O desmatamento na Amazônia e o discurso da imprensa

O Ministério do Meio Ambiente divulgou ontem a lista dos maiores desmatadores da Amazônia. No total, foram 220 mil hectares desmatados. Considerando apenas os 100 fazendeiros que encabeçam a lista, o resultado são 2,2 mil hectares por cabeça. Um indivíduo, Léo Andrade Gomes, responde por 15,1 mil hectares de área desmatada, em duas propriedades. Mas Willian Bonner abre o Jornal Nacional dizendo que os assentamentos da reforma agrária são os culpados.

Certo, há muitos erros aí por todos os lados. Mas é importante dar a informação completa e de forma compreensível. E faltaram dados para que se compreendesse a situação, que é um tanto mais complexa do que vem sendo apresentado.

Infelizmente, os dados completos são bem difíceis de achar. Nem mesmo os órgãos do governo divulgam a informação. A EBC deu a notícia em algumas poucas frases, em que faltam muitos números para que possamos ter noção do todo.

Os assentamentos da reforma agrária feitos até 2002 tinham, em média, uma família por quilômetro quadrado, o que equivale a 100 hectares. Traduzindo isso na prática, significa que a área de cada família para produzir é de 20 hectares. Se o cidadão não derrubar a vegetação nativa da sua área, ele não planta. E assentamentos são feitos para prover terra a quem quer e precisa plantar. Ou seja, são destinados à agricultura e/ou pecuária.

Resumindo, os assentados da reforma agrária estão carregando uma culpa que não é deles.

Em áreas pequenas, o produtor vê maior necessidade de desmatar. Em áreas grandes, é possível preservar um percentual bem maior, fazendo com que seja muito mais sacanagem destruir a vegetação nativa quando se tem um terrenão.

Enquanto áreas coletivas de pequenos agricultores são culpabilizadas pelo total do desmatamento, um fazendeiro sozinho responde por mais de 15 mil hectares de desmatamento. Isso é 75 vezes mais do que a área total de um assentado da reforma agrária.

A questão é que eles receberam terra em área de floresta, mesmo sendo o Brasil um país continental, de enorme quantidade de área improdutiva esperando ser arada. Reforma agrária tem que ser feita em área apropriada para plantação. Floresta tem que ser preservada. Assentar agricultor em floresta é pedir para que se obtenha o resultado que agora se apresenta: desmatamento.

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O desmatamento na Amazônia e o discurso da imprensa

Jean-Michel Cousteau: uma declaração de amor à natureza

“Para se lutar de verdade por uma causa, é preciso ter um vínculo de amor com ela.” A introdução de Lara Lutzemberger descreve à perfeição a palestra de Jean-Michel Cousteau no Fronteiras do Pensamento, há poucas horas. Se os dados não abundaram em sua fala, tampouco uma reflexão profunda sobre a importância da preservação, é porque sobrou amor.

A fala do filho do mestre Jacques Cousteau foi isso: uma demonstração de amor à natureza. Primeiro, comentou um pouco sobre a Amazônia, região em que passou diversos meses viajando em um barco quando criança e cuja experiência repetiu há uns quatro ou cinco anos. Falou com carinho, alertando para as dificuldades que a floresta, onde está um quinto da água doce no planeta, enfrenta. Nesse 1/5, há mais espécies de peixes do que em todo o Oceano Atlântico, segundo Cousteau, o filho.

O caos

O crescimento da população assusta: “à medida que acrescentamos 100 milhões de pessoas ao planeta a cada ano, nós temos que nos tornar gestores cada vez melhores dos recursos”. O aquecimento global, mais corretamente tratado por mudanças climáticas (já que alguns lugares esquentam enquanto outros esfriam), já aconteceu no passado, mas ao longo de milhões de anos, não de décadas. Ou seja, o que estamos fazendo é acelerar o processo natural, que vai ter um impacto sobre centenas de milhões de pessoas.

A poluição, os estragos que causamos, afetam não só os animais e as plantas, mas as pessoas, que são também parte disso que chamamos natureza. O vídeo de um índio nitidamente triste, desconsolado, passava uma sensação de impotência que doía. Afetado pela poluição causada por empresas americanas que foram extrair petróleo na Amazônia, ele bradava: “Estou todo inchado, doente. Meus avós não passaram por isso. Quando eu era criança não era assim. Por causa dessa empresa, dessa doença, dessa falta de cura, eu vou morrer”. Uma pausa verdadeiramente dramática separava a última oração. Era como uma sentença doída, já decretada: ele sabia que a poluição o levaria à morte.

A cura

Mas antes de mostrar-se deprimido e pessimista diante desse cenário, Jean-Michel busca soluções, acha possível encontrá-las. É um otimista. A revolução da comunicação é, para ele, o caminho. É ela que aproxima as pessoas, que permite trocas e acelera a busca por alternativas. E com todo o amor que dedica à água e aos seres que habitam o nosso planeta, não poderia ser diferente. Um coração feliz, sempre de bem com a vida. Jean-Michel demonstrou esse sentimento ao descrever animais, encantar-se com seus recursos de proteção, de propagação da espécie, de busca de comida. Os vídeos que apresentou eram quase singelos, puros. De um contato profundo com a natureza. Tudo tem solução, porque há quem lute por ela.

O índio? Melhorou muito, graças à equipe de Jean-Michel Cousteau.

Muito mais do que uma obstinada e raivosa defesa do meio ambiente, Jean-Michel fez, entre sorrisos, uma leve e profunda declaração de amor.

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Imagem puxada do Facebook do Fronteiras do Pensamento.

Jean-Michel Cousteau: uma declaração de amor à natureza