Para reflexão

Leio Antonio Luiz M. C. Costa dizendo que “ao menos um setor industrial, o bélico, será poupado de cortes significativos em meio à pior crise desde 1929, mesmo se gastos sociais são cortados sem piedade e a existência dessas armas nunca pareceu tão irracional”, na Carta Capital online. Quase que ao mesmo tempo, vejo José Junior, coordenador do AfroReggae, falar à MTV de dentro do Complexo do Alemão que armas matam muito mais do que drogas, mas ninguém nunca viu um plano Estados Unidos ou um plano Israel como vemos o Plano Colômbia, porque armas dão muito mais dinheiro do que drogas.

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Para reflexão

Cresce xenofobia na Europa

Chegam ao Brasil informações de aumento da xenofobia nos Estados Unidos e na Europa que assustam. Especialmente no nosso país, que acolheu tantos europeus em período de dificuldades no Velho Continente, a notícia chateia. Mas o grave mesmo está acontecendo com grupos de origem muçulmana, ciganos, africanos e até europeus mesmo, de países mais pobres, do Leste.

O preconceito é de classe, de cor e de religião, além da questão nacional. Antonio Luiz M. C. Costa dá um retrato muito bom na Carta Capital dessa semana. A xenofobia assusta quem se coloca no lugar dos imigrantes e até quem tenta imaginar o futuro dos europeus “legítimos”.

Os casos mais flagrantes vêm se dando na França. O presidente Nicolas Sarkozy tem atacado grupos de ciganos, proibiu o uso de véu pelas mulheres em território francês e vai minando as culturas estrangeiras. Mas os imigrantes já vêm sendo uma parcela cada vez mais significativa dos país europeus. No futuro, os “brancos” serão minoria.

Xenofobia é igual a falta de solidariedade

O preconceito contra eles é grave porque demonstra uma falta de humanidade muito grande. Ofende o princípio da igualdade, que deveria transcender as fronteiras. Se todos os homens são iguais, não são todos os homens brasileiros ou todos os italianos ou todos os marroquinhos, mas TODOS de fato. E se a lei trata de forma diferente os que nascem no país, seja ele qual for, dos que vêm de fora, o nosso princípio de amor ao próximo, de solidariedade, de fraternidade e principalmente de justiça e igualdade deveria prevalecer e reger nossas relações. A xenofobia é o egoísmo tomando força.

É nesse sentido que a xenofobia se identifica com a direita. É porque igualdade e justiça são princípios historicamente defendidos pela esquerda. Diante da crise, a direita se fortalece, e junto com ela cresce essa onda discriminatória, que diferencia um homem de outro como se um tivesse um gene que o tornasse melhor que o outro.

A xenofobia não é diferente do preconceito já condenado por lei que leva à cadeia aquele que ofende um negro por conta da sua cor ou daquele que despreza uma mulher como se fosse de uma classe inferior.

Europeus “brancos” serão vítimas de si mesmos

É prejudicial para os imigrantes, claro, que veem sua cultura vilipendiada e sofrem diariamente, mas um dia há de trazer prejuízos também à Europa mais tradicional, que vai precisar da população mais jovem que vem com a imigração para não sobrecarregar o sistema previdenciário da população europeia, que vai ficando cada dia mais velha.

Mas quem consegue usar a razão contra o preconceito? Se houvesse algum pensamento lógico na cabeça de quem agride, a discriminação não aconteceria, porque ela não faz sentido algum.

Cresce xenofobia na Europa

O que diz a Carta Capital sobre a crise e seus remédios

Acabei de ler a matéria de Antonio Luiz M. C. Costa da Carta Capital e, depois do post que escrevi hoje de manhã, não deu pra não puxar uns trechos. Deixo o post sobre Marina Silva no Painel RBS para amanhã.

“Dentro da Europa, como também no âmbito global, o livre comércio falha em amenizar as diferenças de desenvolvimento e às vezes as acentua, apesar dos dogmas neoliberais.

A alternativa à desintegração da Zona do Euro e, por tabela, da União Europeia é reforçar a solidariedade entre os países e conferir mais poder aos órgãos centrais da organização. (…) Mas a estrutura tecnocrática da União Europeia cada vez mais dá a impressão, tanto aos povos do Norte quanto aos do Sul, que sua função é abolir gradualmente os mecanismos da democracia, da participação popular e do bem-estar social, o que torna politicamente impopular qualquer iniciativa desse tipo.”

“Mas a maior parte dos eleitores alemães e do baixo clero do culto aos mercados acredita que o remédio para qualquer problema econômico é mais disciplina, corte de gastos e austeridade, a mesma receita que lhes foi imposta goela abaixo por décadas.”

“No momento em que mais se precisaria de ousadia e liderança, todos os principais países do Ocidente têm governos fracos. Apesar do socorro trilionário, é preciso manter as barbas de molho. A crise pode voltar, com mais força, em 2012 ou 2013.”

O que diz a Carta Capital sobre a crise e seus remédios

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela

Não se consegue mais controlar pessoas pela ideologia. Não há uma forma de pensar, uma forma de ver o mundo que partilhe da unanimidade – ou quase – da população, um senso comum. Não há um american way of life que faça com que todos hajam da mesma maneira, tenham os mesmos objetivos, julguem a vida a partir da mesma ótica. Esse é o argumento principal da matéria de Antonio Luiz M. C. Costa sobre a crise de hegemonia do Ocidente, capa da Carta Capital dessa semana.

A hegemonia é tratada por ele do ponto de vista de Gramsci, que é mais ou menos isso que foi descrito no parágrafo anterior como inexistente, como em crise. Não sei se concordo. Compartilho da visão do jornalista de que surgem o tempo todo grupos que divergem do tal senso comum, que na Europa principalmente a coisa é muito grave com relação aos imigrantes, que nos Estados Unidos aparecem terroristas que definitivamente não concordam com a visão do Estado.

Mas ainda acho que há um senso comum capitalista. Ele é centrado no consumismo, tem nele sua base. Emir Sader falou em uma palestra, também já li textos dele a respeito, que o mais difícil de enfrentar na direita é a dominação ideológica, centrada justamente no consumismo. Isso é difícil de romper, é o terreno onde fica mais complicado de lutar.

A matéria informa que é devido a essa crise de hegemonia, que concordo que há, mas em escala menor do que o autor atribui, que são tomadas medidas autoritárias, que usem a força. Naquela velha tática de que quando conversar não resolve, palmada. É a força bruta, guerras, violência contra imigrantes, mas também coerção, humilhação, invasão. Tanto por grupos extremistas como pelo governo.

Humilham-se os imigrantes, a xenofobia só cresce, tanto na Europa quanto em outros lugares, inclusive na América Latina – em São Paulo, por exemplo, cidade que recebe muita imigração, bolivianos são tratados como lixo. Nos Estados Unidos, foi aprovada a continuidade de medidas coercivas do governo Bush, como vigilância telefônica, invasão de residências etc. E como não lembrar da paranóia em que se transformaram os aeroportos?

Isso tudo serve para combater supostos terroristas, ou seja, a divergência, o pensamento diferente. Funciona? Claro que não. A paranóia só tem aumentado, acompanhada de medo, pânico. E com eles a desorganização, o caos. A violência só aumenta, porque as divergências ficam mais claras com esse combate a elas. E aumentam.

Se há uma crise de hegemonia que vem preocupando pela exacerbação da violência, pelo crescimento do número de atitudes radicais, pela força cada vez maior da extrema direita, ela não pode ser combatida com mais hegemonia. A matéria não fala qual é a solução para o problema, até porque encontrá-la é tarefa das mais difíceis, e resolveria os conflitos atuais mais importantes. Mas definitivamente, boicotar as ideias divergentes não parece o melhor caminho. A Carta Capital afirma: “A combinação de ódio, medo e força acabam com as possibilidades de consenso”. Mas o consenso é bom? Bom para quem? A dominação fica mais fácil, é fato. As elites lucram com a calmaria. Já diria Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. E olha que ele era de direita, que é exatamente onde se encontram aqueles que querem coibir a qualquer custo os que não se encaixam no padrão ocidental.

Se há uma solução para essa crise, ela passa pela tolerância. Religiosa, racial, de gênero, de fronteiras. É no respeito à diversidade que se vai chegar à paz. Se isso vai de fato acontecer, impossível saber. Mas só enxergo essa alternativa. Quanto mais agredida uma pessoa se sentir por determinada característica ou forma de pensar, mais revoltada ela vai ficar. Violenta. A solução se resume em tolerância e solidariedade.

O problema não é a crise de hegemonia, mas como lidar com ela

Lendas urbanas de Honduras, por Antonio Luiz M. C. Costa

“Zelaya queria manter-se indefinidamente no poder.
O presidente planejava uma consulta sobre a celebração de um referendo a respeito de uma Constituinte juntamente com a eleição de seu sucessor. Se o resultado da consulta fosse positivo, serviria apenas como argumento em favor do referendo ante o Legislativo. Se o Congresso cedesse e o resultado do referendo fosse positivo, a Constituinte seria eleita no próximo governo e, mesmo que aprovasse a reeleição, Zelaya só poderia se candidatar em 2014.

Zelaya incorreu no artigo 239 da Constituição de 1982, que cassa o mandato e os direitos políticos, por dez anos, de quem propor reeleição.
O presidente não incorreu no artigo 239. Não propôs reeleição e sim um referendo sobre uma ampla Constituinte. Já Micheletti, deputado em 1985, propôs expressamente uma reforma constitucional para prorrogar o mandato do então presidente Roberto Suazo. Desistiu por pressão dos militares, mas nem ele nem Suazo foram punidos.

A deposição de Zelaya foi legal e regular.
Pelo artigo 313 da Constituição, a Suprema Corte tem jurisdição para processar e julgar o presidente, mas se cabia processo por abuso de autoridade por tentar rea-lizar uma pesquisa de opinião sem autorização legal, teria de ser dentro de procedimentos legais com direito de defesa e contraditório (art. 82). Não foi assim: na madrugada do domingo da consulta, os militares invadiram o palácio e expatriaram o presidente, o que é expressamente proibido pela Constituição (art. 102). A ordem de prisão apareceu depois do fato consumado, embora o procurador-geral e um dos juízes da Corte alegassem tê-la emitido e aprovado em segredo, na sexta-feira. Se fosse regular, deveria ser executa-da pela polícia, depois das 6 da manhã.”

Quer mais? Tem aqui.

Lendas urbanas de Honduras, por Antonio Luiz M. C. Costa