Zero Hora em campanha por Ana Amélia

Zero Hora esperou apenas a trégua dos 100 dias de início de governo para começar a campanha para as próximas eleições.

Depois de muito negar, a representante da RBS e integrante da bancada ruralista no Congresso nacional, Ana Amélia Lemos, admitiu a possibilidade de disputar a prefeitura de Porto Alegre ou o governo do estado.

O que era óbvio até para as pedrinhas da calçada, quanto mais para o grupo de comunicação que geriu a política Ana Amélia, foi finalmente admitido pela senadora e pelo jornal, na Página 10 de hoje (29). Favorecida pela imagem repetida à exaustão durante décadas na telinha, a política agora chega com fome para disputar com a esquerda e levar o PP e os interesses de seus principais representados, os latifundiários, para a cadeira do governador.

Anúncios
Zero Hora em campanha por Ana Amélia

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?

Ficaram pendentes algumas observações sobre o resultado das eleições:

– O maior medo pós-eleição é um provável fortalecimento da ideia de Ana Amélia se candidatar ao governo do RS em 2014, ainda mais depois que a Zero Hora já deu destaque para o fato de ela “não pensar no Piratini”. Motivo extra para o PT fazer um baita governo no estado. E para comemorarmos o primeiro lugar de Paulo Paim na corrida ao Senado.

– A eleição de Manuela é surpreendente. Sei que ela tem um carisma muito grande e uma campanha muito forte, mas achei que já tivesse passado a onda mais alta e agora ela fosse simplesmente se eleger bem. Mas ela fez um número extraordinário de votos, mais de 480 mil. Apesar de ela ter conteúdo e ser uma boa política, com desempenho reconhecido, boa parte dessa votação é por impulso e sem conotação política. Ela tem tudo para vir com boas chances para a disputa para a Prefeitura daqui a dois anos.

– A eleição para o Senado é a tal da “eleição de 200%”. O número de votos é o dobro do dedicado aos outros cargos. Tem também mais candidatos concorrendo às mesmas vagas. Ainda assim, chama a atenção o fato da desconhecida Abgail Pereira, que entrou na disputa apenas para garantir a vaga de Paim, ter feito mais votos que a atual governadora, que concorria à reeleição. Foram 1.551.151 de votos para a candidata do PCdoB ao Senado, e 1.156.386 para Yeda. Quase 400 mil votos a menos. Resultado de um dos piores governos, quiçá o pior, da história do Rio Grande.

– Sobre a composição do governo do estado, está certo Tarso ao não dar a opção de o PMDB, o PSDB, o DEM e “partidos que tiveram uma posição nítida oposicionista” de comporem o governo. Como disse o governador eleito, “isso não quer dizer desrespeito nem ausência de diálogo, mas não acho que sejam partidos passíveis de uma composição conosco”. Dessa forma, Tarso deixa longe de seu governo o oportunismo do PMDB, mostrando com elegância que o partido adversário saiu derrotado.

– Ainda no domingo à noite, Serra deu entrevista em que passou bastante tempo agradecendo Marina. De fato, ele tem muito a agradecer, foi graças à candidatura verde que se concretizou o segundo turno que o tucano queria. No frigir dos ovos, o PSDB foi o único que colheu frutos com a entrada da Marina na disputa. O que só confirma a tese de que sua candidatura serviu muito mais à direita do que à esquerda.

Estaria Ana Amélia de olho no governo do estado?

Previsões para o fim da apuração

Preciso registrar o que já disse há uns quantos dias no Twitter. Não é nada genial, nenhuma previsão nunca pensada. Na verdade, é quase tudo meio óbvio, mas ainda assim deixo o registro da minha sensação: teremos Dilma e Tarso eleitos no primeiro turno.

Paim, que até pouco tempo atrás corria o risco de ficar fora do Senado pelo Rio Grande do Sul, eleger-se-á em primeiro lugar, desbancando a defensora do agronegócio e amante do latifúndio Ana Amélia Lemos (que concorre de fato pelo partido RBS e oficialmente pelo PP), que infelizmente também entrará, mas em segundo. Rigotto (PMDB), o ex-governador, que ficou em terceiro quando tentou a eleição, não será nada daqui para a frente. Quer dizer, permanecerá sendo um nada, mas agora poderá pensar em cair fora da política – é o que eu faria em seu lugar. De preferência sem tentar asfixiar pequenos jornais que travam a batalha cotidiana pelo jornalismo cidadão.

Fogaça, que largou a prefeitura de Porto Alegre e concorre a governador pelo PMDB, poderá voltar a dar aulas ou compor músicas. Mas desconfio que, além da carreira política, a carreira artística do rapaz também não vá lá muito bem. Afinal, tudo o que sua criatividade permitiu foi usar o mesmo jingle para se eleger duas vezes prefeito e concorrer a governador. O Fogaça-a-a-a-a já tem pelo menos uma década de vida e não surge nada no lugar.

Yeda pode voltar ao ostracismo a que estava acostumada antes de o destino a eleger governadora – ainda não entendo como e acuso de dedo em riste cada gaúcho que teve uma pontinha de responsabilidade no desastre que vive o nosso estado ao depositar seu voto na candidata do PSDB. A tucana concorria a tudo pelo partido e nunca alcançava dois dígitos no percentual de voto. Agora, pode levar sua arrogância de volta para São Paulo e tentar cuidar um pouco melhor dos netos que expôs para se fazer de vítima perante a mobilização justa do CPERS por melhores salários aos professores gaúchos. Que vá para qualquer lugar, mas que deixe meu estado em paz.

O PT aumentará sua bancada estadual, de 10 para 14 deputados – pelo menos 13 entrarão, mas arrisco 14, quiçá 15 – e elegerá oito federais, com chance pra nove, dada a quantidade de nomes fortes que concorrem e do bom momento do partido no país e no RS.

Previsões para o fim da apuração

A “familiaridade” de Ana Amélia com a imprensa

“A primeira pesquisa do Datafolha depois do início da propaganda eleitoral no rádio e na TV confirma a previsão de que Ana Amélia Lemos (PP) cresceria com a exposição em dois veículos de comunicação com os quais tem mais familiaridade do que os seus adversários.” – Rosane de Oliveira, na Página 10 da Zero Hora de sábado.

Dois comentários:

1. “tem mais familiaridade” é um baita eufemismo pra “tem a imprensa bancando a candidatura”. Sua familiaridade não é exatamente com as mídias TV e rádio, mas de modo especial com os que controlam a principal TV e a principal rádio do estado. Não com os meios, mas com o poder exercido.

2. Campanha do Paim (PT), vamos lá que não podemos deixar eleger Ana Amélia e Rigotto (PMDB). Disse Juremir Machado esses dias: é o melhor senador do Brasil, e sua reeleição é importantíssima.

A “familiaridade” de Ana Amélia com a imprensa

As diferenças entre os institutos de pesquisa

Apenas para registro: a primeira vez que apostei minhas fichas publicamente em uma vitória de Dilma no primeiro turno foi no dia 25 de junho deste ano.

Mas ainda via apenas como uma possibilidade. Concreta, mas não certa. Agora, depois da última pesquisa Ibope e antes de começar o horário eleitoral na TV e na rádio que vai torná-la conhecida por todos como a candidata do Lula, afirmo com convicção: se não houver um erro muito grande na condução da campanha petista ou uma sacanagem como a de 1989, Dilma se elege em 3 de outubro.

———-

Agora, o que me pegou de surpresa e me deixou chateada foi a pesquisa Datafolha para o Senado no RS, divulgada pela Zero Hora, que mostra Rigotto em primeiro, com 43% e uma diferença razoável para Paim e Ana Amélia, que têm 35% e 33% respectivamente. O que me chamou mais a atenção, na verdade, foi a discrepância

De cara, fiquei preocupada. Porque a tendência é que Ana Amélia, a candidata da RBS, conhecida mais por seu rosto do que por seu nome, cresça com a propaganda na TV. Eu apostava em uma vitória de Paim e Ana Amélia a qualquer um que me perguntasse, embora torça por qualquer coisa menos a eleição da candidata do PP.

Mas aí vi a capa do Correio do Povo e fiquei tentando entender os motivos de tanta diferença. Pela pesquisa do Instituto Methodus, Paim está em primeiro com 48,5%, Rigotto tem 47,7% e Ana Amélia vem um pouco mais longe, com 39,4%. Os três aparecem com porcentagens maiores do que no Datafolha, mas o que mais impressiona é a diferença nos números do petista entre os dois institutos.

As diferenças entre os institutos de pesquisa

A estratégia do PT para o Senado no RS

Será que o PT errou na estratégia para o Senado no RS?

Confiou no potencial de Paulo Paim, o que não é errado. Ele tem um eleitorado certo, difícil de perder. O problema foi jogar fora o segundo voto do eleitor, o que pode, inclusive, comprometer a eleição certa de Paim.

Se metade dos eleitores do petista dedicar seu segundo voto a Germano Rigotto (PMDB) e a outra metade a Ana Amélia Lemos (PP/RBS), ele corre o risco de ficar fora. Isso porque o Rigotto, por exemplo, deve contar com o voto de seu eleitor, que votaria nele em primeiro lugar, mais o segundo voto de Ana Amélia, mais o segundo voto de parte do eleitorado de Paim. O mesmo acontece com a candidata da RBS.

Paim caiu de 46% para 39%, segundo a última pesquisa Ibope, divulgada ontem (08) e encomendada pela RBS, em comparação com outra realizada pelo instituto no início de julho (lembrando que Rigotto teve exatamente os mesmos percentuais nas duas pesquisas e Ana Amélia também caiu).

Fico pensando se não teria sido melhor investir em outro nome forte para puxar votos, mesmo que não elegessem os dois. Seria o sacrifício de uma candidatura a outra vaga, mas em nome de um resultado importante. E ainda, dependendo de qual fosse esse segundo nome, poderia eventualmente (com uma boa campanha e sorte), eleger os dois.

Mas isso são conjecturas. Se…

A estratégia do PT para o Senado no RS

Zero Hora preconceituosamente desdenha do PSOL

Às vezes a preferência partidária dos jornais é sutil. Outras vezes, escancarada. Geralmente, nota-se com mais facilidade os candidatos que os veículos definitivamente não gostam. Zero Hora fez isso hoje, de forma até um pouco agressiva.

A ideia era mostrar um panorama das eleições de forma simplificada, para o eleitor entender a política de interesses alianças que orientam a disputa no estado. Para isso, um textinho curto introdutório e caricaturas dos candidatos e dos presidenciáveis que subiriam nos palanques, junto de uma pequena explicação.

Teria sido muito bacana não fosse a caricatura de Pedro Ruas, do PSOL, nitidamente destoante do padrão da página e preconceituosa. Ele aparece como um franco atirador, um rambo, um matador. E a legenda desdenha da sua candidatura, alguém que está ali só pra fazer oposição e atirar pra todos os lados, sem chance alguma de se eleger. Mas não dá o mesmo tratamento a Beto Albuquerque (PSB), Yeda Crusius (PSDB), Luis Augusto Lara (PTB) e o candidato ainda indefinido do PV, igualmente com pouquíssimas chances no pleito. É preconceito, dos grandes.

———-

Enquanto isso, na página ao lado, Rosane de Oliveira confirma a candidatura da jornalista Ana Amélia Lemos ao Senado pelo PP. A extrema direita no RS. E o pior é que é possível que a reacionária comunicadora se eleja, amparada pela ampla exposição de seu rostinho há muitos anos nas páginas e telinhas do Grupo RBS. Sempre com a camisa da empresa bem vestida, defendendo-a e sendo apoiada. Suas opiniões convergem com as do Grupo, sacomé.

Zero Hora preconceituosamente desdenha do PSOL