Instituto Cidadania lança site para acompanhamento das atividades do ex-presidente Lula

O Instituto Cidadania lançou nesta sexta-feira (15) um site para divulgar as atividades e projetos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Disponível no endereço www.icidadania.org, o site entra no ar com mais de 50 notícias, além de vídeos, fotos e discursos na íntegra. Sediado em São Paulo, o Instituto Cidadania foi onde Lula debateu e elaborou com toda a sociedade propostas de políticas públicas antes de ser eleito presidente em 2002.  Hoje, ao sair da presidência, é o espaço onde está sendo criado o Instituto Lula, voltado para causas políticas e sociais no Brasil, África e América Latina.

“O Brasil vive um momento de ouro, continua vivendo um momento extraordinário, e eu espero poder conversar com vocês daqui para frente neste pequeno espaço.”, afirma Lula no vídeo.

Veja, abaixo, uma mensagem do ex-presidente para dar boas-vindas aos internautas:

Assim como o momento atual do instituto, o site é apenas  o começo de novas iniciativas políticas e de comunicação.

“[Vamos] tentar trabalhar a questão da integração, tentar trabalhar as experiências de políticas sociais bem-sucedidas. Não que a gente vá querer ensinar aos outros o que eles têm que fazer, porque isso não deu certo em lugar nenhum do mundo. O que queremos é mostrar como fizemos as coisas no Brasil e, quem sabe, adequando à realidade deles, com a vontade cultural deles, com a vontade política deles, isso possa ser aplicado em outros países”, diz o ex-presidente.

Todas as informações divulgadas no site Instituto Cidadania são licenciadas sob Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil, que permite a reprodução do conteúdo desde que seja citada a fonte. São exceções a essa licença apenas as informações reproduzidas de outras fontes.

Acesse o site do Instituto Cidadania: http://www.icidadania.org
Assista ao vídeo em que Lula comenta o lançamento do site: http://www.icidadania.org/2011/07/lula-da-boas-vindas-aos-internautas/
Saiba mais sobre o instituto: http://www.icidadania.org/historia/

Instituto Cidadania lança site para acompanhamento das atividades do ex-presidente Lula

Lula valoriza cooperação Sul-Sul ao representar o Brasil na África

Íntegra do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na 17 ª Cúpula da União Africana, em Malabo, Guiné Equatorial – 30 de junho de 2011

Quero saudar o Excelentíssimo Senhor Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, Presidente da Guiné Equatorial e da União Africana e ao fazê-lo saúdo todos os Chefes de Estado e de Governo e as autoridades aqui presentes

É uma honra estar presente nessa Décima Sétima Assembleia Geral dos Chefes de Estado da União Sul Africana, que abordará um tema de caráter estratégico: a integração da juventude ao processo de desenvolvimento sustentável. Estou aqui como convidado e também representando o Brasil e a Presidenta Dilma Rousseff, que sabe da importância desse encontro, pela relevância do tema escolhido e por abrir mais uma oportunidade para estreitar as relações entre a África e o Brasil.

Inicialmente, quero agradecer o apoio dos países africanos ao processo que permitiu a eleição do meu ex-ministro da Segurança Alimentar, José Graziano, para o cargo de Diretor Geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação.

Essa foi uma reafirmação da cooperação Sul-Sul, essencial para combater a insegurança alimentar que ainda afeta quase um bilhão de pessoas em todo o mundo.

A eleição de Graziano é um trunfo dos países em desenvolvimento e um reconhecimento do crescente papel que desempenham num mundo cada vez mais multipolar.

A escolha, pela União Africana, do tema da integração da juventude da África ao processo de desenvolvimento sustentável é muito oportuna, especialmente porque 60% da população africana têm menos de 25 anos e o continente passa por um acelerado processo de urbanização.

Aprendi nos oito anos que governei o Brasil, que além de investir na melhoria da educação e da oferta de empregos de qualidade para os jovens, o que os entusiasma é a esperança e a confiança de que terão um futuro melhor.

Foi o que conseguimos no Brasil, ao tratar a juventude não como um problema, mas como uma solução.

Criamos um processo virtuoso, de inclusão social e redução das desigualdades, num ambiente amplamente democrático.

Mostramos que é possível combater as desigualdades sociais, reduzir a pobreza, valorizar o emprego e os salários, fortalecer o mercado interno sem comprometer a solidez e a estabilidade macroeconômica.

Ao mesmo tempo, investimos muito na quantidade e qualidade da educação pública, desde a creche até os cursos de pós-graduação.

Como resultado, vinte e oito milhões de pessoas saíram da pobreza e 36 milhões ascenderam à classe média nos últimos oito anos.

E, o que é muito importante, aumentou a autoestima do povo brasileiro, especialmente entre os jovens. Uma pesquisa realizada no começo deste ano, em 25 países, pela Fundação de Inovação Política da França, mostra que a juventude brasileira é a segunda mais otimista do mundo em relação ao próprio futuro.

Minhas amigas e meus amigos.

A juventude não é uma simples passagem, uma mera ponte entre a infância e a maturidade. Não é, de modo algum, uma idade vazia. Ao contrário, é uma faixa etária singular, fortemente diferenciada. Poucas épocas na vida são tão marcantes e definidoras.

O jovem tem um imaginário particular e suas próprias necessidades objetivas e subjetivas, que devem ser contempladas por políticas públicas específicas, que lhes assegurem direitos e oportunidades.

Muitas vezes a juventude é tratada como um problema, um risco para a sociedade, quando deve ser encarada como parte da solução. A juventude é um ativo, um capital extraordinário. A sua capacidade de mobilização pelas grandes causas do progresso e justiça é inigualável. O seu potencial de solidariedade é imenso.

Desde que saibamos, é claro, reconhecer os direitos dos jovens, oferecendo-lhes autênticos canais de participação na vida social, política e econômica.

Na história do meu país, grandes conquistas populares foram obtidas graças à mobilização juvenil. Basta lembrar que o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra o nazi-fascismo pelo clamor da juventude. A luta pela criação da Petrobras, a nossa empresa estatal que já é a segunda do mundo em energia, foi liderada pela juventude.

Nossos rapazes e moças estiveram igualmente na vanguarda da luta contra a ditadura e pela redemocratização do país. Não há bandeira humanista e libertária que os jovens brasileiros não defendam com entusiasmo assim como certamente ocorreu e ocorre com os jovens africanos, que foram decisivos em todos os processos de libertação nacional do continente. É o que acontece em todo o mundo.

Por isso quero saudar essa iniciativa da cúpula dos Chefes de Estado da União Africana, de realizar uma assembleia geral especialmente para discutir a juventude, como fazê-la participar do processo de fortalecimento da economia e da democracia.

O papel da juventude é cada vez mais reconhecido como fundamental para o processo de desenvolvimento, o que levou a Organização das Nações Unidas a eleger o período de agosto de 2010 a agosto de 2011 como o Ano da Juventude.

Minhas amigas e meus amigos

O Brasil está muito atento às transformações em curso na África, um continente em que a economia vem crescendo a taxas muito mais altas do que nos países desenvolvidos.

Segundo o Banco de Desenvolvimento da Africa a classe média africana aumentou de 111 milhões para 310 milhões de pessoas nos últimos trinta anos, com um acelerado processo de urbanização que exigirá mais infraestrutura de energia, saneamento, habitação e transportes.

É total a disposição brasileira em cooperar com o desenvolvimento da infraestrutura, em particular na geração de energia elétrica a partir de usinas hidrelétricas e também com a transferência de tecnologia na produção de etanol e de energia elétrica a partir da biomassa.

O Brasil tem interesse em compartilhar sua tecnologia na área agrícola, tanto empresarial quanto na agricultura familiar.

A relação com a África é estratégica para o Brasil. Foi por isso que visitei tantos países africanos durante os oito anos do meu mandato como Presidente do Brasil. Ampliamos nossos vínculos diplomáticos, econômicos e culturais. Abrimos ou reativamos embaixadas em 19 países africanos e temos relações diplomáticas com os 53 países do continente africano. De outro lado, 33 países africanos já tem embaixadas em Brasília.

Um dos resultados desse processo de aproximação é o comércio bilateral entre Brasil e África ter aumentado de cinco bilhões de dólares em 2002 para 20,5 bilhões de dólares no ano passado. Um número crescente de empresas brasileiras passou a investir na África, gerando empregos e mais renda para o povo africano.

Agora a Presidenta Dilma Rousseff manda um sinal inequívoco, de que vai dar continuidade e aprofundar a relação do Brasil com o Continente africano. Minha vinda a Cupula da Uniao Africana, como representante do Brasil simbolila tal compromisso.

Minhas amigas e meus amigos

A crise que nasceu nos países desenvolvidos em 2008 provocou efeitos danosos em todas as partes do mundo, mas a conta desse ajuste não pode ser paga pelas nações pobres ou emergentes, que precisam atuar em conjunto para construir uma nova ordem econômica e uma nova governança mundial, que atenda ao atual cenário geopolítico, completamente diferente da realidade de 60 anos atrás.

Esta é a hora de reconstruir as instituições globais em bases mais democráticas, representativas, legítimas e eficazes. Por que ficarmos atrelados a modelos criados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos hoje?

O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar. Não podemos retardar soluções que apontem para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.

Os países em desenvolvimento têm de aumentar sua participação na direção dos organismos multilaterais. Sem isso não haverá efetiva mudança e crises maiores serão inevitáveis.

Somente organismos mais representativos e democráticos terão condições de prevenir futuras crises, sejaqm politicas ou financeiras, e responder aos desafios de uma nova geopolítica mundial, multipolar, com a presença de novos atores.

Vivemos um período de transição no âmbito internacional. Caminhamos em direção ao mundo multilateral.

Precisamos de uma ONU suficientemente representativa para enfrentar as ameaças à paz mundial, com um Conselho de Segurança renovado, aberto a novos membros permanentes.

Precisamos de uma ONU capaz de negociar um cessar fogo e uma saida pacifica para a crise da Libia.

Quero encerrar ressaltando que fortalecer a unidade não significa desconhecer diferenças. Atuamos em cenários econômicos, políticos e sociais distintos.

Temos especificidades culturais e trajetórias históricas próprias. Não buscamos modelos únicos nem unanimidades. Nossa força está na capacidade de construir a unidade a partir de projetos soberanos. Mais do que nunca é hora de fortalecer o processo de cooperação solidária entre a África e o Brasil.

Muito obrigado

Lula valoriza cooperação Sul-Sul ao representar o Brasil na África

Dilma nomeia Lula chefe de missão na África

Nada mais justo. A presidenta Dilma nomeou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chefe da missão especial do governo brasileiro para a XVII Assembleia Geral da União Africana, em Malabo, na Guiné Equatorial, de 28 de junho a 1º de julho de 2011.

O encontro reúne os países africanos para promover integração, cooperação, desenvolvimento e paz no continente. O tema este ano é “Empoderamento da Juventude para o Desenvolvimento Sustentável”, bastante perspicaz, condizente com o momento que vivemos.

Digo que é justo porque Lula foi o presidente que mais promoveu a relação do Brasil com a África, que ampliou consideravelmente o número de embaixadas, que aumentou os programas de auxílio e cooperação nos países africanos. Isso porque Lula desenvolveu em seu governo uma política externa extremamente inteligente e, acima de tudo, solidária. Que encontrou nas nações-irmãs do Sul do mundo a possibilidade de fortalecer os países “emergentes” e, com sua incrível capacidade de agregar, contribuiu de forma decisiva para inverter a lógica da geopolítica mundial e fazer o mundo inteiro virar os olhos para os países deste lado de baixo do mundo.

A relação de profunda cooperação com a África foi, pois, uma das partes mais visíveis de uma política externa coesa, altiva, estratégica e generosa.

Dilma nomeia Lula para agir no setor em que seu governo teve mais desenvoltura e menos erros. É um duplo acerto, ao prestigiar o ex-presidente e ao garantir a continuidade de um trabalho que dava certo. Que se reflita em todo o resto das relações internacionais de seu governo.

Dilma nomeia Lula chefe de missão na África

Xenofobia por toda a parte?

Artigo de Immanuel Wallerstein*, publicado no Diário da Liberdade

O dicionário define xenofobia como o “medo dos estranhos ou estrangeiros, ou de qualquer coisa que é estranha ou estrangeira.” Parece ser uma praga endémica em toda a parte do mundo. Mas só às vezes infecta um maior número de pessoas. Esta é uma dessas vezes.

Mas quem é o estrangeiro? No mundo moderno, parece que a principal lealdade é para com o Estado de que somos cidadãos. Chama-se nacionalismo ou patriotismo. Sim, algumas pessoas põem outras lealdades à frente do patriotismo, mas parece que estão em minoria.

Claro que há muitas situações diferentes nas quais as pessoas expressam os seus sentimentos nacionalistas. Numa situação colonial, o nacionalismo expressa-se como uma reivindicação de libertação do poder colonial. Parece assumir formas semelhantes em situações que alguns chamam semi-coloniais, que são aquelas em que um país é tecnicamente soberano, mas vive sob a sombra de um estado mais forte, e se sente oprimido.

E há também o nacionalismo do Estado forte, que se expressa na afirmação de uma superioridade técnica e cultural, e cujos defensores sentem ter o direito de impor as suas opiniões e valores aos estados mais fracos.

Podemos aplaudir o nacionalismo dos oprimidos como algo valioso e progressivo. Podemos condenar o nacionalismo opressivo dos fortes como sendo indigno e retrógrado. Mas há, porém, uma terceira situação em que o nacionalismo xenófobo levanta a cabeça. É o de um Estado cuja população sente, ou teme, que está a perder força, que de alguma forma está em “declínio”.

O sentimento do declínio nacional é particularmente exacerbado, inevitavelmente, em tempos de grandes dificuldades económicas, como aquele em que hoje o mundo está mergulhado. Por isso não surpreende que essa xenofobia tenha começado a desempenhar um papel crescentemente importante na vida política dos estados em todo o mundo.

Vemo-la nos Estados Unidos, onde a autodenominada Tea Party quer “trazer o país para trás” e “restaurar a América e a sua… honra.” No comício de 28 de Agosto, o organizador, Glenn Beck, disse: “Quando olho para os problemas do nosso país, muito honestamente, penso que o bafo quente da destruição está a soprar nos nossos pescoços e que resolvê-los politicamente é uma intenção que não vejo em lado nenhum.”

No Japão, uma nova organização, a Zaitokukai, cercou uma escola primária coreana em Quioto, exigindo a “expulsão dos bárbaros”. O seu líder diz ter modelado a organização à imagem do Tea Party, partilhando o sentimento de que o Japão sofre actualmente de falta de respeito na cena mundial, e seguiu uma direcção errada.

A Europa, como sabemos, tem visto em quase todos os países o crescimento de partidos que querem expulsar os imigrantes e devolver o país exclusivamente às mãos dos supostos verdadeiros cidadãos, apesar de parecer difícil determinar quantas gerações de linhagens contínuas são necessárias para definir um verdadeiro cidadão.

Este fenómeno não está ausente dos países do Sul – da América Latina, da África e da Ásia. Nem vale a pena citar as múltiplas e repetidas instâncias em que a xenofobia levantou a sua feia cabeça.

A questão real é saber o que pode ser feito – se é que se pode fazer alguma coisa – para contrariar as suas perniciosas consequências. Há uma escola de pensamento que essencialmente defende que é preciso cooptar os slogans, repeti-los de uma forma adocicada, e simplesmente esperar o momento cíclico em que a xenofobia terá morrido porque os tempos económicos melhoraram. Esta é a linha da maioria dos que podem ser chamados de partidos de direita e de centro-direita do Establishment.

Mas e quanto aos partidos da esquerda e centro-esquerda? A maioria, apesar de não serem todos, parecem amedrontados. Parecem temer ser chamados, mais uma vez, de “impatrióticos”, ou de “cosmopolitas”, e de poderem ser varridos pela maré, mesmo que a maré possa refluir no futuro. Por isso falam, debilmente, de valores universais e de “compromissos” práticos. Será que isto os salva? Às vezes, mas nem sempre. Muitas vezes são varridos pela maré. Por vezes, eles chegam mesmo a entrar na maré. A história passada dos partidos fascistas está repleta de líderes de esquerda que se tornaram fascistas. Isto depois da história do homem que virtualmente inventou a palavra fascista – Benito Mussolini.

A plena disposição de abraçar valores igualitários, incluindo o direito de todos os tipos de comunidades verem respeitada a sua autonomia, numa estrutura política nacional que inclua a tolerância múltipla e as múltiplas autonomias, é uma posição politicamente difícil tanto de definir quanto de manter. Mas é provavelmente a única que oferece qualquer esperança de sobrevivência da humanidade a longo prazo.

* Immanuel Wallerstein, sociólogo norte-americano, crítico do capitalismo global, criador da teoria do sistema-mundo. A grosso modo, ela diz que não existem mundos diferentes, eliminando o conceito de Terceiro Mundo, porque há um sistema capitalista global interligado, em que existem países de Centro, Periferia e Semiperiferia, que se relacionam entre si.

Xenofobia por toda a parte?

Poder: “o perigo de uma história única”

São quase 19 minutos capazes de uma verdadeira mudança de paradigma. O discurso é meio longo para esses tempos de velocidade, mas não estamos falando justamente em mudar parâmetros? Roubei do blog do Sátiro, que roubou do Brizola Neto, o relato da escritora nigeriana, Chimamanda Adichie, que faz repensar nossas concepções. Se o espectador acha que a África é um país cheio de macacos cercados por crianças esqueléticas ou se tem uma visão mais verdadeira e humana do continente, pouco importa. Vai interessar a ambos. Talvez de jeitos diferentes, talvez toque em pontos diversos do sentimento e da compreensão. Mas vai tocar.

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“Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.”

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Para legendas, é só clicar em subtitles e escolher o idioma.

Poder: “o perigo de uma história única”