vezes a São Paulo, uma a Buenos Aires, uma ao Rio, uma a Florianópolis. Pouco praquela mulher, provavelmente. Pra mim, um mundaréu de viagens de avião, como eu nunca imaginaria ter feito alguns anos atrás.

Andei de avião pela primeira vez aos onze anos. Quer dizer, primeiro quando eu tinha uns poucos meses, mas que eu lembre foi essa. Uma viagem de férias com meu pai a Buenos Aires. Era mágico. Além da emoção de ver o mundo de cima, que sempre me fascina, a sensação inevitável de riqueza. No avião, me senti chique, sabe. Aquela coisa que poucos ao meu redor faziam, que era voar.

Hoje é bobagem. Andei mais de avião do que de ônibus intermunicipal este ano. Eu incomodo aquela gente que nunca vira um feriado dar congestionamento aéreo. E o pior é que tem um mundo de gente com menos grana que eu que pode sentar do lado da riquinha da Zona Sul.

Isso não é lindo?

Marcelo Adnet e a cabeça da elite brasileira

O desespero raivoso de Arnaldo Jabor o faz delirar

A Globo e suas congêneres estão ficando desesperadas. Na falta de argumentos concretos e de resultados de suas incisivas críticas, decidiram partir para a apelação. O que Arnaldo Jabor fez ontem – e que não foge de sua prática habitual – foi distorcer fatos para dar a eles a conotação que interessa ao jornalista, mesmo que não corresponda à verdade. E, de quebra, servir ao seu showzinho de interpretação, utilizando palavras que nem sempre são adequadas, mas que causam mais impacto.

O objetivo era reclamar dos aeroportos, em função da Copa do Mundo de 2014. Tudo bem, críticas ao governo são aceitas, pelo menos por mim, que também as tenho. Mas Jabor conseguiu, em pouco mais de um minuto, fugir do tema dos aeroportos, que seria a questão central, e criticar o pré-sal, aliança com o PMDB, defender as privatizações e ridicularizar toda a política externa do governo Lula (reconhecida e valorizada internacionalmente e que para mim é uma das áreas em que Lula se saiu melhor, de tão bem feita), criticando-o por visitar países africanos de governos ditatoriais. O discurso bem próprio da direita, que sempre foi servil aos Estados Unidos, dialogando apenas com países do Norte, sempre em posição inferior e ignorando o resto do mundo.

O homem-show da Globo chegou ao cúmulo de dizer que essas viagens de Lula servem apenas a sua promoção pessoal, um exibicionismo barato, resumindo. Justo quem falando!

Agora, pasmem. Leitor, está sentado? Jabor diz que Lula deveria aprender com o “grande homem” que é Obama, que “luta para consertar o mal que Bush deixou”. Luta aumentando as tropas no Afeganistão, mantendo Guantánamo, continuando a Guerra no Iraque. Mas isso Jabor não fala. Interessa mais dizer que Lula “se dava tão bem” com Bush. Sua retórica leva o espectador a crer que Lula é co-responsável por toda a maldade de Bush. Pelas guerras, pelas mortes. Talvez Lula devesse agir da mesma forma que os Estados Unidos fazem há tantos anos: promovendo guerras em vez de diálogo. Seria isso, Jabor?

O jornalista defendeu a aliança com os Estados Unidos. Claro, na sua visão continuar subserviente é muito melhor do que ampliar relações no pobre Terceiro Mundo, podendo, inclusive, melhorar as condições de vida de seus moradores. Um pouco que seja, em função de toda a influência que Lula adquiriu, seria excelente. Qualquer avanço é bem-vindo nessas ocasiões. Não para a Globo. Solidariedade é palavra que essa direita raivosa e desesperada não entende.

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A Globo não disponibiliza o vídeo para que eu o poste aqui, mas ele está no site da rede, nesse link.

O desespero raivoso de Arnaldo Jabor o faz delirar